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Crítica | Graduação (2016)

por César Barzine
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A frieza das relações familiares tem sido uma abordagem constante no cinema europeu contemporâneo. Tendo como grande destaque a presença de países que foram historicamente menos expressivos em suas filmografias, acaba sendo revelado um sinal de amadurecimento no grosso da produção deste continente. Países como Polônia, Turquia e Romênia têm abraçado um cinema cinzento, que trata o interior humano através de peculiaridades em meio ao individualismo de pessoas insensíveis e antipáticas. Essa descentralização da cinematografia europeia de nações já maduras (França, Itália, Alemanha) apresenta um tipo de produção que não se enquadra entre os maneirismos pelos quais esses países trilharam um longo caminho. Até mesmo em comparação a cinematografias de menor destaque – Suécia e Dinamarca, que também continham uma estética obscura e melancólica -, acaba tendo esse distanciamento estético e temático.

Instinto Materno, outro filme romeno sobre a relação de pais e filhos, apresenta notáveis contrastes com a obra de Mungiu. Neste longa, há a relação protecionista de uma mãe com o seu filho, este (já bem velho) que sequer demonstra alguma reciprocidade com ela. A protagonista, apesar de não ser uma pessoa afável como um todo, encara a situação tensa que seu filho se envolveu com um excesso de delicadeza para blindá-lo do mundo ao redor. Já em Graduação há o exato oposto: vemos um pai tentando empurrar a filha o mais forte possível para este mundo, tendo uma relação totalmente desapaixonada por ela. Sendo mais específico, ele quer que ela siga rigidamente o caminho que ele mesmo estabeleceu (estudar em Cambridge, na Inglaterra), ignorando suas particularidades e o trauma de ter sido estuprada recentemente.

O ataque cometido contra a jovem não é o ponto central nem do filme e nem das preocupações do pai dela; para ele, a única coisa que importa é ver sua filha atingir uma certa posição social, nem que para isso ele tenha que passar por cima das leis e de sua condição como pai. Esses dois fatores vão além de uma crise ética individual, levando a abrangência de uma verdadeira crise humana e sistemática. A insensibilidade daquele pai é conduzida pelo fato dele encarar sua filha como um projeto, um ser inautêntico que tem a função de alcançar aquele objetivo imposto por ele. E na tentativa de justificar a sua posição, ele diz que o mundo lá fora “cobra muito de alguém” e que ela ficará desamparada. Podemos ver (como simbolismo) essa ideia de que é Romeo que comanda a vida de Eliza, sua filha, no simples fato da garota nunca sentar no banco da frente do carro que seu pai dirige, mesmo que o banco esteja vazio. Sua ausência na dianteira daquele espaço e o distanciamento entre ela e o seu pai sugerem a ligação engessada que eles possuem, onde o único assunto que é levantado trata-se do futuro que Romeo escolheu para Eliza. 

Naturalmente, é usado o recurso de plano-contraplano nas sequências internas do automóvel – dada a distância entre os personagens. A falta de dois personagens centrais – em relação a determinadas cenas – juntos na profundidade de campo também é vista em outras sequências. Uma delas é o interrogatório do qual passa Romeo, e a outra é o momento de identificação dos suspeitos. Neste segundo caso, um dos objetos cênicos (a própria Eliza) até aparece em campo, mas apenas pela traseira de seu corpo enquanto observa os suspeitos. A cena já é forte por si só, levando a um clímax em que um dos suspeitos se exalta; mas essa passagem também serve como complemento do “não mostrar” que o filme constrói. Ao ter dois personagens numa relação em que um se sobrepõe ao outro por meio da intimidação, acaba ocorrendo a anulação da imagem de algum deles – seja por meio do plano longo ou do plano-contraplano, que oscila entre os dois objetos, como se tivesse uma barreira. Caso não haja o uso de alternância na montagem, pode ocorrer uma intimidação pela ausência da fisicalidade daquele que se impõe (o policial questionando Romeo), ou pela inquietação dessa mesma fisicalidade sendo apresentada (a agressividade do homem na delegacia). Tanto pelo sugestivo quanto pelo expositivo, há um confronto no qual pai e filha se sentem sufocados.

Graduação nos leva a um simples questionamento diante de seus falsos dilemas: teria Romeo, de fato, amor pela sua filha? Obviamente, ele carrega um tipo de apego por ela, mas essa relação está mais no peso material daquilo que ela pode produzir (ser bem sucedida) do que nela em si mesma. Há uma clara recusa da moral kantiana, de tratar o ser humano como fim e não como meio. Porém, Romeo vai além da banalidade de qualquer instrumentalização humana: ele é produto de um imaginário capitalista que torna a sua paternidade um fetiche, e a sua filha uma mercadoria. No entanto, o maior problema de tudo isso não é essa visão que trata Eliza como um investimento, e sim a falta de empatia do pai com a própria filha que foi estuprada. “Ela não foi estuprada, foi apenas atacada”, diz ele duas vezes. Nem sequer tenta disfarçar a sua frieza, pois o futuro dela em Cambridge está acima de qualquer “imprevisto” ou dificuldade.

O desafeto entre as relações familiares poderia remeter ao russo Sem Amor, porém o problema na trama de Graduação não é o silêncio dentro do núcleo familiar, mas o som gritante da qual se impõe o monólogo. O diálogo é negado, sobra-se o discurso das “responsabilidades e oportunidades”. Tudo isso para Eliza escapar da vida medíocre que o seu pai acredita que ela terá caso não faça as escolhas certas – que são as que ele quer. Tão rígido quanto Romeo é a decupagem de Mungiu, com planos estáticos que reforçam a dureza daquela história. O drama, aqui, se encontra na desconstrução da paternidade em detrimento de uma intersubjetividade calculadamente materialista. Assim ocorre o choque na frieza do esvaziamento familiar ao lado da frieza de uma decupagem tão distante quanto os personagens. O que remete ao oposto do já citado Instinto Materno, que, partindo do intimismo e da potencialização do afeto, acaba realizando uma decupagem totalmente solta e dinâmica.

Eliza, uma bela jovem e estudante assídua, é movida por uma abordagem que prende seus interesses e sua subjetividade; a interpretação de Maria-Victoria Dragus esconde, na maior parte do tempo, as inquietações que a respectiva personagem possui através do jeito dócil que é encarnada. Essa docilidade não é aplicada no sentido angelical, ela é expressada justamente pela falta de expressão; o jeito passivo de Dragus, com pouca verborragia e sem coragem para enfrentar certas situações, marcam uma personagem que é vítima não apenas de um estupro, mas também da coerção passivo-agressiva de seu pai. Este, que se encontra ainda mais alienado do ambiente familiar ao encontrar apoio afetivo em uma amante, mas com quem não quer assumir o relacionamento, deixando na superfície mais uma pessoa em sua vida. Para Romeo, as ligações formais dentro do tecido social – isto é,  a vida pública e residencial que possui – são vazias de sentimentos; já os seus verdadeiros laços afetivos estão escondidos na margem, por isso a recusa de revelar o caso com a amante.

A inércia presente no papel que um pai deve exercer também é questionada no filme Força Maior, em que, durante uma avalanche, um homem corre do local que estava, deixando sua esposa e filhos para trás. Partindo disso, a esposa dele fere a sua dignidade, cobrando pelo ideal de masculinidade defensora da família. Por outro lado, na história de Graduação, não há o fardo da culpa para o chefe de família, assim como a honra dele permanece intacta, imune a intimidações. O que é execrável no trabalho de Mungiu está na insensibilidade perante uma situação alongada, e não no impulso naquilo que é imediato.

Pode-se dizer que, na posição de médico, Romeo é um sujeito bem-sucedido. Então por que ele se projeta tanto em outra pessoa? Certamente porque ele é incapaz de se deixar tocar por esse mesmo alguém. O problema está na cegueira que ele tem diante de um simples indivíduo, daí o seu apego ao futuro de Eliza – aquilo que ela ainda não é. Romeo também demonstra incapacidade de ser tocado por sua esposa, sua mãe e a vida de modo total. A alienação dele coloca a Lei e as regras como somente um pequeno obstáculo a ser superado neste jogo; mas para um homem que já passou por cima da própria filha, o sistema é apenas um degrau qualquer.

Graduação (Bacalaureat) – Bélgica, França, Romênia, 2016
Direção: Cristian Mungiu
Roteiro: Cristian Mungiu
Elenco: Rares Andrici, Maria-Victoria Dragus, Vlad Ivanov, Malina Manovici, Valeriu Andriuta, Eniko Benczo, Lia Bugnar, Gelu Colceag
Duração: 128 minutos.

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