Uma das mais bem-sucedidas franquias do terror contemporâneo se despede do público com Invocação do Mal 4: O Último Ritual, uma produção que mantém os aspectos estéticos dentro do mesmo padrão de qualidade de seus antecessores, tal como o magnetismo de sempre da dupla formada por Vera Farmiga e Patrick Wilson, intérpretes do casal Ed e Lorraine Warren. Desta vez, acompanhamos ao longo de seus 135 minutos, uma jornada de horror espiritual em torno de um famoso caso ocorrido nos Estados Unidos, em meados dos anos 1980: a Família Smurl. Nos anos 1980, Jack e Janet Smurl passaram a viver uma experiência aterradora em sua casa em West Pittston, Pensilvânia, onde se mudaram em 1976. A vida da família, que antes era tranquila, começou a mudar drasticamente em 1985, após um incidente com um lustre que feriu uma de suas filhas. A partir desse evento, relatos de atividades paranormais se intensificaram, incluindo gritos inexplicáveis, odores fortes, bem como objetos se movendo sem explicação. Os episódios se tornaram cada vez mais alarmantes, como o ataque do cachorro da família, que teria sido arremessado contra a parede, e a queda de uma das filhas da escada.
Jack Smurl também chegou a relatar que foi agredido sexualmente por uma entidade, o que acentuou o clima de terror. Investigadores paranormais famosos, como Ed e Lorraine Warren, foram chamados para investigar o caso, concluindo que a casa era habitada por quatro espíritos, incluindo uma mulher idosa, uma jovem potencialmente violenta e um homem que teria morrido na residência, além de um demônio que supostamente manipulava esses espíritos para atormentar a família. Após duas tentativas de exorcismo que falharam, os Smurl decidiram levar sua história à mídia, participando de programas como Larry King Live e Entertainment Tonight. A gravidade da situação e a atenção que gerou fizeram com que sua experiência se tornasse uma das mais conhecidas dentro das histórias de fenômenos sobrenaturais, atraindo ainda mais interesse e discussões sobre o fenômeno da atividade paranormal e suas implicações. Por já ter lido sobre o caso e me lembrar de A Casa das Almas Perdidas, filme que retrata a história desta família, clássico da era do VHS, que na infância, me fez perder noites de sono de tanto medo, esperava que o novo “Invocação” explorasse melhor esta experiência do casal.
Mas isto não acontece, infelizmente. Com direção de Michael Chaves, mais uma vez no comando de uma produção do universo, o quarto episódio desta saga traz diversas pequenas participações especiais, aparições de referências aos elementos assombrosos dos filmes anteriores, mas mesmo com tanta citação para amarrar o ciclo nos permitindo se lembrar de todos os seus contextos, Invocação do Mal 4: O Último Ritual é uma narrativa dramaticamente anêmica. Falta gás na execução do cineasta, alguém que já tinha demonstrado pouca habilidade para lidar com este segmento no anterior, o tedioso A Ordem do Demônio. Há também um enorme problema com o seu roteiro. Escrito por quatro dramaturgos, o desfecho de Ed e Lorraine é demasiadamente indeciso. Na ânsia de pavimentar os últimos caminhos do casal, mas também não deixar de lado “o caso da vez”, a produção escorrega no genérico, transformando a assustadora história da família assistida em algo contado superficialmente, sem qualquer estratégia para nos conectar com todo o horripilante processo que transforma a vida de personagens que sequer nos importamos, tamanha a falta de cuidado dos roteiristas em tornar a presença deles, em cena, envolvente. Quando se propõe a se manter diante dos protagonistas, por sua vez, a trama engrena. É o velho caso de uma produção que tinha tudo para ser ótima, mas se contenta em ser apenas boa. Ou razoável.
Este é o segundo filme da franquia ambientado nos anos 1980, e com isso, ao explorar seu contexto, captura uma década que reflete tanto o resquício do esoterismo hippie dos anos 1960 quanto um novo tom mais sombrio e cético. Assim, a produção retrata uma sociedade que, embora mais desconfiada das tradições espirituais, ainda se depara com fenômenos inexplicáveis. A cena em que os Warren tentam explicar suas experiências em uma universidade quase vazia, sendo ridicularizados e comparados aos Caça-Fantasmas, exemplifica essa atmosfera de cinismo que permeava a época. E, embora a narrativa busque explorar uma história mais íntima, a escolha de relegar as manifestações sobrenaturais a um papel secundário resulta em uma mitologia que carece de profundidade e interesse visual, especialmente quando comparada aos capítulos anteriores da franquia. Os espíritos retratados não oferecem a mesma carga de tensão e complexidade que nós, espectadores, esperamos.
Em contraste, a inclusão de Judy (Mia Tomlinson) e seu namorado Tony (interpretado por Ben Hardy) apresenta a oportunidade de um novo casal carismático, que pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de sequências futuras, afinal, tal como Michael Myers, é possível que as criaturas deste universo não encerrem as suas atividades por agora, mas se transformem. Ou pausem por um tempo. Talvez seja algo necessário para a franquia.
Invocação do Mal 4: O Último Ritual (The Conjuring: Last Rites | EUA, 2025)
Direção: Michael Chaves
Roteiro: Ian Goldberg, Richard Naing, David Leslie Johnson-McGoldrick
Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Mia Tomlinson, Ben Hardy, Rebecca Calder, Elliot Cowan, Kíla Lord Cassidy
Duração: 135 minutos
