Sob a direção e o roteiro do aclamado Alejandro Amenábar, a coprodução hispano-italiana O Cativo, lançada no Brasil pelo streaming Netflix, mergulha em um drama biográfico intenso protagonizado por Julio Peña, que dá vida a um jovem Miguel de Cervantes em sua fase mais vulnerável e transformadora. O filme explora meticulosamente os cinco anos em que o futuro autor de Dom Quixote permaneceu prisioneiro em Argel, iniciando em 1575 após ser capturado como um soldado naval ferido. Nesse cenário de opressão, a trama destaca não apenas suas persistentes e perigosas tentativas de fuga, mas também o florescimento de seu gênio narrativo e um complexo romance com o governador local. A imersão histórica é elevada pela trilha sonora envolvente, composta pelo próprio Amenábar, em tripla jornada, além da eficiente direção de fotografia deslumbrante de Álex Catalán, que capturam a crueza e a beleza daquela época, transformando o sofrimento do cárcere no berço da criatividade literária moderna. Com longos 133 minutos, mas que valem a nossa atenção por sua precisão narrativa e delicadeza diante de um contexto perturbador e violento, a narrativa é, com perdão do trocadilho, “cativante”.
Embora o renomado historiador José Manuel Lucía Megías tenha atuado como consultor histórico da obra, o filme opta por liberdades narrativas que divergem frontalmente das evidências acadêmicas defendidas pelo especialista. Para Megías, a representação de um Cervantes envolvido em atos homossexuais durante seu cativeiro em Argel não passa de um mito, fruto de um revisionismo transgressor surgido na década de 1980. Ele argumenta que um relacionamento entre Cervantes e Hassan Pasha, dois adultos de idades quase idênticas, seria impensável no contexto islâmico da época, que admitia apenas relações hierárquicas entre homens mais velhos e jovens. Da mesma forma, o consultor refuta a trama que sugere um envolvimento de juventude entre o autor e seu mentor Juan López de Hoyos, classificando a ideia como uma invenção moderna de Fernando Arrabal. No entanto, equilibrando-se entre verdades históricas e licenças ficcionais, a produção sustenta atributos dramáticos louváveis em seu núcleo central, compensando o subdesenvolvimento de personagens secundários e certos conflitos menos envolventes. Ao preterir o espetáculo das grandes cenas de ação em favor de uma jornada emocional e psicológica de resistência, o diretor utiliza um tom intimista que contrasta com o cenário de convulsões políticas, conferindo ao filme uma densidade emocional rara e sofisticada para o gênero biográfico com base em relatos históricos de luxo.
A cinebiografia de Miguel de Cervantes se eleva como uma obra de inegável requinte visual, fundamentada no sofisticado design de produção de Juan Pedro De Gaspar, que recria com minúcia a atmosfera da época, e nos figurinos assertivos de Nicoletta Taranta, cujas texturas e cortes pontuam com precisão a hierarquia social do período. Essa estética apurada transforma a produção em uma verdadeira história de luxo, não apenas pela opulência técnica, mas por mergulhar no universo de um dos maiores nomes do cânone literário mundial, extraindo grandeza mesmo ao recortar apenas um trecho específico de sua trajetória. Ao focar na essência humana de Cervantes, a produção utiliza sua moldura técnica impecável para conferir a dignidade e a magnitude que a figura histórica exige, equilibrando o rigor acadêmico com um espetáculo visual que fascina os olhos e honra o legado do autor de Dom Quixote. Em suma, uma cinebiografia que delineia a importância de acreditarmos no que sonhamos e o potencial da criação de histórias como um recurso de sobrevivência em tempos difíceis.
Partindo do confinamento como um catalisador para profundas reflexões sobre identidade e fé, a trama transporta o espectador para 1575, momento em que Miguel de Cervantes é capturado por corsários em meio às águas do Mediterrâneo. Distante da pátria e dos laços familiares, o futuro escritor é forçado a negociar sua existência em um ecossistema hostil, definido por hierarquias rígidas, tensões religiosas latentes e complexos jogos de poder. Em vez de se entregar ao clichê do sofrimento físico ou focar exclusivamente em tentativas de fuga, o filme eleva a narrativa ao status de ferramenta de resistência, utilizando liberdades criativas para aprofundar conflitos emocionais e simbólicos fundamentais para o desenvolvimento do protagonista. Esse período como prisioneiro, frequentemente negligenciado fora dos círculos acadêmicos, ganha vida sob uma nova ótica: ao tecer histórias originais e reinterpretar clássicos, Cervantes não apenas preserva a sanidade e a esperança de seus companheiros de cárcere, mas também seduz a curiosidade de figuras do poder local, estabelecendo uma relação ambígua e fascinante entre prisioneiro e carcereiro que redefine seu próprio destino literário trazendo a temática clássica para o nosso mundo atual, numa discussão ainda presente e pertinente em nosso contexto.
A força dramática da obra reside no embate magnético entre seus protagonistas: Julio Peña, no papel de Miguel de Cervantes, entrega um desempenho dramático que equilibra com maestria fragilidade, inteligência e uma resistência inabalável, enquanto, do lado oposto, Alessandro Borghi dá vida a um Hasán Bajá que exala sensualidade, cinismo e uma arrogante consciência de seu poder. Longe de ser um antagonista convencional, o líder local interpretado por Borghi torna-se a figura-chave na trajetória de Cervantes, representando uma autoridade exercida por meio da negociação, da curiosidade intelectual e do controle simbólico, o que estabelece uma relação tensa, imprevisível e carregada de eletricidade com seu prisioneiro. Assim, sob a direção de Alejandro Amenábar, que com seu talento habitual aposta no poder do silêncio, na densidade do diálogo e no conflito psicológico puro, o filme foge do óbvio ao sustentar uma ambientação contida e um ritmo controlado. Essa ênfase absoluta na construção dos personagens transforma a experiência em algo profundamente reflexivo, consolidando a trama não apenas como um entretenimento de alto nível, mas como uma eficiente e necessária aula de Literatura e História.
Para os possíveis questionamentos em torno das imprecisões históricas diante de O Cativo, u aviso: esta narrativa se distancia de um documentário biográfico convencional para abraçar a ficção histórica, utilizando os factos reais apenas como alicerce para explorar livremente as zonas cinzentas da vida de Miguel de Cervantes. O foco recai sobre o seu período mais sombrio: o cativeiro em Argel, após ser capturado por corsários berberiscos na costa catalã e vendido como escravo, uma provação que culminou na sua libertação em 1580 pela Ordem Trinitária. Embora a indulgência do governador de Argel tenha alimentado especulações históricas sobre a sua vida íntima, a realidade é que Cervantes era um “prisioneiro de resgate” avaliado em 500 ducados, tornando-se um ativo financeiro demasiado valioso para ser executado ou castigado severamente. Na ausência de provas sólidas ou testemunhos fiáveis, qualquer tentativa de rotular a sua orientação sexual como heterossexual, bissexual ou homossexual revela-se anacrônica, haja vista a total dissociação desses conceitos modernos em relação à complexa realidade social do século XVI. E não. Não há evidências que comprovem a composição de sua obra-prima, Dom Quixote, nesse período. O que podemos, nesse caso, é especular. Talvez a sua experiência tenha ajudado a delinear aspectos do clássico, ao menos. Quem sabe?
O Cativo (El Cautivo, Espanha/Itália – 2025)
Direção: Alejandro Amenábar
Roteiro: Alejandro Amenábar
Elenco: Alessandro Borghi, Julio Peña, Miguel Rellán, Fernando Tejero, Luís Callejo, José Manuel Poga, Roberto Álamo, Albert Salazar, Juanma Muniagurria, César Sarachu, Jorge Asín, Maomé disse, Walid Charaf, Luna Berroa, Khaled Kouka
Duração: 133 minutos
