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Crítica | Jujutsu Kaisen – 2ª Temporada

A temporada é aclamada por algum motivo.

por Ismael Vilela
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spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais obras do universo Jujutsu.

Ao transpor para a tela a densidade poética da luta contra as maldições, a direção não apenas traduz movimento em imagens, mas assume o risco de uma narrativa que opera em um registro de sensibilidade no qual a violência não é um defeito, mas uma ferramenta estética de imersão absoluta.

A linguagem adotada na transição para este segundo ano de Jujutsu: Kaisen revela-se como o exercício mais arriscado e, simultaneamente, mais seguro em termos de convenções visuais. Isso se dá, pois, por pior que se considere a primeira temporada, foi ali que tivemos o fundamento teórico (as enormes exposições sobre os funcionamentos dos encantamentos) e narrativo necessário para que a segunda temporada pudesse se aventurar numa troca de socos colorida e incessante. É imperativo notar que, se a primeira temporada se mostrava fraca e mal estruturada – frequentemente interrompida por diálogos estratégicos incessantes e maçantes que fragmentavam a fluidez do combate –, a segunda temporada surge como um organismo vivo, excelente e muito bem pensado. Aqui, a ação é equilibrada e as lutas tornam-se frenéticas, despojando-se do truncamento que outrora prejudicava a emoção da série. O que se observa na tela é uma fidelidade extrema não apenas ao enredo, mas à atmosfera de desolação que permeia o Incidente de Shibuya.

A fotografia e o design de produção, agora elevados a um patamar de sofisticação quase futurista, envolvem o espectador em um senso de caos palpável. O ponto alto dessa transição estética manifesta-se no embate entre Jogo e Sukuna, no qual o uso da direção de animação não busca o extraordinário pelo choque gratuito, mas pela constância de uma beleza melancólica e destrutiva.

O arco inicial, “Hidden Inventory”, funciona como uma preparação cirúrgica. É uma jogada certeira para o desenvolvimento dos personagens: ao tratar Satoru Gojo como uma espécie de Superman do jujtsu, o roteiro de Hiroshi Seko estabelece as bases para o que viria a ser o maior trauma narrativo da série. Como Gojo é excessivamente poderoso, a escolha corajosa de evitar Deus Ex Machinas preguiçosos leva o roteiro a atenuá-lo e, finalmente, selá-lo através do Gokumonkyō. Esta decisão coloca o próprio discurso da série em risco, haja vista que não há segurança nem em quem viverá, nem em qual desfecho a narrativa terá. A qualidade dessa temporada, a meu ver, reside na coragem de mutilar suas próprias certezas.

Diferente do que ocorre em Vingadores: Guerra Infinita, em que há uma clara sensação de que os heróis mortos um dia voltariam, em Jujutsu Kaisen não há confiança. O espectador é lançado em um abismo de incertezas. A série não é covarde. A morte de Nanami é um ato de coragem do texto que melhora significativamente a transição da primeira para a segunda temporada. Nanami não morre apenas para gerar choque; ele morre como uma conclusão lógica de um sistema que consome seus idealistas. É um grito ao mar – literalemente –, uma constatação de que a dor que outrora era apenas verbo, no filme torna-se carne e olhar. Daí o fato da morte de Nanami ser tão poética e sensível.

Neste cenário, a figura de Suguru Geto ganha uma importância monumental. O controle narrativo sobre sua trajetória e a revelação (apesar de já sabida pela cicatriz) do Pseudo-Geto demonstram que adaptar não é copiar, mas transmutar. A presença do impostor que cobiça o encantamento da Manipulação de Espíritos Amaldiçoados serve como alicerce para que a poesia visual da desordem se manifeste. A narrativa organiza-se em torno de um conceito onde o que comove não é a surpresa do destino, mas a inevitabilidade do afeto corrompido.

O Arco do “Incidente de Shibuya” é uma porradaria sem fim. E, surpreendentemente, dá muito certo. A maioria das lutas é realmente bem encenada e tudo corre conforme prometido pela direção de Sunghoo Park. No entanto, essa sucessão de combates não é vazia. Veja-se o caso de Kokichi Muta (Mekamaru). Sua luta contra Mahito, o melhor vilão da série até agora, sem dúvidas, é a síntese da tragédia individual frente ao coletivo. O Ultimate Mechamaru Modo: Absoluto, um gigante blindado que se ergue sobre um lago, é a representação física de um sonho impossível: o desejo de caminhar entre os outros, de ter um corpo saudável, de pertencer.

A luta de Yuji Itadori contra Choso é um exemplo primoroso dessa imperfeição compartilhada. Choso, movido por uma vingança fraternal que se transmuta em uma memória impossível, revela a sofisticação humanista de Akutami. Além disso, cria-se muito bem um suspense sobre como de fato Choso seria irmão de Yuji – uma ponta deixada pelo avô deste ainda na primeira temporada.

Não posso deixar de mencionar a participação de Nobara Kugisaki. Embora seu arco familiar surja de forma tardia e imediatista, sua presença em Shibuya traz uma camada de vulnerabilidade necessária. O fato de seu destino ser selado por Mahito em um momento de distração sublinha a mensagem central da temporada: não há segurança.

A série evolui drasticamente nas dinâmicas de combate. Se na primeira temporada éramos vitimados pelos claros vácuos de intervalo comercial e por explicações redundantes durante as lutas, aqui temos o uso magistral de escritas em tela que narram a progressão da noite de 31 de outubro de 2018. Noventa por cento da temporada ocorre em uma única noite (e que noite!). A direção utiliza essas marcações temporais para criar um senso de urgência que sufoca. Somos completamente arrastados pelas estações de metrô japonesas.

Nesse caos, o novo despertar de Sukuna, o Rei das Maldições, é o ápice do pandemônio. A cena em que ele exige que todos se ajoelhem sob pena de morte não é apenas uma demonstração de poder, mas uma quebra de paradigma narrativo. Sukuna não joga conforme as regras; ele destrói o tabuleiro. A destruição em um raio de 200 metros causada por sua expansão de domínio contra Mahoraga é uma das perseguições e batalhas mais esteticamente prazerosas e aterrorizantes que já pude assistir. O uso do fogo contra Jogo e a subsequente morte da maldição do vulcão são momentos de uma beleza melancólica profunda. Jogo morre querendo ser humano, e Sukuna o reconhece em sua força, provando que a imperfeição é, de fato, a forma mais pura de perfeição humana.

Ao abdicar da muleta do protagonismo invencível, Jujutsu Kaisen altera a perspectiva da experiência cinematográfica animada. A volta de Yuta Okkotsu, planejada e executada com precisão cirúrgica no final, serve como o fechamento de um ciclo e a abertura de outro, onde a mensagem é clara: o todo é avassalador, e a luta, embora dolorosa, é a única resposta possível diante do absurdo. Enfim, como exercício de gênero essa temporada já se bastaria. Mais além, fornece muito bom material narrativo que se desenvolve a cada expansão de domínio.

Jujutsu Kaisen (呪術廻戦) – 2ª Temporada | Japão, 2023
Criado por: Gege Akutami
Direção: Sunghoo Park
Roteiro: Gege Akutami, Hiroshi Seko
Elenco: Junya Enoki, Yûichi Nakamura, Yuma Uchida, Asami Seto, Mitsuo Iwata, Nobunaga Shimazaki, Tomokazu Seki, Takahiro Sakurai, Kenjiro Tsuda
Duração: Aproximadamente 550 min. (23 episódios)

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