- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas.
Contra todas as probabilidades, O Agente Noturno foi uma série que começou com uma primeira temporada muito boa. No entanto, como acontece com muitas obras de streaming que prometem muito, a segunda temporada acabando descendo ladeira abaixo, entregando algo não mais do que genérico, resvalando no ruim, o que me fez, muito sinceramente, começar a terceira temporada com muita má vontade e cheio de reticências, preparando-me para o pior. Por incrível que pareça, porém, em uma reviravolta enorme, a terceira missão de Peter Sutherland (Gabriel Basso) não só elevou novamente o nível da série, como conseguiu ser ainda melhor do que o primeiro ano, algo que, temos que lembrar, é bastante incomum.
Um dos maiores acertos da nova empreitada é voltar à estrutura da temporada inaugural, ou seja, um caso aparentemente pequeno que ganha relevo muito maior de conspiração política, algo que foi apagado pelo foco quase puro em terrorismo do segundo ano. Outro grande acerto – e eu percebo a ironia disso – foi pinçar e continuar com força o que de melhor a segunda temporada teve, ou seja, a conexão de Peter com o misterioso, escorregadio e inclemente Corretor, vivido por Louis Herthum, um excelente vilão que eu receava fosse ser esquecido. A terceira escolha louvável da produção foi eliminar Rose Larkin (Luciane Buchanan) por completo da equação e não porque eu não gosto da personagem ou da atriz, mas sim porque ela foi marretada na segunda temporada de tal jeito que foi um dos fatores que a fez descarrilar. Mantendo Rose apenas em menções aqui e ali, pois ela não poderia ser esquecida por completo, claro, a terceira temporada evitou malabarismos para forçar a reentrada da personagem na nova história.
No entanto, de longe o grande acerto de Shawn Ryan aqui foi de elenco. Não só a manutenção do Corretor na trama foi essencial, como seu desenvolvimento como alguém mais do que um mero final boss foi uma jogada de mestre, com Herthum mais uma vez acertando no tom de seu personagem, agora passando por um tratamento de câncer e revelando-se com um passado interessantíssimo que é abordado em detalhes em um episódio de origem dedicado, mas sem que ele seja absolvido por tudo o que fez. O retorno da agente do Serviço Secreto Chelsea Arrington (Fola Evans-Akingbola), com sua elevação de personagem menor para uma coadjuvante de peso, também ajudou muito a temporada por ela também ganhar mais estofo. No departamento de novos personagens e elenco, tudo funciona muito bem, começando pelo analista Jay Batra (Suraj Sharma), um assustado analista financeiro que esbarra em uma informação importante e foge para Istambul depois de ser acusado de matar seu chefe e que é quem Peter viaja para prender, envolvendo-se no mistério, continuando com a jornalista mexicana Isabel De Leon (Genesis Rodriguez) que é revelada como filha do Corretor, cujo nome real é Jacob Monroe, e que consegue ser a heroína sem ter um caso romântico com o herói e, claro, a melhor adição de todas, o assassino que conhecemos apenas como O Pai (Stephen Moyer) que é tão bom, mas tão bom que eu quero para já uma série spin-off só dele, mas sem esquecer d’O Filho (Callum Vinson), obviamente.
E há mais para falar no lado do elenco, pois os roteiros são azeitados o suficiente para criar um crescendo que aos poucos vai destacando mais Richard Hagan (Ward Horton), agora presidente dos EUA por operação do Corretor e Jenny (Jennifer Morrison), a Primeira Dama, com a entrada de um novo Agente da Noite, Adam Corrigan (David Lyons), que fora combatente de guerra na época em que o presidente era soldado. Há cuidado na manutenção de ambiguidade e dúvida sobre os Hagans e também sobre Corrigan durante grande parte da projeção, o que é um mérito grande para a temporada que procura fazer suas reviravoltas de costume, mas sem telegrafá-las demais, criando, ao contrário, um fascinante labirinto financeiro que, mesmo sendo ficção, tem perfeita lógica dentro do mundo em que vivemos, o que faz do texto uma crítica ferina ao status quo em geral e dos Estados Unidos em particular.
A ação é bem coreografada, mas sem exageros fora de esquadro, o que é, admito, um padrão bem vindo da série, com Basso carregando bem seu personagem que trafega entre a inocência e a incredulidade, mas que mantém uma bússola moral inabalável e passa longe de ser um agente invencível. Nem tudo funciona a contento, porém. Na medida em que a temporada se aproxima do fim, o ritmo fica acelerado demais e os acontecimentos passam a ser cada vez mais convenientes, em uma escalada cheia de tensão, mas que, por vezes, parece fácil demais, algo que fica evidente na forma como uma banqueira é convencida a contar a verdade, por exemplo. Igualmente, um personagem importante da primeira metade da temporada, Aiden Mosley (Albert Jones), diretor adjunto do FBI e coordenador da Night Action, no lugar de ganhar mais destaque depois da morte de Catherine Weaver (Amanda Warren), contato direto de Peter, quase que desaparece por completo sem qualquer tipo de contextualização maior, criando um buraco também conveniente demais que dificulta sem muita naturalidade a vida do protagonista.
Mas a maior surpresa, para mim, foi que a terceira temporada fechou o arco do Corretor iniciado na anterior e, como se isso não bastasse, entrega o que poderia muito facilmente ser o fim da série. Todas as pontas são devidamente amarradas e não fica nada pendurado para ser explorado em eventual quarto ano. Nos dias de hoje em que tudo precisa ter continuação e ninguém mais fica satisfeito sem algum tipo de cliffhanger, ver um encerramento desses é raro, mesmo que a série eventualmente continue. Por mim, ela poderia muito bem parar por aqui, em seu ponto mais alto, o que seria a real prova de maturidade da produção. Quem sabe não sou surpreendido novamente com o anúncio do fim de O Agente Noturno?
O Agente Noturno – 3ª Temporada (The Night Agent – EUA, 19 de fevereiro de 2026)
Desenvolvimento: Shawn Ryan (baseado em romance de Matthew Quirk)
Direção: Guy Ferland, Adam Arkin, Paris Barclay, Hiromi Kamata, Billy Gierhart
Roteiro: Munis Rashid, Anayat Fakhraie, Seth Fisher, Eileen Myers, Corey Deshon, Imogen Browder, Andrés Smith, Aiyana K. White
Elenco: Gabriel Basso, Genesis Rodriguez, Stephen Moyer, Callum Vinson, Louis Herthum, Fola Evans-Akingbola, Amanda Warren, Ward Horton, Albert Jones, David Lyons, Jennifer Morrison, Suraj Sharma, Zach Appelman, Gary Hilborn, David Zayas
Duração: 519 min. (10 episódios)
