Crítica | Missão: Impossível 2

“Sr. Hunt, isto não é missão difícil, é missão impossível. Difícil deve ser um passeio pelo parque para você.”

Quando Missão: Impossível caminhava para o seu último ato, existia um caráter perceptível da busca, pelos seus realizadores, ainda mais pelo experiente Brian De Palma, em uma veracidade bastante interessante, incorporando a implausibilidade para um mundo no qual ela é aceitável, entendível e realizável. A missão é impossível, mesmo ela não sendo. Contudo, o filme, ao chegar, enfim, à cena do trem, perde um pouco de sua identidade de espionagem, dando mais espaço para o que é incrível, deixando de lado o crível. O efeito negativo sobre o todo é pequeno, nem de longe quebrando o longa-metragem, mas essa crítica não pode ser feita, em contrapartida, ao diretor John Woo, que não deixa isso acontecer no seu criticado Missão: Impossível 2, a segunda incursão da franquia. O cineasta amarra as impossibilidades coreográficas com o enredo de uma maneira mais coerente, nesse aspecto, que o excelente clássico dos anos 90. O mais impossível não é a missão realizada pelos personagens, que, na realidade, nem importa muito para nos envolver durante a projeção, mas os feitos humanamente improváveis, condutores de uma sensualidade e uma identidade que possuem muita correspondência com a qualidade de John Woo em direção.

Para exemplificar essa atitude do cineasta, o começo do filme já proporciona a inversão completa de sua intuição para a franquia. O ícone da vez é Ethan Hunt (Tom Cruise) e o trabalho de Woo é mistificá-lo incrivelmente, de uma maneira que o torne não apenas um símbolo de espionagem, algo compartilhado com o clássico James Bond, mas também um espelho do cinema de ação “de verdade”, com explosões impressionantes, perseguições em alta velocidade e pancadaria de divertir os mais insensíveis. O que distancia Woo de cineastas que viriam a tentar imprimir o mesmo objetivo, mas de uma forma genérica, extremamente indistinta – uma moda em Hollywood, potencializada por sucessos como esse, uma das maiores bilheterias de 2000 – é o entendimento do diretor na proposta de sua ação, até mesmo do seu drama, mais carregado de teatralidade. Não estamos falando de sequências esquizofrênicas, embora os cortes rápidos levem para uma visão do tipo, mas de uma condução muito dinâmica, porém controlada. A diversão do espectador, entretido por momentos grandiosos, como o duelo mão a mão entre o herói e o vilão, já no clímax da fita, surge pelo trabalho cirúrgico da edição, que não nos torna um público perdido, mas imerso em um jogo no qual o tempo é tudo.

O cinema evidencia a ilusão do tempo. Durante seu filme, o diretor John Woo guia a câmera para que a maior parte da construção do interesse sexual entre Hunt e Nayah (Thandie Newton) seja feita logo no primeiro contato visual entre os dois personagens, intercalado pelo vestido de uma dançarina, indo e vindo em câmera lenta. Se não bastasse isso, a cena na banheira também é muito boa, conferindo o envolvimento que o roteiro, em si, não confere. O desenvolvimento desse relacionamento, interessado em fazer o espectador se envolver dramaticamente com o que acontece na trama, não é complexo, pois a realização da obra não pede isso, mas funcional o suficiente para caminhar lado a lado com a proposta do longa e elevá-la. A câmera lenta, aliás, é o maior aliado de Woo nesse seu filme, imprimindo uma identidade clara no qual o tempo é um mero apoiador cinematográfico, não precisando ser respeitado. Em uma única cena, cortes rápidos, fazendo interagir ângulos distintos do mesmo acontecimento, até mesmo repetindo um ou outro plano, mapeiam toda a ambientação, criando um cenário no qual o espectador também é presente. O que mais o cineasta quer é desrespeito com a lógica do tempo mundano, porque ele abrevia o impressionante, o formidável, o impossível.

Por outro lado, também é evidente uma sagacidade no roteiro, não em construir uma trama conspiratória instigante – isso ele não tem mesmo -, mas em desenvolver reviravoltas inteligentes, sem muito significado costurado com a linha principal, surpreendentes, porém, na relação entre o espectador e o cinema de ação, criador de batidas que são subvertidas aqui. Por exemplo, retomo o começo de Missão: Impossível 2, situado em um avião, que fomenta uma intuição premonitória no público ao notificá-lo de problemáticas, garantindo, contudo, a segurança da situação ao posicionar o protagonista no meio do caos, prestes a acontecer. Aquele suspense básico, classicamente abordado no cinema. Assim como nesse caso, as icônicas máscaras da franquia ganham papel essencial dentro da estruturação do enredo, também retornando em uma outra virada interessantíssima, quando um personagem-chave, interpretado por Brendan Gleeson, é sequestrado. Nossa intuição, tentando premeditar o que sempre vemos em filmes do tipo, ainda mais aqueles com cara de “genérico” – adjetivação equivocada a essa fita -, é enganosa. Missão: Impossível 2, dessa maneira, sabe muito bem controlar as nossas expectativas.

Em uma outra virada dessas, sem a mesma energia, ao menos John Woo cumpre o que propôs com ela, conferindo mais uma decisão inesperada por parte da narrativa – ainda seguindo um molde bastante tradicional. A simplicidade, porém, atrapalha. O espectador espera tramas complexas, como a não tão elaborada, mas complicada, de Missão: Impossível. A conspiração, dessa vez, é de fácil entendimento, dando margem a dois macguffins de intuitos opostos: um mata, um cura. O envolvimento do capitalismo no meio é bastante interessante. A ligação entre os macguffins também. O resultado, mesmo assim, é de indiferença, agregando pouco, inutilizando nada. Ninguém irá assistir Missão: Impossível 2 em razão da história. Porém, ninguém deixará de assistir Missão: Impossível 2 em razão da história. A única questão contraditória nesse olhar é a fraca antagonização por parte de Dougray Scott, um desvio em uma rota cheia de personalidade. De qualquer forma, John Woo transformou Missão: Impossível, mas não destoou da essência existente. A essência que mudou, a trilha sonora que mudou, mais vibrante, assim como o próprio objetivo: criar danças sobre pancadaria, poesia sobre ação e explosões em câmera lenta sobre um passeio de carro.

Missão: Impossível 2 (Mission: Impossible II) – EUA, 2000
Direção:
 John Woo
Roteiro: Robert Towne
Elenco: Tom Cruise, Dougray Scott, Thandie Newton, Ving Rhames, Richard Roxburgh, John Polson, Brendan Gleeson, Anthony Hopkins
Duração: 123 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.