Muitas vezes mencionada como sendo a sucessora espiritual de Succession, o que não é de todo errado, ainda que eu as considere bem diferentes, Industry é, para mim, muita mais uma versão serializada que funde Wall Street com A Grande Aposta, com pitadas de O Lobo de Wall Street, O Sucesso a Qualquer Preço e até mesmo, à distância, Psicopata Americano. E digo isso como um grande elogio, pois a série criada e quase que completamente escrita por Mickey Down e Konrad Kay, eles mesmos ex-jogadores do estranho e cruel jogo financeiro que a obra retrata, consegue encontrar um excelente equilíbrio entre as vidas pessoais e profissionais de jovens que almejam o sucesso em uma profissão extremamente competitiva, que cobra preços altos tanto física quanto psicologicamente e que lida com a intangibilidade de ativos em uma ciranda manipuladora que, no frigir dos ovos, reverbera nas vidas de quem sequer tem alguma ligação direta com ela.
O foco dessa primeira temporada é na contratação temporária de cinco jovens recém-formados de faculdades diferentes para trabalharem no prestigioso banco de investimentos Pierpoint & Co., em Londres: Harper Stern (Myha’la Herrold) é uma inteligente, mas ansiosa jovem americana de origem humilde que esconde um segredo sobre sua formação acadêmica, Yasmin Kara-Hanani (Marisa Abela) é uma jovem insegura de família rica que domina diversas línguas e que usa suas conexões para conseguir clientes, Robert Spearing (Harry Lawtey) um hedonista bem apessoado muito capaz de encantar quem quer que seja, mesmo sem necessariamente demonstrar talento técnico para seu trabalho, Augustus “Gus” Sackey (David Jonsson), também de origem rica, graduado em literatura clássica, abertamente gay e o único do grupo que parece não pertencer a ele, e, finalmente, Hari Dhar (Nabhaan Rizwan), que vem de universidade pública e que mergulha de cabeça no trabalho sem se preocupar com sua saúde física e mental ou vida pessoal. Logo no início, eles – e nós – são avisados que eles estão em período probatório e que, ao final de seis meses, eles passarão por avaliação no dia do RdF (Redução da Força) que decidirá quem será efetivado, o que imediatamente aponta para o objetivo final desse primeiro ano da série e acaba regendo toda a narrativa diante da tensão que isso estabelece logo na largada.
O primeiro episódio da temporada, Iniciação, o único dirigido por Lena Dunham (criadora, diretora e roteirista de Girls), é uma aula magna de como se fazer um começo de série absolutamente irretocável. Tudo o que o espectador precisa saber sobre os cinco personagens centrais – o que os faz levantar pela manhã, suas personalidades, sua vida pessoal e como eles encaram o trabalho, dentre outros – aprendemos ao longo de um balé fluido e ininterrupto que não tem nada de didático, mas que consegue explicar tudo, embalado pela enérgica trilha sonora repleta de sintetizadores pelo músico e DJ Nathan Micay que já estabelece sonoramente toda a temporada. É um roteiro preciso, cuidadoso, com uma direção de elenco impressionante considerando a juventude e, em muitos casos, a inexperiência dos atores, além de uma montagem que sabe exatamente, em até pelo menos três casas decimais depois da vírgula, quanto tempo cada um precisa para passar a mensagem que precisa ser passada. O que vemos nesse início é magistralmente ecoado no também ótimo, ainda que não tanto, pois o sarrafo era alto, episódio final da temporada, Redução da Força, em que descobrimos quem fica e que sai, o que acontece pelas razões mais erradas possíveis, como era de se esperar pelo que é estabelecido no desenrolar da trama.
Entre o começo e o fim, a temporada caminha firme e forte, ainda que não sem soluços, com o primeiro e mais evidente deles sendo o quanto uma tragédia ao final do primeiro episódio, apesar de permanecer no pano de fundo da narrativa por um bom tempo, acaba desaparecendo por completo, ressurgindo somente em momentos muito específicos de diálogos que se contorcem para chegar nela. Entendo que o que ocorre tem como um de seus objetivos marcar com força a fria e assustadora indiferença da Pierpoint como instituição e também dos membros mais seniores, indiferença essa que acaba respingando nos jovens e servindo de elemento informador de seus caráteres, talvez com exceção de Gus, o único dos cinco que se pode dizer que mantém seus princípios inamovíveis do começo ao fim (com Jonsson mais uma vez oferecendo uma maravilhosa atuação contida), mas tenho para mim que faltou ao texto dos seis episódios do miolo realmente tratar do assunto com o devido rigor, o que leva àquela incômoda sensação de que o que acontece acontece apenas para criar aquele choque inicial no espectador.
Outro elemento relevante na temporada que deixa a desejar é o desenvolvimento dos personagens coadjuvantes. Enquanto os cinco personagens principais são muito bem trabalhados, com foco especial em Harper e Yasmin, a primeira sempre resoluta no que quer ser e que se mostra capaz de fazer qualquer coisa para chegar lá e a segunda carregando nos ombros a segurança de seu privilégio que ela, porém, tenta fazer com que todos esqueçam, e que, por seu turno, a faz esquecer que ela também, de sua maneira, é capaz de fazer o que for preciso para chegar até onde quer ir sem depender do dinheiro dos pais, os colegas mais velhos, chefes e clientes do quinteto são, em grande parte, estereótipos recortados em cartolina. Entre o chefe barulhento de Harper que se conecta com ela por também ser de uma minoria e o colega inconveniente de Yasmin, passando pelo chefe de Robert que vive sem fazer nada dependendo da permanência de seu único e importante cliente no banco, passando pelos figurões da empresa que são a epítome do “ser malvado é tudo o que precisamos ser para sermos quem somos”, faltou cuidado maior por parte dos roteiros, algo que os elevasse a algo acima do básico, mesmo que, claro, eles continuassem ganhando o tratamento que coadjuvantes normalmente ganham.
Claro que a dinâmica de abuso de poder é o grande mote da temporada, gerando momentos aflitivos, desconcertantes e revoltantes que já deixam sua marca na tragédia que mencionei, tudo isso embalado em roteiros que, apesar de usarem pesadamente o jargão da área, se fazem entender por sublimarem os detalhes, tornando-os irrelevantes para a compreensão da mensagem central. A sopa primordial para os abusos, claro, são os profissionais-fim do mais baixo escalão de um gigantesco banco de investimentos, alvos perfeitos de uma cultura tóxica ao extremo que os sufoca, os transforma em máquinas de geração de dinheiro que precisam trabalhar o tempo todo, dentro e fora desse ambiente, ao mesmo tempo em que eles próprios têm aquela fome infinita de fazer o que for necessário para subir na vida justamente nesse ambiente. Falar em mudança de cultura é tabu e não mais do que pura hipocrisia em todos os escalões, do mais alto ao mais baixo. A corrupção da alma é o preço que se paga e o que a temporada faz muito bem é mostrar que, em muitos casos, esse é um preço que alguns dos jovens (para não dizer todos) ficam felizes em pagar, não demorando a mergulhar de cabeça na podridão de relacionamentos pessoais e profissionais que parecem idênticos a ponto de as vidas deles serem sucessões de pactos faustianos que eles sequer percebem com toda a clareza que estão celebrando. Sexo e drogas são constantes tanto como escape quanto como vício, somente em um caso resvalando na honestidade. Os membros do elenco que vivem o quinteto jovem, vale dizer, também se entregam a seus personagens, cada um prezando pelas características pessoais de seus respectivos papeis, mas, ao mesmo tempo, vagarosamente – mas nem tanto – convergindo para uma espécie de amálgama em que a única regra que realmente vale é matar ou morrer.
Quando o primeiro ano de Industry acaba, o espectador está exausto, mas no bom sentido, claro. A sensação que fica é a de um infinito ciclo autodestrutivo que é parte de uma máquina que gira dessa forma desde tempos imemoriais e que se alimenta de partes de si mesma em uma autofagia que destroça as vidas jovens que, em um piscar de olhos, tornam-se vidas de zumbis catequisados a desejarem apenas o sucesso a qualquer preço. A série é um alerta, mas, ao mesmo tempo, ela tem a perfeita consciência de que de nada adianta chamar a atenção para algo dessa magnitude tão incrustado nos pilares do capitalismo, pois as mudanças não virão e, se vierem, fatalmente serão insuficientes, meros paliativos para permitir que a máquina continue funcionando a todo vapor. Afinal, a indústria não pode parar.
Industry – 1ª Temporada (Idem – EUA/Reino Unido, de 09 de novembro a 21 de dezembro de 2020)
Criação: Mickey Down, Konrad Kay
Direção: Lena Dunham, Tinge Krishnan, Ed Lilly, Mary Nighy
Roteiro: Mickey Down, Konrad Kay, Sam H. Freeman, Kate Verghese
Elenco: Myha’la Herrold, Marisa Abela, David Jonsson, Harry Lawtey, Nabhaan Rizwan, Freya Mavor, Will Tudor, Ken Leung. Conor MacNeill, Sagar Radia, Ben Lloyd-Hughes, Priyanga Burford
Duração: 402 min. (oito episódios)
