Crítica | Missão no Mar Vermelho

“Ninguém fica para trás.”

Em vista do que o responsável pelo projeto anseia, é compreensível a escalação de Chris Evans, conhecido por seu papel como Capitão América, para ser justo o protagonista de Missão no Mar Vermelho. O longa-metragem, mantido por um tempo sem distribuidor até ser pego pela Netflix, trata da migração de judeus etíopes para Israel, mais especificamente os movimentos estratégicos ocorridos durante os anos 80. Grupos à procura de refúgio, como aponta esse enredo inspirado em acontecimentos reais, iam da Etiópia ao Sudão, permanecendo em um campo de refugiados até serem por fim transportados à Israel. Assim sendo, a obra em questão precisa, ao seu ver, elencar os salvadores que inteligentemente conseguiram mediar a evacuação de pessoas. Os refugiados em si, porém, pouco importam. Consequentemente, ninguém mais heroico que o Capitão América em carne e osso, aqui encarnando o comandante de uma missão secreta, Ari Levinson. Evans é o astro principal de um projeto acerca de imigração que, em contrapartida, propaga com bem pouca sinceridade os dramas relacionados à imigração em si. Da maneira como o cineasta Gideon Raff retrata os problemas envoltos de Ari e sua equipe secreta, a gravidade do que acontece, no mais, é sabotada por tal obra, que não consegue entender o seu próprio propósito, dramático e narrativo.

Com Evans impedindo um mero garoto de ser morto, resgatando-o no exato último segundo, a primeira cena de Missão no Mar Vermelho exemplifica bem o tom com que o cineasta cria a obra. Fora a pieguice da ocasião, os problemas acentuam-se à medida que o longa prova-se cada vez mais assim: um amontoado de contraposições e questionamentos a como explora os impasses que orquestra. Em primeira instância, o seu diretor denota mais interesse em criar figuras heroicas que realmente apresentar os dramas relacionados. Bem mais que apenas usufruir do símbolo que promove com a abertura da obra, Raff rapidamente procura nas próximas oportunidades construir uma aura grandiosa no entorno do seu protagonista. Evans, portanto, constantemente aparecerá se exercitando no decorrer do longa, para que os seus músculos sejam enaltecidos, mas também, especialmente, os seus poderes de empatia e nobreza. Missão no Mar Vermelho, curiosamente, então possui a proposta dramática de uma produção costumeira de super-heróis, que troca os danos causados no povo em si para explorar os causados nas pessoas que quer o salvar. Mas nem nesse sentido a execução é primorosa: o personagem de Evans, ainda que o ator esteja bem sendo outro Capitão América – ou Israel -, parece sofrer mais por ter que se afastar de sua família.

Ao mesmo tempo, aparece uma má-posicionada trama paralela relacionada ao personagem de Alessandro Nivola, que tem uma rixa interna com Ari. Não é segredo nenhum, portanto, apontar que, por ser construída pessimamente, no fim as únicas consequências estão no ritmo, quebrado. Por outro lado, o que questiona substancialmente a integridade do longa-metragem encontra-se em como Gideon Raff retrata essa missão em si. O cineasta rapidamente passa de um aspecto dramático e tenso para se encaminhar a um retrato quase paradisíaco do resort que a equipe do protagonista compra, visando ter uma importante fachada enquanto retira centenas de refugiados do Sudão. Dessa maneira, o tom muda progressivamente, transformando pontuais tensões em um reflexo mais cômico, ao passo que hóspedes de verdade acabam parando no resort de mentira. O roteiro, também de Raff, pensa que é interessante mostrar para os espectadores os personagens praticando mergulho ou ioga. Contudo, essa redefinição de prioridades termina diminuindo ainda mais a presença dos refugiados na trama, como soa ser uma escapatória para o cineasta não explorar melhor os meandros políticos. O roteiro, no entanto, simplesmente expõe, sem qualquer sugestão, informações acerca disso, ao invés de se interessar no gênero do thriller com mais vigor.

O encerramento, com os dados numéricos que concretizam a narrativa enquanto verdade, cria um diagnóstico preciso do que o longa quer alcançar, apesar de ser por meio de uma execução completamente contraditória. No caso, a quantidade de refugiados registrada na conclusão agrava um problema enorme da obra. O caso é que Missão no Mar Vermelho não discursa de fato sobre essas pessoas, ou, mais precisamente, não concilia qualquer conversa realmente aprofundada entre o que aqueles agentes protagonistas estão passando em contraste ao que os judeus etíopes sofrem rotineiramente. Kebede (Michael K. Williams) pode até soar como sendo o coadjuvante mais importante da obra, mas o tratamento que o roteiro dá ao personagem é bastante pífio. O bom Williams precisa reiterar os mesmos sermões repetidamente, cansando, em oposição a Gideon Raff adentrar no seu íntimo e sua perseverança em cumprir a promessa que margeia a cada um dos refugiados com que conversa. Quando pontua-se sobre a fome que essas pessoas vivem nos campos é à troco de nada, pois os protagonistas são impotentes nesse sentido e nem para se doerem com suas impotências. O personagem de Evans pode até comentar que “ninguém é deixado para trás”, mas a verdade é que a obra termina esquecendo de seus próprios refugiados.

Missão no Mar Vermelho (The Red Diving Sea Resort) – EUA/Canadá, 2019
Direção: Gideon Raff
Roteiro: Gideon Raff
Elenco: Chris Evans, Haley Bennett, Ben Kingsley, Michiel Huisman, Alessandro Nivola, Michael Kenneth Williams, Greg Kinnear, Alona Tal, Chris Chalk, Mark Ivanir, Alex Hassell
Duração: 129 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.