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Crítica | Landman – 2ª Temporada

Muita calcinha e pouco petróleo.

por Kevin Rick
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A segunda temporada de Landman segue confirmando a dupla natureza das obras do Sheridanverso: por um lado, a capacidade incomum de Taylor Sheridan para desenhar mecanismos de poder, negociar tensão em ambientes hostis e transformar trabalho perigoso em dramaturgia; por outro, a insistência em melodramas familiares e sexualizados que não só desviam o foco, como parecem existir em uma série paralela, mais vulgar, mais rasa e, muitas vezes, mais regressiva. Assim, Landman aprofunda precisamente os vícios que o primeiro ano já exibira.

O gatilho estrutural do ano é ok. Com a morte de Monty (Jon Hamm) e a ascensão de Cami Miller (Demi Moore), a série encontra uma oportunidade rara de deslocar o protagonismo do “apaga-incêndio” para uma disputa corporativa real, com bancos, contratos, linhas de crédito, risco de auditoria, seguro exigindo um novo poço em prazos impossíveis e um rastro de engenharia financeira que cheira a desespero. A estreia vende bem esse clima de sucessão e de uma burocracia feroz, com Cami assumindo publicamente que será mais dura do que o marido, enquanto Tommy (Billy Bob Thornton) responde aos acionistas com o único idioma que ele domina; ameaça, litígio e intimidação social. É um bom começo porque recoloca Landman no terreno em que Sheridan costuma ser mais eficiente, com conflitos de poder, a masculinidade como moeda e a violência como último argumento.

Só que o segundo ano rapidamente transforma essa premissa em uma tragédia de decisões burras. Landman quer ser sobre a indústria do petróleo, mas frequentemente se comporta como uma novela sobre impulsos. A trama do “novo poço em 45 dias” e a gambiarra legal da seguradora, por exemplo, até sugerem um thriller corporativo interessante, com Rebecca e Nate operando as engrenagens jurídicas para ganhar tempo. Só que a série insiste em deslocar a energia dramática para subtramas que parecem desenhadas para irritar o espectador.

A ascensão de Cooper (Jacob Lofland), que no primeiro ano prometia ambição e poder como tema, vira um jogo de empurra: ele bate petróleo, vê a “promessa” de riqueza surgir, e imediatamente o roteiro trata de retirar essa promessa para recolocá-lo como peça de uma trama de casal bobinha. O romance com Ariana (Paulina Chavez), que já era morno, ganha conflitos funcionais (medo de perder mais um parceiro para o trabalho; recuos e reconciliações), mas nunca alcança densidade emocional suficiente para sustentar a gravidade dos eventos. Quando a violência explode (a agressão contra Ariana e a morte do agressor), a série tenta vestir isso como um problema grave, mas o que sobra é a conveniência num evento extremo para gerar tensão jurídica, resolvido com pragmatismo rápido.

O núcleo Cami–Tommy é, teoricamente, o grande motor do ano. E Demi Moore ganha mais espaço e postura de comando, mas o arco é escrito como uma progressão de teimosias e humilhações, com a personagem nunca realmente se tornando a força que o texto sugere. Parte desse problema é o fato da série pouco investir nesse núcleo, com o melodrama familiar, a sexualização vazia, a sensação de que Angela (Ali Larter) e Ainsley (Ali Larter) ocupam tempo de tela como distração se intensificando (parece que todo episódio tem uma DR no jantar, que saco…). A série dobra a aposta na lógica de “acontecimentos” domésticos: brigas, reconciliações performáticas, compras, deslocamentos, cenas que parecem existir para preencher espaço e reiterar um tipo de humor chato.

Mesmo Rebecca, que deveria ser a personagem “competência”, cai numa armadilha semelhante. O romance com Charlie funciona como um atalho para criar atrito interno em outra ponta novelesca, e não como desenvolvimento orgânico de alguém que vive em estado de guerra jurídica permanente. Onde Landman ainda acerta é no que Sheridan faz quase no automático: a textura do trabalho e a construção desse cenário corporativo. O ano tem bons momentos com Dale, Boss e a equipe, e a presença do cartel como sombra permanente continua eficaz em termos de suspense, mesmo que subutilizada.

E é por isso que o final com Tommy fundando a CTT com financiamento de Gallino tem um gosto amargo que não é o amargo bom. A série tenta vender aquilo como renascimento e recomeço: o protagonista fora da M-Tex, agora “livre”, montando sua própria operação, colocando Cooper como presidente, reagrupando a velha guarda. Mas, no subtexto, o que vemos é o contrário: Tommy troca um patrão corporativo por um patrão criminoso, e a temporada trata isso como solução pragmática, quase triunfante, sem mastigar a consequência dessa escolha. A rodinha da “família” ao final da temporada chega a ser constrangedora… 

O thriller corporativo e o comentário sobre capitalismo extrativista continuam sendo o ouro dramático da premissa, mas são soterrados por uma estrutura que prefere novela, romances, blocos aleatórios de desaventuras femininas de gente rica e mimada, e humor de mau gosto. O “universo petrolífero” permanece fascinante; o texto insiste em fazer dele um pano de fundo para um drama familiar pouco inteligente.Se o primeiro ano era uma boa série com uma âncora ruim, o segundo vira uma série que se apoia cada vez mais nessa âncora, e por isso afunda mais.

Landman – 2ª Temporada — EUA, 2025-2026
Criação: Taylor Sheridan, Christian Wallace
Direção: Stephen Kay
Roteiro: Taylor Sheridan
Elenco: Billy Bob Thornton, Demi Moore, Sam Elliott, Ali Larter, Jacob Lofland, Michelle Randolph, Paulina Chávez, Kayla Wallace, Mark Collie, James Jordan, Andy Garcia
Duração: 559 min. (10 episódios)

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