Crítica | Irmandade – 1ª Temporada

Mais uma produção brasileira distribuída exclusivamente pelo Netflix, Irmandade é um drama prisional de ficção criado por Pedro Morelli, mas claramente baseado em fatos reais, com uma interessante localização temporal em 1994, pareando a evolução da seleção brasileira na Copa do Mundo daquele ano com os eventos que se desenrolam ao longo de seus oito episódios. Com roteiros trabalhando clichês do gênero de maneira inteligente, a narrativa é focada não exatamente na ascensão de uma facção criminosa dentro do presídio da Ratoeira, ainda que ela tenha grande relevância, mas no mecanismo insidioso e cíclico do sistema carcerário do Brasil e também de muitos outros países, quase que como um labirinto em que, uma vez dentro, é impossível sair.

Aos mais afoitos que acham que Irmandade glorifica criminosos, é necessário calma e interpretação. Entre Carandiru e Cidade de Deus, obras cinematográficas do mais alto calibre que retratam essa mesma estrutura labiríntica, além dos diversas outros massacres, alguns dos mais recentes sendo os que ocorreram nos dois presídios de Manaus e outro em Roraima, o reconhecimento de que há algo historicamente errado no sistema existente no país é inevitável, além da clara inspiração da facção fictícia no PCC, que teve seu berço justamente em Carandiru. Irmandade é apenas mais uma obra que traz uma visão “de dentro” e que coloca sim marginais no protagonismo, mas sem nunca baixar a cabeça para seus terríveis atos. Mas a série também não baixa a cabeça para a realidade da polícia, algo que sua temporalização nos anos 90 ajuda a distanciar do momento presente, mas claramente indicando que essa doença ainda não foi curada.

Feito esse necessário introito, Irmandade é uma eficiente costura de todos os clichês do sub-gênero “filme de prisão”, com traições, conflitos internos, brutalidade policial (e marginal também), tentativas de fuga com direito até a escavação de túnel e o uso de um ponto-de-vista externo, que é seu maior acerto, na verdade. Esse visão é a de Cristina (Naruna Costa), advogada que trabalha no Ministério Público que acaba ajudando seu irmão Edson (Seu Jorge), preso há 20 anos, a escapar da morte certa nas mãos do violento diretor do presídio. Para fazer o que ela percebe como Justiça, Cristina é obrigada a agir nas sombras e seu erro desencadeia sua entrada na facção criminosa comandada pelo irmão e que dá nome à série, tudo a partir de chantagem do policial Andrade (Danilo Grangheia) que investiga Edson e quer de todo jeito localizar Carniça (Pedro Wagner), co-fundador da Irmandade e que está foragido.

A espiral em que Cris se mete é desesperadora, com a protagonista tornando-se o típico personagem azarado que tem uma sorte inacreditável, sempre saindo de sinucas de bico com sua inteligência e uma boa dose – mas não exagerada – de deus ex machina, bem no espírito de obras dessa natureza. Mas, narrativamente, há dois momentos bem marcados na temporada: a entrada de Cristina na Irmandade como espiã para a polícia e a tentativa de fuga dos detentos do presídio. A divisão acontece quase que literalmente no meio da história, mas não há solução de continuidade entre uma parte e outra. Aliás, muito pelo contrário, pois os roteiros são cuidadosos justamente em usar a personagem como guia para o que acontece, mesmo que tenhamos que aceitar o que talvez possa parecer como uma facilidade muito grande de adaptação de advogada nesse meio.

Mas aceitar torna-se fácil justamente pelo trabalho dramático de Naruna Costa, que entrega uma personagem que, por mais que muitas vezes pareça alguém perdida na multidão, sem saber para onder ir, para onde olhar e quem seguir, o que faz pleno sentido na construção narrativa, mostra-se forte o suficiente para enfrentar seus medos sem, porém, deixá-los à flor da pela, jamais simplesmente parecendo a “fortona” que nada sente e que encara qualquer bandido com tranquilidade. Há uma qualidade muito humana na performance da atriz que sem dúvida é o destaque da temporada. Seu Jorge, por seu lado, faz o típico bandido violento que porém tenta ser justo de seu jeito, criado exatamente pela impossibilidade de sair do sistema, uma vez lá dentro. Sua atuação tem bem menos nuances que a de Naruna, mas exatamente por isso o contraste funciona bem, com seus olhos arregalados, narina fumegante e veias saltadas, além de diálogos que se baseiam em frases feitas. Outros destaques são Pedro Wagner como o quase desvairado e completamente violento Carniça, o segundo em comando da Irmandade que faz o que é necessário para galgar os degraus, Hermila Guedes como Darlene, esposa de Edson e uma das líderes da facção fora do presídio e uma das únicas a desconfiar intermitentemente de Cristina, Lee Taylor como Ivan, o “bandido bonzinho”, personagem feito para agradar o espectado e Wesley Guimarães como Marcel, irmão mais novo de Cris e Edson que tem a função de ser o olhar inocente para tudo aquilo que testemunha.

E é de fato o elenco o grande trunfo da série. Sem ele, a sucessão de momentos retirados do “manual de filmes de prisão” não funcionaria tão bem e até mesmo o artifício que mencionei sobre a paralelização da Copa do Mundo com a história sendo contada não teria a mesma força para além de si mesmo. Mas as relações interpessoais construídas ao longo da curta temporada são de se tirar o chapéu, com especial destaque para a aproximação hesitante de Cristina e Darlene, a conexão sanguínea da advogada com Marcel e até mesmo com seu irmão mais velho que não via há 20 anos e também a de Edson com Carniça e com alguns outros membros da Irmandade. E isso sem contar com a relação antitética, mas inevitável, de Cris com Andrade que dá bons frutos de tensão. E o melhor é que, nesse aspecto, os roteiros não descambam para textos melosos e bobalhões. A veracidade dos relacionamentos é chave e nem mesmo a única relação romântica da temporada é tratada com uma aura fabulesca, o que impede desvios e espectadores com olhos rolando.

Irmandade sem dúvida tem a crítica social em primeiro plano e permeando cada episódio, mas ela não é vazia ou partidária, a não ser que o espectador assim queira enxergar. É ficção, mas uma ficção que traz os elementos que quem não andar por aí com vendas nos olhos notará imediatamente em que se baseia. Mas, acima de tudo, Irmandade é entretenimento de primeira que tem no elenco o grande ás na manga.

Irmandade – 1ª Temporada (Brasil, 25 de outubro de 2019)
Criação: Pedro Morelli
Direção: Pedro Morelli, Gustavo Bonafé, Aly Muritiba
Roteiro: Leonardo Levis, Mirna Nogueira, Felipe Sant’Angelo, Iris Junges, Francine Barbosa, Aly Muritiba, Tom Hamburguer
Elenco: Seu Jorge, Naruna Costa, Hermila Guedes, Lee Taylor, Danilo Grangheia, Wesley Guimarães, Pedro Wagner
Duração: 401 min. (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.