Crítica | His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X01: Lyra’s Jordan

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  • Confira a crítica para os outros episódios da série aqui.

Baseado na famosa obra de Philip Pullman, a série His Dark Materials (Fronteiras do Universo) traz para o público uma realidade alternativa da humanidade, “um mundo tão igual e, ao mesmo tempo, tão diferente do nosso“, onde diversas lendas convivem com a existência de pessoas que estudam, trabalham, amam e, no momento em que chegamos à esta realidade, temem. Temem por algo ruim que deve acontecer em breve, trazendo um rastro de tragédias e tristezas consigo. E é nesse estágio de “preparação para o pior” que o Piloto do showLyra’s Jordan, nos posiciona.

O episódio é dirigido por Tom Hooper e se baseia na cartilha básica dos capítulos de apresentação de séries, dedicando um breve espaço para a exposição do conflito (de modo um pouquinho errático no começo, mas pouco a pouco bem mais interessante) e principalmente para a introdução dos personagens principais, seguido do conceito geral, da proposta da série e de uma visão considerável desse Universo. A direção de arte se atém bastante ao realismo geográfico, mas ao mesmo tempo mergulha paisagens, arquitetura e tecnologia conhecidas com criações que atribuímos a um cenário steampunk, medida bastante curiosa e que cria uma percepção totalmente diferente do espectador em relação ao que está vendo, mesmo se comparada à mesma criação de Universo vista em A Bússola de Ouro (Chris Weitz, 2007).

Uma das minhas preocupações iniciais era a forma como a direção e a produção iriam lidar com os daemons ao longo do episódio. Estas criaturas são a personificação física (em forma animal) da alma de seu dono, variando de tamanho, espécie e cor durante a infância, mas fixando-se como um único animal a partir da puberdade do indivíduo. Por estarem sempre acompanhando seus donos e terem um papel ativo no desenvolvimento do enredo, eu temia pela representação disso na tela, mas já neste capítulo inicial me foi provado que não havia nada a temer. Esses bichinhos (e os bichões também) estão perfeitamente inseridos no cotidiano dos personagens, sem sobreposição, sem parecer algo forçado ou atrapalhando a dinâmica cênica, sem contar nos ótimos efeitos para eles ao longo de todo o capítulo, algo que já podemos tomar como um padrão para a série.

Nesse roteiro inicial, escrito por Jack Thorne, temos como foco o início da jornada de Lyra Belacqua, interpretada de maneira competente por Dafne Keen. Não há muito a que o espectador precise se apegar para acompanhar os dias corridos da personagem, com sua personalidade inquieta, sua rebeldia, sua relação próxima e ao mesmo tempo difícil com o tio — Lord Asriel, interpretado por James McAvoy, em ótima construção de personagem preocupado, sabendo que muita coisa está em suas mãos –, e pela bela relação que tem com o melhor amigo Roger Parslow (Lewin Lloyd). Algumas intrigas em Oxford começam a acrescentar mistério à saga, mas é quando as nuances de uma famosa profecia vêm à tona e quando algumas crianças começam a desaparecer (inclusive o melhor amigo de Lyra) que a aventura de fato inicia, numa viagem aparentemente simples a Londres.

Uma forte marca épica (e a trilha sonora não deixa que a gente se esqueça disso) pode ser vista como intenção geral da produção aqui, mas o espectador não deve esperar nada tão “na sua cara” como Game of Thrones, série constantemente citada pelos fãs como um comparativo em relação à produção de Fronteiras do Universo. Não é bem assim. A abordagem aqui tende a ser mais rica logo de cara, mas não se mostra muita coisa num primeiro momento, e a direção aposta em um grande número de cenas em interiores, para que nos acostumemos com os personagens e seus daemons, seus pensamentos e observação do que se passa ao seu redor. Contudo, a “saída para o mundo” acontece. E a grande promessa para a série se fixa em alto estilo. Uma daquelas fantasias que dá gosto de ver.

His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X01: Lyra’s Jordan — Reino Unido, 3 de novembro de 2019
Direção: Tom Hooper
Roteiro: Jack Thorne (baseado na obra de Philip Pullman)
Elenco: Dafne Keen, James McAvoy, Helen McCrory, Ruth Wilson, Lin-Manuel Miranda, Anne-Marie Duff, James Cosmo, Cristela Alonzo, Georgina Campbell, Mat Fraser, Clarke Peters, Kit Connor, Morfydd Clark, Ian Peck, Ariyon Bakare
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.