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Crítica | MacGyver: Profissão Perigo – 1X01: Pilot

por Ritter Fan
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Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de temporadas: 7 + dois telefilmes
Número de episódios: 139 + dois telefilmes
Período de exibição: 29 de setembro de 1985 a 21 de maio de 1992 + telefilmes em 14 de maio e 24 de novembro de 1994
Há continuação ou reboot?: Sim, também chamada MacGyver e que foi ao ar entre 23 de setembro de 2016 e 30 de abril de 2021, com cinco temporadas e 94 episódios.

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São raras as séries que realmente marcam suas épocas a ponta de a geração que a viu passar na TV semanalmente ainda citá-la décadas depois como parte do imaginário popular. MacGyver – ou Profissão Perigo como foi batizada por aqui -, uma das dezenas de “enlatados” americanos que foram trazidos para o Brasil ao longo da década de 80, sem dúvida alguma é uma delas ao ponto de ser relativamente comum, pelo menos em meu círculo de amizades, o nome do protagonista ser citado sempre que, em alguma série ou filme, alguém sai de alguma situação impossível usando o que tem imediatamente disponível como se desarmar uma bomba com um clipe de papel fosse a coisa mais trivial do mundo.

E MacGyver é justamente isso, uma série no estilo “enrascada da semana” em que o protagonista titular, Angus MacGyver, vivido por Richard Dean Anderson (que, a partir de 1997, passaria a ser co-protagonista de Stargate SG-1, talvez meu maior guilty pleasure serializado) e que reside nada menos do que no Observatório Griffith, em Los Angeles, é colocado diante dos casos mais impossíveis somente para sair ileso depois de usar os já citados clipes, além de gomas de mascar, chocolate, canivetes, barbantes e o que mais ele conseguir achar no meio do caminho. É uma premissa que, se pensarmos demais, não se sustenta sequer por um segundo, já que muitas vezes MacGyver sabe exatamente para onde está indo e no mínimo já poderia levar o equipamento profissional necessário, como é justamente o caso do episódio piloto.

Mas qual seria a graça, afinal de contas, se em cada missão ele sacasse, como o 007, um gadget customizado por um personagem como Q? O que realmente marcou a série e a fez transcender sua década é justamente a hilária bobajada que é ver um personagem aparentemente especialista em qualquer coisa (como o assistente de assuntos aleatórios do Jô Soares) e que é capaz de transformar uma caixa de palitos de dente e um rolo de papel alumínio, que ele acha sem querer, em um ultraleve que o permite fazer uma fuga espetacular no último segundo. E, claro, a simpatia de Anderson em seu icônico papel é a cereja no bolo, pois, mesmo considerando suas severas limitações dramáticas, seu MacGyver é irresistível.

Curiosamente, porém, o primeiro episódio é dividido em dois momentos substancialmente diferentes e, tenho para mim, que essa diferença de abordagem é que fez com que o diretor do piloto, Jerrold Freedman, tenha preferido assinar como Alan Smithee, o famoso codinome hollywoodiano para “eu não quero meu nome ligado a essa porcaria”. O primeiro deles é um preâmbulo com narração em off do protagonista em que ele escala um penhasco em algum lugar da Ásia Central para resgatar um piloto e desarmar um míssil de um avião que caiu por ali, tendo que lutar contra o exército chin… digo asiático inimigo no processo. Esse início, apesar de mostrar as habilidades e a calma de MacGyver em qualquer situação, de certa forma contradiz em dois aspectos o que veríamos em seguida e em basicamente todos os demais 138 episódios ao longo de sete temporadas e em dois telefilmes pós-encerramento de série: MacGyver chega em sua missão com equipamentos suficientes para lidar com os problemas que enfrentará, sem precisar recorrer muito à absurdos completos que desafiam qualquer tipo de lógica e, além disso, ele faz uso de arma de fogo, chegando a atirar – mas errando – nos soldados inimigos.

Na segunda parte do episódio, ele precisa resgatar dois cientistas que, depois de uma explosão misteriosa, ficaram presos no subsolo de um laboratório de alta tecnologia que é protegido pelos mais modernos – à época – equipamentos de defesa. Como todas as tentativas de se chegar na profundidade dos cientistas foram esgotadas, o Senhor Especialista em Tudo é chamado e, em menos de 10 minutos, graças ao uso de um binóculo e de fumaça de cigarro, lá está ele onde nenhuma equipe de resgate com equipamentos especializados chegou. Claro que, no meio do caminho, ele encontra Barbara Spencer (Darlanne Fluegel), assistente de um dos cientistas que é também linda e que imediatamente se lança em seus braços, e ainda lida com o vazamento de ácido sulfúrico que ameaça contaminar o aquífero que desemboca no Rio Grande, tudo enquanto desvenda, mais facilmente que Sherlock Holmes, o mistério sobre a explosão que começou tudo.

Em outras palavras MacGyver é o próprio canivete suíço humano, que é levado para cumprir uma missão específica, mas que, graças a uma mangueira, chocolates que acha no chão, convenientes substâncias químicas que o permite construir uma bomba e sua impossível habilidade com qualquer equipamento eletrônico, faz o serviço completo, com o resgate dos cientistas quase sendo um detalhe insignificante no cômputo geral. Ou seja, muito mais do que Ethan Hunt, ele transforma essa missão impossível em um passeio no parque ou um pedaço de bolo, como dizem os americanos. E é exatamente isso, creio eu, que transformou a série em um fenômeno em sua época, com essas histórias que desafiam toda e qualquer tentativa de se achar lógica levando a criação de Lee David Zlotoff e Henry Winkler a perenizar-se na TV e na cultura pop, ganhando inclusive um reboot também razoavelmente longevo, entre 2016 e 2021.

Profissão Perigo é uma série ridícula, insustentável, ilógica, que exige caminhões e caminhões de suspensão da descrença e que conta com um protagonista que, não fosse por seu carisma, mereceria o Framboesa de Ouro da TV anualmente. Mas, no final das contas, foi provavelmente essa combinação esdrúxula que levou a série ao sucesso que teve, ensinando gerações a construir as mais variadas armas e veículos com arame, cartolina e cola de papel, exatamente como nossos filhos pequenos – mini-MacGyvers! – fazem no maternal.

MacGyver: Profissão Perigo (MacGyver – EUA, 29 de setembro de 1985)
Criação e desenvolvimento: Lee David Zlotoff e Henry Winkler
Direção: Jerrold Freedman (como Alan Smithee)
Roteiro: Thackary Pallor
Elenco: Richard Dean Anderson, Michael Lerner, Dana Elcar, Paul Stewart, Michael Gwynne, Michael Fairman, Shavar Ross, Darlanne Fluegel
Duração: 49 min.

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