Com o estabelecimento temático, estilístico e narrativo do giallo e a preparação para a explosão criativa e escancaradamente violenta do poliziottesco ali por 1972, com A Polícia Agradece, o cinema italiano ganhava muito mais espaço para fundir gêneros e experimentar situações extremas, que é justamente o que Enzo G. Castellari, que abandonou temporariamente o faroeste para explorar o thriller psicológico, faz aqui. Momentos de Desespero é uma coprodução ítalo-espanhola filmada na Cinecittà e em Londres, que mistura giallo (numa versão bem diluída, para ser sincero) com elementos de suspense e filmes de sequestro, num roteiro tenso que enrola um pouco no desenvolvimento, mas vai ficando interessante na parte final. A mansão do juiz Fernando Flower (Fernando Rey) vira uma arena claustrofóbica onde Peter (Gianni Garko), sobrinho fútil do magistrado, e Anna (Giovanna Ralli), prostituta italiana, são as vítimas de um esquema de vingança pensado por Arthur Welt (Frank Wolff) e Quill (Julián Mateos), criminosos que buscam acerto de contas com o juiz por suposta condenação corrupta. Toda essa tensão é atravessada por muitos pontos de vista interessantes da câmera — enquadramentos através ou por entre grades e objetos, além de ótimos closes que deformam o objeto filmado — criando algo que, até certa medida, compensa o fato de o restante da fita ter pouca violência e sangue para um giallo.
Castellari, acostumado aos tiroteios coreografados dos westerns, tenta balancear a dinâmica mais teatral da premissa perseguindo personagens com a câmera, fragmentando os rostos em primeiros planos, explorando os cômodos da residência em favor das possibilidades de assassinato. Peter tenta se comunicar com o exterior criando mensagens cifradas, incluindo recado em latim para o tio, mas essas tentativas são ingredientes levemente soltos na história, sem muita atenção do roteiro. A alternância da edição entre os diferentes lugares da sala e a visita a outros cômodos acelera um pouco as encheções de linguiça do roteiro, cortando abruptamente entre situações paralelas, como Peter e Anna em conflito direto com os sequestradores, o juiz Flower em seu escritório, prestes a abrir a porta e ser exterminado por uma bomba. A abertura do filme, onde uma suposta agressão sexual com navalha se mostra uma performance teatral de Karin Schubert num cabaré, brinca com o giallo e frustra colossalmente o espectador, porque logo a seguir, abandona as linhas mais fortes e típicas do gênero para jogar pelas regras do thriller.
Composta por Ennio Morricone, a trilha sonora aparece pouco, desperdiçando oportunidade de compensar sonoramente aquilo que falta em outros aspectos estéticos. Infelizmente, a partitura é econômica demais e surge esporadicamente, deixando longos segmentos transcorrerem em silêncio (não aqueles em que o silêncio é bem-vindo) ou apenas com ruídos diegéticos, no todo, muito pobre. Este é outro contraste em relação aos gialli da mesma safra, onde as trilhas são mais perceptíveis, às vezes até demais. A discussão válida sobre corrupção no sistema judiciário atravessa o filme de maneira cada vez mais intensa, ligando-se tematicamente ao contexto italiano pré-poliziottesco: Welt acusa o juiz de ter vendido sentença mediante suborno, e a discussão sobre sentenças determinadas por poder e dinheiro vem à tona, não apenas ligada à pessoa do juiz interpretado por Fernando Rey (que é só um símbolo do problema), mas a todo o Estado e suas instituições. Essa crítica seria desenvolvida plenamente nos filmes policiais e urbanos que Castellari dirigiria posteriormente, onde a paranoia institucional dos “Anos de Fogo e Chumbo” estruturaria narrativas inteiras.
Fernando Rey, já habituado a ambiguidades morais nos filmes de Buñuel, é enquadrado atrás da escrivaninha durante a maior parte do tempo, fazendo uma espécie de “presença fantasmagórica da injustiça” que paira sobre a ação sem participar dela diretamente. Os bandidos ficam entre a frieza e os colapsos emocionais, especialmente no final, quando as máscaras caem e uma toada até meio infantil acaba tomando conta do principal algoz. É neste último bloco do filme que Castellari abandona a contenção e acelera para um desfecho violento, com enquadramentos inventivos coroando a tensão construída até ali. O cineasta fica mais confortável quando deixa que os instintos tomem conta dos personagens, transformando a mansão em campo de batalha, fazendo de cada objeto uma arma e de cada porta um ocultamento de perigo. A hibridez de gênero em Momentos de Desespero gera um suspense que começa contido, abraça a violência típica do giallo tardiamente e termina como uma boa, mas criticável obra de transição, meio nervosa e meio inventiva, que vale mais pelas pinceladas estéticas curiosas do que pelo seu conteúdo e essência.
Momentos de Desespero (Gli occhi freddi della paura / Cold Eyes of Fear) — Itália, Espanha, 1971
Direção: Enzo G. Castellari
Roteiro: Tito Carpi, Enzo G. Castellari, Leo Anchóriz
Elenco: Giovanna Ralli, Frank Wolff, Fernando Rey, Julián Mateos, Karin Schubert, Leonardo Scavino, Franco Marletta, Gianni Garko
Duração: 91 min.
