Crítica | O Caminho de Volta (The Way Back)

Gavin O’Connor é um diretor e produtor que tem no currículo algumas obras que dão grande atenção para a trajetória de um personagem, não necessariamente focando em um único ponto trágico a ser superado ou num objetivo maior a ser alcançado, como vemos em seu excelente Guerreiro; mas sim no todo que faz esse indivíduo ser quem é, no exato momento do recorte do filme. The Way Back (2020) - O Caminho de Volta. Plano Crítico.

Gavin O’Connor é um diretor e produtor que tem no currículo algumas obras que dão grande atenção para a trajetória de um personagem, não necessariamente focando em um único ponto trágico a ser superado ou num objetivo maior a ser alcançado, como vemos em seu excelente Guerreiro; mas sim no todo que faz esse indivíduo ser quem é, no exato momento do recorte do filme.

Aqui em O Caminho de Volta (The Way Back), o roteiro de Brad Ingelsby acompanha o amargurado Jack (Ben Affleck, em uma interpretação que dialoga bastante com seu próprio problema com álcool e que ele interpreta de modo impressionante), um homem que por motivos que o público inicialmente não sabe, tem um vício que o está consumindo aos poucos, vive isolado e parece não se importar mais com a vida. Sem muitos diálogos ou mesmo grande contexto externo ao personagem — já que a obra centra basicamente todo o olhar narrativo em Jack –, o roteiro procura mostrá-lo em seus afazeres mais comuns, acostumando o espectador àquela dinâmica de vida para então fortalecer a quebra que vem com o convite que Jack recebe para ser técnico de um time de basquete do Ensino Médio, no Colégio onde ele próprio fora atleta.

Na apresentação e maior parte do desenvolvimento do filme, nós imaginamos que a obra irá se desdobrar em torno dessa situação: um homem viciado que tem uma história de ascensão (ou algum tipo de vitória) ao entrar em contato com algo de seu passado. É um caminho clichê, mas clichês bem trabalhados geram ótimas histórias. E de fato, parte disso acontece no filme, mas o roteiro adiciona outros componentes à equação um pouco tardiamente, criando justificativas para o comportamento de Jack e abrindo portas de caráter psicológico e traumático que jamais conseguem mostrar a que vieram e ficam apenas como demonstração de um problema que a gente já tinha entendido como muito sério.

A direção de O’Connor garante boas cenas de emoção nos jogos de basquete e excelentes ambientações noturnas, levadas a cabo pelo ótimo fotógrafo catalão Eduard Grau. Aí vemos o lugar de desgraça do protagonista, seu espaço de esquecimento, vergonha e abandono, sendo constantemente carregado para casa, realidade que é ainda mais triste pela sua relação com a vida do próprio ator. Mas tanto a linha narrativa que mostra a ascensão do time estudantil quanto o mergulho de Jack no álcool ficam em tese incompletas. Aqui e ali são entrecortadas por cenas que só atrapalham o enredo (sendo a pior delas um “encontro” com uma loira) e no fim recebem um tratamento de “a história continua…“, algo que só teria grande impacto se todo o desenvolvimento do filme fosse voltado para isso, o que não é o caso.

A atuação de Ben Affleck é o verdadeiro ponto alto aqui. O ator transmite com intensa realidade e humanidade a situação física, comportamental e psicológica de um alcoólatra que tenta ao máximo se manter ativo, mas que acaba sempre vencido pela bebida e volta ao seu isolamento destrutivo. Por essa linha do drama e pela relação de Jack com o time de basquete, o filme consegue prender o espectador e ainda termina colocando outros elementos na vida do personagem, fazendo-nos entender o trauma paterno, a tragédia do luto e, depois de muito sofrimento e negação, a busca por ajuda, estágio que muitos indivíduos nessas condições sequer conseguem chegar, infelizmente. Uma história que se repete também na realidade e, diferente do filme, está majoritariamente despida de esperança e constantemente encerrada em tragédia.

O Caminho de Volta (The Way Back) — EUA, 2020
Direção: Gavin O’Connor
Roteiro: Brad Ingelsby
Elenco: Ben Affleck, Al Madrigal, Janina Gavankar, Michaela Watkins, Brandon Wilson, Will Ropp, Fernando Luis Vega, Charles Lott Jr., Melvin Gregg, Ben Irving, Jeremy Radin, John Aylward, Da’Vinchi, Matthew Glave, Nico David
Duração: 108 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.