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Crítica | Lucy in the Sky

por Iann Jeliel
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Lucy in the Sky

Se já temos poucas ficções cientificas ambientadas no espaço – mesmo que eles tenham aparecido com certa frequência na última década –, o recorte desses protagonizados por mulheres é ainda menor. O legal de Lucy in the Sky, é que sua premissa é uma raridade dentro dessa raridade, o que pode ser tão instigante, quanto frustrante. O intuito de Noah Hawley não está envolto na viagem especial em si, mas nas consequências psicológicas especificas sobre uma mulher que só não está bem resolvida com o limite da sua ambição. Como se não bastasse o recorte excêntrico, o showrunner das excelentes séries Fargo e Legion em sua estreia nos cinemas também não segue um caminho convencional na abordagem desse drama pós-viagem, reforçando o sentimento difuso após a sessão perante algumas escolhas na contagem da história.

A parte intergaláctica que podia ser muito interessante, é escanteada e se resume aos primeiros cinco minutos, onde em uma referência bem utilizada a 2001: Uma Odisseia no Espaço, o capacete de Lucy Cola (Natalie Portman) é iluminado por uma gigantesca terra a sua frente, capturando sua expressão de completo deslumbramento perante a grandiosidade do planeta e a imensidão vazia do espaço ao seu redor. Naquele momento, Lucy estava no ápice da sua carreira como astronauta, realizando uma conquista de poucos humanos, quem dirá mulheres, conseguiam. Ao mesmo tempo, para ela, esse ápice traria um choque de realidade para a “pequeneza” do seu feito, considerando tudo que ainda pode ser descoberto. Desse modo, ao retorno para a terra, onde passará toda a história, Lucy desencadeia uma espiral de crises existenciais, incitadas num regresso do que possivelmente a fez a chegar até aquele ápice. Um drama deveras interessante.

O filme até tem seu desenvolvimento narrativo em base convencional, com aquela descrição linear das etapas e dificuldades que ela como mulher, sente naquele ambiente de preparação para uma nova missão espacial. Só que as atitudes de imposição do seu lugar não são enxergadas exatamente como um mérito. Há um direcionamento reverso, decadente, pessimista sobre o viés de sua personalidade independente, inteligente e determinada a novas experiências, dando lugar a quase uma patologia de buscá-las em todo canto, prejudicando aqueles ao seu redor e a si própria. Natalie Portman, em mais uma atuação de alto nível na carreira, conduz perfeitamente a circularidade moral vivenciada pela sua personagem, divagando expressões ambíguas dentro de uma interessantíssima escolha estética de Hawley em mudar constantemente tipos de formato de tela, visando traduzir em imagem, o momento sentimental de Lucy, sem precisar ser verborrágico ou cair no óbvio.

O diretor justapõe a troca desses enquadramentos com muita sutileza, numa estilização que nunca deixa o virtuosismo técnico engolir o objetivo do recurso em fazer uma leitura aproximada desse misto confuso de emoções que a personagem vem sentindo depois da experiência no espaço – destaque para a sequência envolvendo a música Lucy in the Sky Whit Diamonds. Contudo, por mais interessante que seja acompanhar essa crescente de loucura da protagonista no próprio orgulho, tem de questionar alguns pontos usados como fundamentais para a construção desse estudo de personagem. O núcleo da “talaricagem” por exemplo, toma muito tempo e poderia ter sido mais secundário perante o drama familiar, especialmente a relação dela com a mãe (Ellen Burstyn). O foco para o arco em demasia, traz algo desnecessariamente maior do que o conforto da fuga, no qual estava designado inicialmente. O progresso da relação como romance, não chega a ser ruim, mas além de tirar tempo que podia ser aproveitado para aprofundar outros secundários em essência mais relevantes para a compreensão da origem obsessiva da personagem, é o único movimento de confronto, literal no filme, levando o diretor a um impasse que ele não parecia desejar em sua proposta.

Quando o conflito climático do filme respalda num triangulo de duas mulheres manipuladas por uma figura masculina (Jon Hamm) colocada como “passiva”, soa deselegante dentro do estudo da personagem falha que é Lucy, ainda mais com a falta completa de desenvolvimento da segunda (Zazie Beets) para além de uma simbólica sororidade dentro daquele ambiente, levando a crer, que o desequilíbrio emocional acompanhado ficou relacionado principalmente a terceiros masculinos, o que não era, acredito eu, a intenção. Acrescentando um teor provocativo na equação e a resolução do clímax se torna quase de mal gosto, ainda que seja bastante efetiva por promover uma transformação crível no tom narrativo, para um thriller. Contudo se fosse para apostar no exercício de gênero intenso, onde tinha Portman para entregar daquela maneira catártica única (e ainda assim, entrega aqui também), que fosse em outro contexto.

Podia até ser com os mesmos desdobramentos na história, mas se passando numa eventual outra ida no espaço, certamente, seria um clímax mais interessante e colocaria o fechamento implícito da condição final da personagem, com a clareza motivacional desejada. Lucy in the Sky, apesar disso, é um experimento interessante de um cineasta diferenciado, com potencial para mais.

Lucy in the Sky (Idem | EUA, 2019)
Direção: Noah Hawley
Roteiro: Noah Hawley
Elenco: Natalie Portman, Jon Hamm, Zazie Beetz, Dan Stevens, Ellen Burstyn, Colman Domingo, Jeremiah Birkett, Tig Notaro, Joseph Williamson, Nick Offerman, Pearl Amanda Dickson, Jeffrey Donovan, Stella Edwards, Arlo Mertz, Tobias Schönleitner, Diana DeLaCruz, Cali DiCapo
Duração: 124 minutos

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