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Crítica | Inferno (1999)

Uma combinação inusitada e bizarra de ingredientes.

por Ritter Fan
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John G. Avildsen, conhecido por comandar os sucessos Rocky: Um Lutador e Karatê Kid – A Hora da Verdade, tentou, mas não conseguiu, ter seu nome retirado da direção de Inferno depois que seu corte original, que tinha o título Coyote Moon, foi mutilado pela produção a pedido de Jean-Claude Van Damme, que detestara o resultado. Provavelmente nunca conheceremos a visão original do cineasta que, depois desta empreitada, aposentou-se, vindo a falecer em 2017, mas é perfeitamente possível ver o porquê de ele ter tentado desvencilhar-se de qualquer conexão com a obra ao mesmo tempo em que é possível discernir seu potencial.

Fica evidente que, em algum momento da produção, o corte original sofreu alterações profundas que fizeram o filme ficar tonalmente enlouquecido, começando com ambições filosóficas que logo são deixadas de lado e trocadas por uma pegada de pancadaria trash sem fim com montagem truncada, mas inspirada na estrutura clássica de Yojimbo – O Guarda-Costas, e uma curiosa pegada cômica, por vezes até satírica, com personagens extremamente caricatos, além de pitadas de romance salpicadas aqui e ali. Ou seja, é uma salada com ingredientes que, separadamente, podem agradar diversos gostos diferentes, mas que, juntos, nem sempre funcionam ou, talvez melhor dizendo, raramente revelam harmonia.

Trata-se, no fundo, de uma história de vingança em que o traumatizado e suicida ex-soldado Eddie Lomax (Van Damme), ao parar no meio do deserto em razão de um defeito em sua moto, tem sua tentativa de suicídio interrompida por uma gangue que não só rouba seu veículo (na verdade, um presente a seu amigo Johnny Sixtoes, vivido por Danny Trejo), como o deixa às portas da morte. Em outras palavras, Eddie, ironicamente, encontra, em sua quase morte, uma razão para viver, que é recuperar a moto e vingar-se de seus algozes. Essa é a abordagem filosófica que mencionei, com direito a pareamento de Eddie com os coiotes da região, visões de seu amigo e uma tentativa de se criar um personagem trágico.

O processo de vingança em si, com Eddie fazendo duas gangues rivais se enfrentarem, ao mesmo tempo em que faz amizade com os estranhos habitantes da cidadezinha local, o que inclui Jubal Early (ninguém menos do que Pat Morita), que todos os dias espera pelo retorno de sua amada e revela aptidão em livrar-se de corpos, Eli Hamilton (Bill Erwin), dono da loja de armas que vive acorrentado nos fundos até Eddie libertá-lo e a bela Rhonda Reynolds (Gabrielle Fitzpatrick), garçonete por quem Eddie se apaixona instantânea e bregamente, é demasiadamente truncado. Percebe-se que a linha narrativa de Yojimbo tinha mais a oferecer, mas ela é logo defenestrada por uma estrutura mais básica de enfrentamento direto que faz o longa perder o que poderia ter de força. Por outro lado, a comicidade – proposital e também inadvertida – dos personagens, dos membros enlouquecidos e genéricos das gangues, passando pelas duas belas loiras que Eddie salva e que depois querem agradecer da maneira mais carnal possível e chegando no esterotípico indiano Mr. Singh, que é vivido pelo americano (e nada indiano) Vincent Schiavelli que do nada usa um sabre para dilacerar um bandido é algo tão surreal que de alguma maneira muito bizarra acaba funcionando.

Ajuda muito, também, ver Van Damme aparentemente se divertindo demais em seu papel que, apesar de começar de maneira pesada, logo descamba para aquele típico humor canastrão, mas simpático do ator, com sua dupla inusitada com Trejo também ressonando bem na fita. Não é nem de longe seu papel mais físico, já que as lutas são esparsas e pouco desenvolvidas, mas é, sem dúvida alguma, uma atuação que dá gosto de ver não por sua complexidade, mas, muito ao contrário, pela forma relaxada com que ele constrói seu completamente unidimensional personagem.

O último filme noventista de Van Damme pode até ter sido esquecido completamente pelas brumas do tempo, mas há nele uma combinação de fatores que o torna… hummm… especial, diferente e inusitado em meio a tanta coisa igual que o ator fez na década. Claro, não é nem de longe uma maravilha, mas não é a porcaria que Avildsen provavelmente achou que ficaria depois das interferências da produção. Deu até vontade de dar uma avaliação final mais alta, digamos meio HAL a mais, só que a bagunça tonal, a montagem perdida e a falta de rumo do longa me impediu, mas é definitivamente um 2,5 com viés de alta.

Inferno (Inferno/Desert Heat – EUA, 1999)
Direção: John G. Avildsen
Roteiro: Tom O’Rourke
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Danny Trejo, Pat Morita, Gabrielle Fitzpatrick, Larry Drake, Vincent Schiavelli, David “Shark” Fralick, Silas Weir Mitchell, Jonathan Avildsen, Lee Tergesen, Jaime Pressly, Bill Erwin, Ford Rainey, Kevin West
Duração: 95 min.

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