Crítica | O 8º Doutor: Guerra do Tempo – 1ª Temporada

Esta 1ª Temporada da série The Eighth Doctor: The Time War (2017) serve como prequel da série The War Doctor, mostrando todos os esforços do 8º Doutor (Paul McGann) em se manter afastado da guerra. Quando eu soube que a Big Finish iria fazer essa série, confesso que fiquei preocupado. O problema inicial com o conceito é que o Doutor não se envolveria no conflito dos Time Lords com os Daleks, assim sendo, uma série intitulada “O 8º Doutor: Guerra do Tempo” não teria exatamente muita coisa de interessante para oferecer dentro desse recorte específico. Mas ainda bem que eu estava enganado.

É verdade que os roteiros insistem constantemente nessa ideia de afastamento do 8º Doutor de todos os horrores da guerra, mas no todo, a série mostra como ele viu a corrupção cada vez mais intensa de Gallifrey, inicialmente tentando traçar uma linha compreensível frente ao avanço de dominação Universal dos Daleks. Logo, porém, essa linha é extrapolada em todos os sentidos, ao ponto não ser mais possível “distinguir quem era quem”, frase que conhecemos em The Night of the Doctor e que agora comprovamos com pesar. Em outras aventuras como Day of the Vashta Nerada e a Temporada Infernal Devices vemos a reafirmação desse cenário, em um ponto bem mais avançado da guerra e com um estágio ainda mais lamentável dos métodos infames de Gallifrey para tentar exterminar os seus inimigos.

É por isso que nos quatro capítulos que formam essa estreia do 8º Doutor na Time War (a saber: The Starship of TheseusEchoes of WarThe ConscriptOne Life) o espectador se vê sem fôlego e cada vez mais compreendendo os motivos que levaram o protagonista a renegar o seu “nome escolhido” e se tornar um guerreiro, alguém engajado em colocar fim ao horror que dominava o Universo. E vejam que aqui estamos no que parece ser os primeiros anos da guerra! Na primeira e melhor aventura da Temporada, encontramos o Time Lord ao lado de sua companheira Sheena, tentando tirar umas férias (nem preciso dizer que isso dá errado, né?). O roteiro de John Dorney (que também escreve o episódio final) explora com grande facilidade e inteligência os primeiros abalos na malha espaço-temporal causados pela Time War, trazendo confusão de eventos, apagamento de memória e reconstrução de acontecimentos que nem o Doutor nem a sua companheira têm ideia do que sejam.

plano crítico The Conscript doctor who time war

Tanto esse primeiro momento quando o episódio seguinte (escrito por Matt Fitton, também autor do terceiro episódio) revelam uma “luta indireta” do Doutor, procurando se colocar ao lados dos que não podem se defender e de fato fugindo dos mandos e desmandos de Gallifrey. É por isso que o Piloto e parte do segundo episódio são os melhores da temporada. Neles, temos uma exploração externa da guerra, uma visão de como ela afeta diversas espécies e de como espanta aqueles que estavam longe do conflito e nunca imaginavam que tudo aquilo poderia chegar até eles. Mas o horror sempre chega.

Já nos dois episódios finais há uma mudança de abordagem por parte dos roteiros. Começamos a acompanhar o Doutor a partir de sua presença no Exército, sendo forçado por Ollistra e Cia. a agir como soldado, uma tentativa dos Senhores da Guerra de Gallifrey em ter em atividade um de seus melhores estrategistas, alguém que tantas e tantas vezes já batalhou contra os Daleks. É aqui que eu começo a ter problemas com o enredo. As tramas são até que bem conectadas, mas o tratamento mais expansivo dado no início… se perde, tornando as histórias mais burocráticas, até para o padrão de Gallifrey. Aproveitamos, porém, a relação cheia de alfinetadas entre o Doutor e Ollistra e a maneira como mais uma vez, o Time Lord sentiu o peso de sua decisão de jamais se envolver na guerra. Um peso que lhe é citado como marca moral diversas vezes ao longo do arco e que ele pode observar pelas muitas mortes à sua volta. E isso era só o começo do conflito…

The Eighth Doctor: Time War Vol.1 (Reino Unido, 26 de outubro de 2017)
Direção: Ken Bentley
Roteiro: John Dorney (#1 e 4), Matt Fitton (#2 e 3)
Elenco: Paul McGann, Olivia Vinall, Rakhee Thakrar, Nimmy March, David Ganly, Sean Murray, Hywel Morgan, Laurence Kennedy, Nicholas Briggs, Jacqueline Pearce, Karina Fernandez, Nick Brimble, Katy Sobey, Okezie Morro
Duração: 4 episódios c. 50 minutos cada

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.