Crítica | Magnólia

SPOILERS!

Magnólia é frequentemente acusado de ser um filme pretensioso. De fato, o que não falta ao longa-metragem de Paul Thomas Anderson é um plano audacioso, composto por um enorme número de personagens, uma montagem eletrizante (realizada pelo próprio diretor) que recorta suas histórias como um quebra-cabeças, uma trilha sonora que quase não cessa e virtuosismos de direção que parecem querer impressionar o público e pôr os críticos em seu devido lugar. Com tamanha ambição, o resultado mais provável para Magnólia seria entregar muito menos do que prometia ao não conseguir sustentar tudo isso ao longo de 188 minutos de projeção. Mas, para a irritação dos detratores do diretor norte-americano (que tem, sim, seus arroubos de megalomania), tudo o que há de mais improvável acontece dessa vez. Sem economizar nas tintas em nenhum momento, Paul Thomas Anderson entrega a sua obra prima.

O grande mérito do cineasta em seu filme de 1999 (lançado dois anos após Boogie Nights, filme em cujo elenco estão vários dos atores de Magnólia) é o de conseguir costurar a sua trama complexa de forma coesa e original. Como montador, Anderson se sai tão bem quanto na direção, construindo um ritmo narrativo em que todos os arcos vão avançando e crescendo juntos, seguindo o mesmo compasso. É exatamente isso que amarra tão bem todas as histórias, evitando as oscilações que costumam comprometer filmes de narrativa não linear. A trilha sonora auxilia a montagem e a direção na criação da tensão crescente e alguns elementos tão interessantes, como os inusitados cortes em que a câmera simula um rápido giro para outro plano, são ótimos artifícios para capturar a atenção do público em um filme tão complexo e longo. O resultado desse sinergismo de elementos tão bem arrumados é que o enredo flui sem atropelos. Nada parece confuso em Magnólia – tecnicamente uma façanha, se considerarmos que o roteiro impõe a necessidade de desenvolver a história de nove personagens.

Quanto à direção do estadunidense, Anderson demonstra pleno domínio de suas escolhas. Nas cenas que se passam nas salas e corredores da emissora de TV onde Jimmy Gator apresenta seu talk show, ele opta pelos planos-sequência. Com isso, transmite claramente a sensação de um sistema que se movimenta sem parar apenas para garantir resultados e audiência, ignorando o flagelo impingido às crianças no palco. Já em cenas em que o cineasta deseja transmitir constrangimento e embaraço, ele se vale do extremo oposto ao plano-sequência, isto é, de planos fixos e longos (com participação, inclusive, do extracampo). É o que ocorre na sequência em que o policial Jim atende a uma ocorrência no apartamento de Claudia. Paul Thomas Anderson passa a manipular os espaços em torno dos personagens e eles evidenciam a atração difícil e amedrontada que os dois sentem imediatamente um pelo outro. Já para recomendar o cuidado do espectador em momentos-chave, Anderson não economiza em zooms e angulações da câmera.

Em outro momento interessante da direção de Magnólia, o cineasta usa muito apropriadamente o campo e o contra-campo durante a entrevista de Frank T. J. Mackey. O personagem, embora obviamente um embusteiro, só tem sua biografia questionada pela primeira vez durante o diálogo com a jornalista. Logo a seguir, Anderson opta por uma câmera subjetiva que mostra a repórter em pleno ataque contra as respostas contraditórias e inverossímeis de Frank e também por um close up que registra a pergunta que desfere o golpe final – “Por que você mentiu, Frank?”. Todas essas escolhas são fundamentais para revelar as fragilidades e o caráter dual do protagonista. Mas isso, certamente, não se aplica apenas a ele. Anderson demonstra uma versatilidade notável em suas escolhas de direção para construir e, logo depois, descontruir seus personagens, que exibem muitas características conflitantes entre si. Esse aspecto nos conduz a um dos pontos temáticos mais importantes e centrais da obra.

É importante que compreendamos os personagens e suas diferentes imagens. Todos eles, sem exceção, surgem na tela apartados de si próprios. Perderam-se de si mesmos e sofrem por isso. Quando Jimmy visita Claudia em seu apartamento, sendo recebido na porta por Ray, ele diz à filha que foi o seu namorado que o deixara entrar, mesmo já sabendo que o homem não era namorado de Claudia. A moça, viciada em cocaína e completamente decrépita, pergunta ao pai se ele a achava uma “vagabunda”. A ideia de Ray como namorado de Claudia aponta para a direção que a vida dela jamais tomou e que significaria para ela ter sido uma boa filha e, para Jimmy, ter sido um bom pai. Ambos amargam suas imagens faltosas. Donnie, por sua vez, enxerga em um aparelho dentário a parte que falta na sua. Em uma cena no bar, toca a música The Logical Song, da banda Supertramp, cuja letra narra a história de um homem educado para que perdesse completamente a sua espontaneidade, terminando confuso sobre quem era. O personagem de Magnólia afasta-se mais de si mesmo a cada novo esforço para fazer a cirurgia dentária.

Earl é um paciente em fase terminal, que construíra a sua imagem masculina à revelia de seu amor por Lily. Traiu a esposa que tanto amou porque considerou que assim deveria ser. Para que fosse “homem”. Passa seus últimos dias praticamente inconsciente devido à morfina toma regularmente. Contrariamente, é a consciência plena sobre a gravidade de seus atos que leva Linda, sua esposa nos últimos anos, a uma crise. Ver Earl definhando no leito de morte vai mergulhando a personagem em um tormento sem fim. Também a dupla imagem que Stanley é obrigado a carregar pelo pai autoritário lhe provoca uma crise de mesmas proporções. Stanley precisa ser gênio, mas também precisa ser menino. A plateia deseja aplaudir suas respostas, mas também achá-lo “fofo”. Tal como uma criatura exposta em um freak show às avessas. Tudo muda ao urinar na calça. A genialidade deixara de ser suportável para ele. Assim como a solidão auto-imposta para o policial Jim. Todo esse processo de redescoberta de uma imagem perdida, feito por cada personagem, é regido por uma tempestade crescente.

Muitos analisam a famigerada chuva de sapos apenas à luz da citação do Êxodo 8:2. A cena me parece conter uma possibilidade de leitura ainda mais interessante. Não vejo o surpreendente evento somente como uma reprimenda divina aos moldes do dilúvio ou das pragas bíblicas. O que penso acontecer quando Magnólia se encaminha para seu desfecho é uma grande catarse. No sentido mais puro do termo. A insólita chuva ocorre exatamente no momento em que os personagens revivem seus traumas não elaborados de algum modo, purificando-se deles. Jim revive a perda do amor após o encontro malfadado. Claudia, a dor do abandono. Frank reencontra seu ressentimento na presença do pai acamado. Jimmy Gator, uma nova chance de expiar a própria culpa após errar o tiro que tiraria a própria vida. Com todos os outros, acontecerá o mesmo. A dor, a crise, a catarse e a redenção. E o que mais impressiona é que tudo isso caiba em apenas um dia de suas vidas e um único filme de Paul Thomas Anderson.

Magnólia (Magnolia – EUA, 1999)
Direção:
 Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Tom Cruise, Philip Baker Hall, Melinda Dillon, Jeremy Blackman, Michael Bowen, William H. Macy, Philip Seymour Hoffman, Jason Robards, Julianne Moore, John C. Reilly
Duração: 188 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.