Muito já se falou sobre o luto e os processos de enfrentá-lo. Elisabeth Kübler-Ross com seus cinco estágios (Sobre a Morte e o Morrer); Joan Didion em O Ano do Pensamento Mágico e C. S. Lewis chorando educadamente em Anatomia de um Luto. Quando Max Porter publicou Luto Sem Medo em 2015, ele fez algo diferente: pegou a estrutura convencional do romance sobre perda e a esbagaçou completamente, aglutinando novamente os pedaços num misto de narrativa, roteiro, diário e poema. Luto Sem Medo [título nacional que eu detesto com todas as minhas forças, porque tira o lugar do maravilhoso título original, como se vê a seguir] ou Luto é a Coisa Com Penas, lembra mais um colapso intenso, cruel e belo do que uma obra ordenada que comunica algo… sobre algo. O autor trabalha com três vozes que se alternam e se contaminam: um pai acadêmico recém-viúvo, seus dois filhos pequenos e um Corvo gigante que invade o apartamento londrino dias após o funeral. As imitações das falas do Corvo são maravilhosas, oscilando entre onomatopeias, delírios, xingamentos, termos escatológicos e observações que cortam a alma já bastante ferida dos três machos que perderam a sua referência feminina mais próxima e mais amada.
O livro não tem uma estrutura coesa ou uma linearidade identificável (pelo menos no começo. Depois fica mais tranquilo… ou simplesmente a gente se acostuma com o estilo), o que pode afastar leitores que recusam ou possuem dificuldade com textos repletos de figuras de linguagem. No processo, encontramos construções de meia página, “cantos do futuro” que rememoram o passado e dão conta de um processo muito particular de aprendizado e até historinhas dentro da grande história, como pesadelos, sonhos, mentiras, crônicas, anúncios e dramatização afetada do que acontecia dentro do “ninho” defasado. A voz do Pai alterna entre a prosa mais densa, às vezes com frases longas, mas quase sempre com poucas palavras e alguma quebra inesperada. Os Meninos falam como crianças feridas, processando o incompreensível através de perguntas sem resposta e brincadeiras macabras (sempre em narrativas que ganham estilos diferentes de exposição e escrita à medida que eles crescem). Já Corvo declama poesia concreta, cheia de palavrões, e representa uma brincadeira metalinguística do autor, misturando conceitos e trechos ressignificados — ou corrompidos? — de Ted Hughes e Emily Dickinson, isso já desde o título. E foi por essa instabilidade estrutural e imprevisibilidade geral que o autor me ganhou. Porque não creio que esse tipo de narrativa de cura (aliás, bem diferente daquela mais fofinha, nipo-sul-coreana, que se tornou febre no Ocidente após a pandemia) conseguiria mostrar a “aura“, a “essência” a “atmosfera” de um processo de luto num texto corrido e ordenado. Se tornaria um tratado filosófico tétrico. Ou uma fantasia psicológica cheia de lamentos. E Luto Sem Medo não é nada disso.
Essa “coisa com penas” do título é o Corvo que tem uma missão muito importante para cumprir, que se alimenta de cadáveres emocionais e ocupa espaço físico dentro da casa. Diferente do que diz Dickinson, a esperança não está em jogo aqui. Aliás, tudo o que o Pai e os Meninos não têm é esperança. Muitas vezes, o que eles têm são apenas a respiração e os fluidos. O corpo funcionando… e nada mais. Como se o mundo os tivesse colocado numa redoma e os esquecido lá. Outras vezes, é como se estivessem numa montanha-russa que nunca para. Porter preenche esses espaços com as lições que o Corvo ensina e aprende, sempre por diferentes olhares, sem explicar muito, apenas registrando aquilo que pulsa mais forte no momento. A referência literária mais forte aqui vem de Crow: From the Life and Songs of the Crow, de Ted Hughes, coletânea de 1970 que o poeta inglês escreveu entre o suicídio de Sylvia Plath e o de Assia Wevill. Hughes criou uma figura mítica que sobrevive a todos os apocalipses, um tipo de atormentador sombrio que perpassa até mesmo questões teológicas. Em Luto Sem Medo, Porter pega essa criatura cósmica e a confina num apartamento comum para fazer companhia a três pessoas destroçadas. Diferente das meditações controladas de Lewis ou do distanciamento clínico de Didion, Porter escolhe a convivência caótica, o enfrentamento prático, material, sensível; a sujeira, o absurdo, o choque como método de cura.
Imaginem se o autor tivesse transformado essa fábula diferente em um texto sobre edificação da alma, das emoções e do corpo. O quão banal e chato seria uma trama com um psicopompo certinho que respeitasse as dores nos mínimos detalhes e fosse politicamente correto? Porque não há nada de certinho e de respeitável em algo tão profundamente denso como o luto. A ideia aqui não é racionalizar sobre as etapas, como se a dor fosse um problema com solução clara, como uma equação (e não, eu não estou desprezando a teoria de Kübler-Ross. Mas sabemos que teoria é uma coisa e vivência é outra. Nesta ficção, o foco é a vivência. Especialmente pensada para um lado que não vemos com os “olhos normais“). O livro escancara a dura verdade de que o luto ocupa um espaço total dentro de nós. E nos desfigura. Mas é com o tempo e com o entendimento das próprias sobras que o enlutado aprende a carregar o peso mutilante da perda até que vire parte da própria pessoa, como se fosse uma calcificação, uma nova camada de pele. O Corvo ocupa um espaço fixo na vida das pessoas até que consigam respirar de novo, apesar de não estarem mais inteiros. Até que a mutilação se torne uma cicatriz e a vida siga, há muito a se viver. E nada, neste livro, deixa a gente achar que a vida, nesse período, é legal, afável, controlável, boa. Todo mundo que já viveu o luto sabe disso. A certeza que o Corvo deixa e que a brilhante, simples, mas muito profunda escrita de Porter transmite é que o buraco deixado por quem partiu fica morando dentro de nós. O que vai acontecer é que esse buraco vai doer de jeitos diferentes conforme o tempo passa. E é neste momento que a Coisa com Penas terá cumprido o seu papel. E finalmente irá embora.
Luto Sem Medo Ou o Luto é a Coisa Com Penas (Grief Is the Thing with Feathers) — Reino Unido, 2015
Autor: Max Porter
Editora original: Faber and Faber
No Brasil: Darkside
Tradução e posfácio: Caetano W. Galindo
128 páginas
