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Crítica | Nove Corpos em um Necrotério Mexicano

Será que não sobrou nenhum?

por Ritter Fan
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Considerando o estado atual das produções audiovisuais em um mundo em que cada vez mais as pessoas querem séries ultra curtas para ver nas telinhas dos celulares, tenho para mim que o Quibi foi o streaming certo na época errada. Lançado em abril de 2020, por Jeffrey Katzenberg, ele foi encerrado em dezembro do mesmo ano por, ironicamente, não encontrar a audiência que, hoje, muito provavelmente mergulharia vorazmente nele. Mas o extinto serviço volta e meia ainda gera frutos, como é o caso da minissérie pitorescamente intitulada Nove Corpos em um Necrotério Mexicano que havia sido originalmente concebida por Anthony Horowitz para ser um “produto Quibi” que, por razões óbvias, não seguiu adiante dessa forma, sendo reestruturada por completo de maneira mais comum, em seis episódios de tamanho regulamentar, que acabaram, então, chegando ao streaming.

Apesar de a estrutura curta original ainda ser visível, a boa notícia é que nada realmente parece estar fora do lugar ou, pior, expandido sem necessidade. É um mistério à la E Não Sobrou Nenhum, de Agatha Christie, em que um avião pequeno com 10 pessoas – oito passageiros e dois tripulantes – cai em uma região remota do México e nove sobrevivem ao impacto, mas eles vão morrendo um a um depois, indicando que há pelo menos um assassino entre eles. Paralelamente, no presente da série alguns dias depois do acidente, vemos nove corpos sendo resgatados pelo exército mexicano e guardados em um necrotério da base militar, aguardando autópsia, mas 10 passaportes são localizados. O que exatamente aconteceu é, então, revelado a conta-gotas na medida em que a série caminha entre o passado e o presente até que a convergência temporal final aconteça.

Trata-se de um mistério que chama atenção muito facilmente e que faz uso generoso e desavergonhado de todos os clichês do gênero, seja o uso compulsivo de reviravoltas, seja a caracterização dos sobreviventes como pessoas que escondem segredos variados, sem exceção, o que justifica as desconfianças quase irremediáveis entre todos por ali, com personagens que são médicos, investigadores de seguro, donos de motel e assim por diante que, porém, nunca são exatamente quem dizem ser. E, diferente do que muita gente pode achar, a série não tem nada de Lost para além da premissa básica de “avião caindo e sobreviventes tendo que se virar”. Com um elenco de atores menores liderados por Eric McCormack, o Will de Will & Grace, e David Ajala, o Book de Star Trek: Discovery, a minissérie é completamente sem firulas e muito claramente de baixo orçamento, com cenários em estúdios com direito a plantas falsas e pedras “de isopor”, com algumas tomadas externas capturadas por uma segunda unidade nas Ilhas Canárias fazendo as vezes de floresta mexicana.

No entanto, não se deixem levar por valores de produção mais baixos do que talvez se espere, pois a história é cativante o suficiente e o elenco segura bem as pontas daquele jeito “anos 90” de ser para justificar a conferência dos seis breves episódios, com uma boa e velha sucessão de pequenas reviravoltas apenas servindo de aperitivo para o “grande momento final” que é facílimo de acertar logo de cara (mistérios “inadivinháveis” são ruins e superestimados como eu sempre digo!), mas que é ao mesmo tempo muito divertido e satisfatório, mesmo quando o roteiro de Horowitz nos pede uma dose extra de suspensão da descrença. Nove Corpos em um Necrotério Mexicano não vai mudar a vida de ninguém, mas, para mim, foi uma agradável surpresa, como um romance bobo e leve, mas de conteúdo agradável, para ser lido entre obras mais densas. Exatamente o que o Quibi era para ter sido há cinco anos, aliás.

Nove Corpos em um Necrotério Mexicano (Nine Bodies in a Mexican Morgue – Reino Unido, 02 de março de 2025)
Criação: Anthony Horowitz
Direção: Brian O’Malley, Viviane Andereggen
Roteiro: Anthony Horowitz
Elenco: Eric McCormack, David Ajala, Lydia Wilson, Jan Le, Adam Long, Siobhán McSweeney, Peter Gadiot, Ólafur Darri Ólafsson, Carolina Guerra, Deborah Ayorinde, Hari Dhillon, Isaiah St. Jean, Ángel López-Silva, Sebastián Capitán Viveros, Harlys Becerra, Joana Borja, Christian Contreras, Sebastián Orozco, Daniel Topic, Misa D’Angelo, Oscar Foronda, Gloria Garcia
Duração: 293 min. (seis episódios)

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