O uso do singular, no título, só faz sentido se compreendemos que, de uma lado na pancadaria, há uma gigantesca máquina de guerra imparável, invencível e impiedosa, capaz de sobreviver à todas as provações e lidar com qualquer obstáculo e, de outro, há um coitado de um robô alienígena que tenta, em vão, matar a tal máquina de guerra, caso contrário o plural seria mais apropriado. Porque Máquina de Guerra é bem isso, um ser humano descomunal como o Dutch de Arnold Schwarzenegger, no clássico Predador, fazendo um assassino alienígena passar por todo o sofrimento e vergonha possível. A diferença é que Alan Ritchson, apesar de enorme e dono de um certo carisma, não lambe as botas de Schwarzenegger ou até mesmo de qualquer outro grande brucutu oitentista e também que a ausência de um antagonista biológico faz o conflito esfriar e começar a se repetir muito rapidamente, mesmo que, aqui, haja mais buchas de canhão do que o usual em filmes assim, o que contribui para mortes variadas, ainda que menos do que deveriam ser.
No entanto, no frigir dos ovos, a nova parceria cinematográfica de Patrick Hughes e James Beaufort, ao justamente repetir a estrutura do citado Predador, entrega aos espectadores que não quiserem muito mais do que ação constante, um divertimento que consegue, na ponta dos pés, ficar pelo menos meia testa mais alto do que a grande maioria da aglomeração de produções atuais para streaming que tentam capturar a tão desejada atmosfera oitentista de fazer pancadaria. O roteiro é mambembe, com toneladas de clichês usados como Araldite e diálogos ruins que o elenco não consegue elevar às canastrices hilárias que os ídolos de outrora conseguiam e que poucos ídolos brucutus mais recentes como Liam Neeson também conseguem, com a mortandade dos extras e semi-coadjuvantes acontecendo muito antes de o espectador ligar para quem morre, mas a estoicidade de Ritchson funciona muito bem como uma literal máquina de guerra que, no dificílimo treinamento para tornar-se ranger do exército americano como forma de homenagear o irmão que vemos morrer no prólogo, dá voltas e mais voltas em todos os seus colegas em exercícios e desafios e, depois, quando a realidade chega (algo que só demora 30 e poucos minutos), continua igual, jogando em todas as posições com a eficiência de um T-800.
Sim, Ritchson vive seu 81 – todos os candidatos a ranger são chamados apenas por números – da única maneira que ele sabe viver seus personagens desde Rapina, na indizivelmente péssima Titãs, ou seja, estufando o peitoral e fazendo cara de coitado, mas essas são as marcas registradas do ator que, sem vergonha alguma de ser feliz, bebe direto do estilo do famoso fisiculturista austríaco que se tornou ator e governador americano, ainda que este não faça cara de coitado, só de enfezado mesmo. No entanto, ter dois “atores” do mesmo nível no protagonismo e no antagonismo atrapalha um pouco, como disse, pois a máquina de combate de carne e osso acaba tornando-se tão genérica quanto a máquina de combate de metal e os embates não oferecem novidades suficientes para segurar a fita ao longo de toda sua projeção que, ainda bem, não chega a duas horas. E não ajuda muito que o roteiro faça questão de deixar evidente que exatamente aquilo que vemos no começo será também visto no desfecho, algo que é avisado infinitas vezes ao longo da fuga desesperada dos soldados, o que acaba telegrafando demasiadamente a história e revelando uma certa preguiça de Hughes e Beaufort em escrever algo que não seja um “morre e foge” constante até não sobrar quase ninguém para que, então, o embate final – que não tem sentido lógico algum, mas quem quer lógica? – finalmente aconteça.
Uma grande vantagem de Máquina de Guerra é que o protagonista, diferente do que dizem por aí, é um sujeito sensível e profundamente perturbado pelo trauma sofrido com a morte do irmão na sua frente, ou seja, foge um pouco do molde padrão dos anos 80, assemelhando-se mais a John Rambo somente no primeiro filme ou John McClane, também somente no primeiro filme, personagens mais humanos que marcam o começo e o fim da década dos exageros extremos. Só que Hughes e Beaufort não têm coragem efetiva de abordar a humanidade de 81 e tudo fica somente na superfície, mas, pelo menos, já é um começo. Outra boa jogada é que quase não há armas de fogo para os soldados que precisam correr do robô gigante, o que evita os intermináveis tiroteios vazios do gênero e, além disso, as filmagens em locação na Austrália – com o filme se passando nos EUA – fazem bom uso da ambientação natural, o que desvia o longa do uso excessivo de computação gráfica.
Com o obrigatório final aberto – e ambicioso talvez demais a ponto de arriscar desvirtuar tudo na continuação – e com participações especiais de Dennis Quaid e Esai Morales – Máquina(s) de Guerra é aquele exemplar cada vez mais raro de pancadaria brucutu que acerta um pouco mais do que erra tentando fazer apenas o básico. Ritchson, ciente de todas as suas limitações, é ator que serve justamente para esse tipo de papel, ou seja, o de rolo compressor super-heróico que não deixa nenhuma dúvida, desde os segundos iniciais, de que ele não só sobreviverá a tudo o que jogarem em cima dele com apenas alguns arranhões ou talvez mancando um pouco, como fará o espectador começar a ficar apreensivo pelo destino do vilão, mesmo que esse vilão seja somente uma máquina sem rosto e sem emoções.
Máquina de Guerra (War Machine – Austrália/EUA, 06 de março de 2026)
Direção: Patrick Hughes
Roteiro: Patrick Hughes, James Beaufort (baseado em história de Patrick Hughes)
Elenco: Alan Ritchson, Dennis Quaid, Stephan James, Jai Courtney, Esai Morales, Keiynan Lonsdale, Daniel Webber, Blake Richardson, Jack Patten, Jacob Hohua, Alex King, Joshua Diaz, James Beaufort, Justin Wang, Matt Testro, Heather Burridge, Victory Ndukwe, Jake Ryan, Christopher Kirby, Joey Vieira, Ditch Davey, Patrick Hughes
Duração: 107 min.
