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Crítica | Jujutsu Kaisen – 3X05: Paixão

Entre a despedida e o luto.

por Ismael Vilela
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spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais obras do universo Jujutsu e aqui as críticas dos demais episódios da 3ª Temporada.

É na dialética entre o fragmento da luta shounen e a totalidade do desenvolvimento humano que o diretor Shota Goshozono alicerça este que é, sem dúvida, o auge da maturidade artística e visual de Jujutsu Kaisen. O episódio Paixão revela-se como uma obra-prima que, paradoxalmente, encontra sua grandiosidade ao aceitar a crueza da morte e a imperfeição dos vínculos para construir um aglomerado de luto, de dor e de silêncio. Ao animar o roteiro denso de Hiroshi Seko, a direção não apenas deixa de traduzir apenas sequências de combate, mas assume o risco de uma narrativa que opera em um registro de sensibilidade no qual o abandono do confronto direto não é uma lacuna, mas uma ferramenta estética de imersão profunda, suportada por uma direção artística inigualável.

A linguagem adotada neste capítulo revela-se como o exercício mais arriscado e, simultaneamente, mais assertivo da série até aqui. Observamos um equilíbrio milimétrico entre o desenvolvimento de personagem e história – marca indelével da primeira temporada – e a sofisticação das lutas elaboradas que definiram o arco de Shibuya. Contudo, a escolha de Shota Goshozono em evitar o embate físico prolongado entre Masamichi Yaga e seus algozes serve como alicerce para que a poesia visual se manifeste em sua forma mais madura – o som da guitarra na cena que enuncia a morte de Yaga é de uma sutileza cinematográfica sensacional. A direção extremamente cirúrgica compreende que, em um mundo de maldições, o silêncio após o golpe é mais ensurdecedor do que a própria explosão da energia amaldiçoada.

A trama nos conduz ao interrogatório de Masamichi Yaga, o diretor da Escola de Tóquio, confrontado sobre o segredo da criação de cadáveres amaldiçoados artificiais independentes, como Panda. Yaga, em uma postura de integridade inabalável, recusa-se a entregar a técnica aos altos escalões da feitiçaria, mesmo sob custódia. Aqui, o roteiro de Hiroshi Seko brilha ao humanizar a figura do mestre: a despedida de Yaga de sua criação, Takeru, antes de partir para uma “longa viagem”, é impregnada de uma beleza melancólica que envolve o espectador. Não há o extraordinário pelo choque, mas pela constância de um afeto que transcende a carne e o algodão.

Interrompido pelos acordes da guitarra elétrica de Gakuganji, o confronto resulta em um Yaga mortalmente ferido. É neste momento de agonia que a obra atinge seu ápice filosófico: Yaga revela que a criação da autoconsciência exige três núcleos com almas compatíveis que se observem mutuamente. Ao entregar o segredo no leito de morte, Yaga não oferece uma concessão, mas uma maldição – um peso ético que Gakuganji deverá carregar para sempre.

Enquanto isso, em uma vertente paralela que demonstra a versatilidade do episódio, acompanhamos Yuji Itadori e Megumi Fushiguro na busca por Kinji Hakari. A transição para o ambiente do Clube de Luta Gachinko em Tochigi introduz uma dinâmica de submundo que contrasta com a tragédia de Yaga. A cena do ringue, onde Yuji enfrenta Panda sob luzes brilhantes e regras que proíbem técnicas amaldiçoadas, é um primor de decupagem. A direção utiliza o enquadramento final de Hakari e Kirara Hoshi com uma sofisticação contemplativa, estabelecendo uma tensão que independe do choque físico para sustentar seu argumento emocional.

Em última análise, “Preparação Perfeita” funciona porque entende que a perfeição reside apenas na junção das imperfeições humanas e artificiais. Shota Goshozono e Risa Suzuki entregam um “filme curto” que é completo, uma obra sobre o coletivo e sobre como o peso da alma só é verdadeiramente validado quando se olha para o sacrifício. É um episódio que dialoga diretamente com o fã da obra original, mas que expande seu alcance para qualquer espectador disposto a um exercício de alteridade e empatia. A morte de Yaga não é um fim, mas a semente de uma nova percepção sobre o que significa ser humano em um mundo amaldiçoado.

Jujutsu Kaisen – 3X05: Paixão (情熱) — Japão, 2026
Direção: Shouta Goshozono
Roteiro: Gege Akutami, Hiroshi Seko
Elenco (Vozes): Junya Enoki, Megumi Ogata, Daisuke Namikawa, Yuki Tai, Yuma Uchida, Mikako Komatsu, Nana Mizuki, Mitsuo Iwata, Adam McArthur, Marina Inoue
Duração: 23 min.

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