Muitos e muitos livros já se debruçaram sobre a história do cinema e caíram na armadilha clássica (ou vício?) dos escritores que querem resolver um problema e acabam dando conta de apenas uma parte dele: ou o foco vai todo para Hollywood e o resto do mundo fica como nota de rodapé, ou o autor se perde num recorte tão específico que você lê a obra inteira sabendo mais sobre um único diretor do que sobre qualquer outra coisa. Ao longo de três anos de pesquisa, Franthiesco Ballerini se debruçou sobre a bibliografia e as várias cinematografias que iriam compor o seu merecidamente aclamado História do Cinema Mundial (Summus Editorial, 2020), um livro que preenche muito bem a lacuna de construção temática aqui apresentada e que trata o cinema como fenômeno ao mesmo tempo histórico, geográfico e cultural, dando ao cinema ugandense, colombiano ou iraniano a mesma seriedade dedicada aos blockbusters da Terra do Tio Sam.
A estrutura escolhida pelo autor para compor o livro já nos diz bastante sobre a visão do global ao local que ele procurou dar à História do Cinema. A obra se divide em três blocos complementares, com o primeiro cobrindo as grandes indústrias cinematográficas, com Hollywood (EUA) no centro, mas com espaço relevante para os projetos cinematográficos industriais de massa da Índia (Bollywood — que é o maior e mais famoso, mas não o único, já que a Índia possui outros polos além do de Mumbai, falado em hindi, como Tollywood, centrado em Hyderabad, falado em telugu; Kollywood, centrado em Chennai e falado em tamil; Sandalwood, centrado em Bangalore e falado em kannada; e Mollywood, centrado em Kochi / Thiruvananthapuram e falado em malayalam); da China continental (Chinawood) e da Nigéria (Nollywood). Já o segundo bloco se dedica inteiramente aos movimentos estéticos, narrativos e históricos que reescreveram a linguagem do cinema no século XX, como é o caso do Expressionismo alemão, da Nouvelle Vague francesa, do Neorrealismo italiano e do Cinema Novo brasileiro. Por fim, o terceiro bloco percorre o mundo, continente a continente, parando nos países que possuem produção cinematográfica minimamente notável para ser analisada e contextualizada. De toda essa abordagem, o que me deixa mais satisfeito é o fato de o autor identificar e explorar aquilo que é mais importante para a história cinematográfica de cada nação ou região antes de avançar para a próxima, o que dá ao leitor uma visão coesa e bastante sólida daquele grande tema, algo que os livros de linha cronológica raramente conseguem entregar.
Complementando essa abordagem, a pesquisa histórica do autor fala das inovações tecnológicas, do mercado, da distribuição e produção, cobrindo os pontos necessários para uma visão plural do cinema como arte, entretenimento e produto. O capítulo sobre o Expressionismo alemão, por exemplo, não se limita a descrever as sombras distorcidas de O Gabinete do Dr. Caligari (1920) ou a geometria crítica ameaçadora de Metropolis (1927), mas consegue amarrar esses filmes ao trauma coletivo do pós-Primeira Guerra, ao contexto econômico paupérrimo da República de Weimar e à dissolução do movimento com a chegada do nazismo, antes de retomar o fio décadas mais tarde, com o Novo Cinema Alemão (1962–1982). O mesmo cuidado aparece no capítulo sobre o cinema iraniano, no bloco dedicado à Coreia do Sul e, especialmente, na análise do Cinema Novo brasileiro, onde as condições políticas e materiais de produção são tratadas como parte inseparável da linguagem que se desenvolveu em nosso país.
Outra aplaudível decisão do autor foi adicionar uma lista de filmes essenciais no fechamento de cada capítulo. É verdade que essa curadoria nem sempre vai cair nas graças de leitores mais experientes e é claro que, dependendo do ponto de vista do leitor, este ou aquele diretor; este ou aquele filme deveriam constar nas indicações. Mas deve-se tirar o chapéu para a coesão das indicações ao longo do livro e como cada título apontado mostra um aspecto distinto de um período, nação ou realizador, fechando com louvor o ciclo que estava sendo analisado. No fim, essas várias listas de filmes transformam o livro em algo mais próximo de um guia de viagem para quem quer circular pelo cinema mundial com alguma segurança de que não está perdendo o essencial de nenhum território.
O capítulo final (praticamente um apêndice, mas que julgo ter sido uma ótima jogada de complemento teórico) é exclusivamente dedicado ao documentário. Colocar o não ficcional como seção independente, depois de toda a jornada pelo cinema de ficção, cria um contraponto interessante, que expande a noção do que a Sétima Arte pode ser. O cinema começa, afinal, com um caráter quase inteiramente puxado para o documental (ou abordagens similares) e apenas depois, com Georges Méliès, é transformado em espetáculo e magia, algo que é discutido, como conceito, nos primeiros parágrafos do bloco (para o leitor mais interessado em ampliar a discussão teórica sobre o tema, indico fortemente Espelho Partido – Tradição e Transformação do Documentário, de Silvio Da-Rin). No prefácio, Walter Carvalho coloca a ambição e o resultado de toda a construção de História do Cinema Mundial numa linhagem que inclui Paulo Emílio Sales Gomes e Ismail Xavier, e essa filiação não é exagerada.
Mesmo com o autor se dando a liberdade de fazer comentários políticos rasos, classificações muito peculiares e arbitrárias sobre lideranças que são “ditadores” (em oposição a outros, que são citados apenas como “governantes“, mas mereceriam outro título), o mesmo valendo para algumas classificações de governos, o livro traz, no geral, boa abordagem histórica contextual e, mais importante, específica para a Sétima Arte. Ballerini fez, com método e uma erudição de fácil acesso, aquilo que o cinema mundial merecia há muito tempo no mercado editorial brasileiro: ser tratado como uma expressão cultural que apareceu como curiosidade tecnológica nos anos finais do século XIX, e logo se tornou uma arte plural e rica, mas que espectadores e, infelizmente, alguns críticos, se limitam a achar que se resume à oposição entre “bons efeitos especiais“, “cinema exótico” e “furos de roteiro“. As ressalvas que tenho em relação ao projeto são poucas. De fato, o que temos aqui é um excelente projeto de pesquisa histórica e cinematográfica, fazendo merecer a atenção e os aplausos apaixonados que vem recebendo desde o seu lançamento. Uma valorização da riqueza e da profundidade que pode ter a Sétima Arte.
História do Cinema Mundial (Brasil, 2020)
Autor: Franthiesco Ballerini
Editora: Summus Editorial
320 páginas
