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Crítica | Gyo

por Luiz Santiago
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Junji Ito não ganhou o apelido de “mestre dos mangás de horror” à toa. Sua obra está repleta de exemplos notáveis de como ele consegue manipular as mais diversas coisas do cotidiano e transformá-las em portadores de algo horrendo, perturbador e mortal. Gyo, que foi originalmente publicado entre 2001 e 2002, mostra os jovens namorados Tadashi e Kaori passando um pequeno período em Okinawa. Tadashi está praticando mergulho e é atacado de forma “muito suspeita” por um tubarão, escapando de última hora. Esse início já acende uma luz de grande atenção na mente do leitor, que fica ainda mais intrigado quando Kaori, que sempre teve um olfato extremamente delicado, passa a reclamar de um forte fedor de podre que parece estar em todo lugar.

O roteiro começa fazendo com que a gente sinta raiva do relacionamento de Tadashi e Kaori. À primeira vista parece-nos que o fedor e o bicho que corre rápido e que nem um dos dois consegue ver está interferindo nos ânimos da dupla, tornando-os cruéis um com o outro. É um início tenso, porque estabelece um perigo à solta na região, deixa muito claro o problema em torno de um cheiro horrível, quase insuportável e, além disso, elenca discussões de relação cheias de acusações e frases bastante duras. O medo, em Gyo, não está apenas nos sentidos, e já começa desequilibrando as pessoas emocionalmente.

No final do primeiro capítulo (Cheiro da Morte no Mar Tropical) a gente vê pela primeira vez o peixe apodrecido no “andador” e, pouco tempo depois, descobrimos do que se trata toda essa bizarrice. É em torno dessa primeira explicação que está plantado o verdadeiro problema de Gyo. O necessário contexto para o horror da trama é dado aqui como uma mistura de ciência de guerra (criação de uma arma biológica) mais a descoberta de uma determinada bactéria. Lá para o final do volume, porém, essa explicação acaba sendo soterrada por indicações alienígenas, e até o tratamento que o autor dá aos gases emitidos pelos corpos nos “andadores” acaba se tornando um problema também, já que aparentemente carregam/representam as almas de milhares de pessoas. A bagunça geral desse contexto recebe o seu golpe final justamente quando o autor resolve colocar o ponto na história da forma mais abrupta e um tantinho frustrante possível.

A forma física desse horror gerado no mangá nos faz pensar em uma crítica do autor ao processo de “máquinas criadas pelo Estado para explorar pessoas“, que é justamente o que esses “andadores” fazem: primeiro utilizando os corpos dos peixes — os que tinham disponíveis — e depois partindo para os humanos e todos os tipos de animais. Vemos aqui um receptáculo que se agarra aos indivíduos contaminados por uma bactéria e, através de um processo parasitário, se beneficia dos gases emitidos pelos corpos, até que definitivamente apodreçam e não cedam mais ‘combustível’ para que os “andadores” funcionem. É uma crítica direta, bastante fácil de visualizar e que pode ser atribuída a diferentes áreas, indo da trabalhista à histórico-imperialista do Japão, passando até pelas formas simbólicas de interpretação também, se pensarmos essas criaturas como sendo a depressão ou a ansiedade utilizando de maneira terrível o corpo dos indivíduos “contaminados” por elas.

O que não decepciona de modo algum em Gyo é a arte. Ver pessoas e bichos expelindo gases por tudo quanto é orifício é algo muito terrível, e o clima de destruição do Japão que os desenhos vão mostrando, à medida que a praga de “andadores” e bichos toma conta de tudo, é algo desolador. Nas criações de Ito a gente vai progressivamente perdendo a esperança de que as coisas podem melhorar, ganhando a sensação de perdição eterna, do proverbial fim do mundo. Entretanto, nessa história, o autor resolveu terminar com uma centelha de esperança, deixando Tadashi e mais alguns jovens da Universidade de Tohto como imunes à bactéria, sendo possivelmente os criadores de algo que irá combater o horror que tomou conta do país.

Em outra ocasião, talvez com um melhor desenvolvimento da parte final, este seria um bom encerramento do mangá, com uma pincelada de beleza lírica em meio a tanta coisa horrenda. Mas confesso que até nisso eu tive alguma dificuldade de validar por completo, já que nunca tivemos uma demonstração verdadeira de amor entre o casal protagonista, e mesmo após ser contaminada e colocada no “andador” pelo tio cientista maluco de Tadashi, Kaori se demonstrou doentiamente ciumenta, o que não é exatamente um bom sinal em uma relação… Mas diante de tanta coisa ruim que aconteceu, eu entendi e de certa forma aceitei a escolha final pensada por Ito. Uma pena ter brotado do nada e ser resultado do abandono de muitas subtramas abertas no meio da narrativa, o que não torna Gyo uma obra ruim, mas certamente a afasta de ser um grandioso trabalho que, apesar de tudo, tem a altíssima capacidade de deixar qualquer um perturbado e sentindo um certo cheiro de podre ao seu redor.

Gyo (Gyo Ugomeku Bukimi / ギョ うごめく不気味 / Volumes 1 e 2) — Japão, 2001 – 2002
Publicação original: Shogakukan / Big Comic Spirits
Roteiro: Junji Ito
Arte: Junji Ito
No Brasil: Editora Devir (Coleção Tsuru)
408 páginas

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