Crítica | O Clube do Imperador

“A sua vida se prolonga em outras vidas”…

Excerto do filme O Clube do Imperador

Em O Clube do Imperador, o professor William Hundert (Kevin Kline) é um professor da Snt. Benedict’s, uma tradicional escola de rapazes estadunidense conhecida por receber os filhos da elite social para estudar.  Com citações permanentes aos ensinos de filósofos gregos e romanos, tais como “o caráter do homem é o seu destino” e “o fim depende do início”, Hundert transmite os seus ensinamentos tendo em vista ideais considerados ultrapassados e hipócritas.

Em suas aulas o professor se esforça constantemente para impressionar os seus estudantes com valores ligados ao que chamamos de princípios éticos. O seu posicionamento em classe é firme, respeitoso, mas certo dia a “supremacia” é colocada em xeque com a chegada de Sedgewick Bell (Emile Hirsch), uma espécie de James Dean da vida de Hundert. Filho de um senador influente, o garoto quebra o ritmo das aulas com a sua aparente pouca importância para temas tão caros para o professor.

Ao entrar em choque com o sistema de ensino de Hundert, Bell vai promover uma revolução na vida do docente. No entanto, diferente do que observamos nos filmes deste subgênero, a revolução não será comum aos finais de filme em que o professor consegue salvar os estudantes do sistema, contornando os caminhos das suas vidas. Neste processo de interação que apresenta um longo período da vida do professor e de seus estudantes, talvez Hundert seja o personagem que mais tenha evoluído e aprendido lições que mudariam a sua forma de ver a vida.

Uma destas lições é algo que se discute com muita frequência em rodas de profissionais do ensino: professor não é perfeito. Mesmo que haja a necessidade de se preservar, cuidar da imagem e esforçar-se para ser um bom modelo/exemplo há uma exigência por parte da sociedade, e até mesmo, dos próprios professores, que sobrepujam a realidade, buscando um ideal de perfeição que não cabe para qualquer um que se designe “ser humano”.

Voltando para Bell, apesar da rebeldia desmedida, o professor enxerga no jovem alguém com bastante potencial. É nesta percepção que vai germinar o seu interesse em moldar o caráter do estudante, missão que Hundert toma para si com todas as forças. Bell parece responder aos estímulos, mas uma dolorosa traição, que envolve questões éticas, traz problemas para a relação estabelecida entre ambos, algo que se perpetua na juventude e posteriormente, quando numa oportunidade inesperada, Hundert se reencontra com Bell e outros estudantes da mesma classe, então adultos.

Quando jovem, durante um concurso para o prêmio Júlio César, organizado pelo professor, Bell acaba burlando as regras e colando, mas como a sua posição social era privilegiada, os gestores da instituição não levaram a denúncia de Hundert sobre o acontecimento, pois provavelmente isto causaria desconforto e instabilidade, visto que o pai do garoto é um político de posição igualmente privilegiada.

O que causa maior desconforto em Hundert é o fato de que apesar de pregar a ética o tempo todo, ele falha ao dar uma chance ao rapaz. No processo seletivo dos finalistas para o tal concurso, Hundert altera os resultados e classifica Bell como um dos três selecionados. Em sua concepção o rapaz tinha potencial e poderia não encontrar a mesma sorte futuramente. No entanto, para o seu amargor, Bell contraria todas as expectativas e questiona os valores pregados pelo professor, alegando que a ética é uma construção, algo que não tem o menor valor em sua vida.

É com este ritmo que a direção segura de Michael Hoffman conduz muito bem o roteiro de Ethan Canin, baseado numa história de Neil Tokin. O cineasta já havia trabalhado com o ótimo Kevin Kline em Sonho de Uma Noite de Verão e o clima apresentado em cena parece bem orquestrado. Ao longo dos 109 minutos, O Clube do Imperador se mostra um filme eficiente ao funcionar como drama e expor potencial para dialogar com qualquer área do ensino.

No que tange aos elementos da linguagem cinematográfica, o filme é bastante eficiente. Possui uma direção de fotografia competente, uma montagem equilibrada e designer de produção que contempla paisagens bucólicas e uma paleta de cores suave, bem interligada aos elementos dramatúrgicos. Por falar em dramaturgia, o personagem idealista do ator Kevin Kline é muito bem delineado pelo roteiro.

Para o ator Kevin Kline, dono de uma atuação hipnótica, Hundert é um estudo de um homem fascinante, um personagem que faz eficientes conexões entre o passado e o presente, com um método de ensino focado em sua devoção pela atividade que desenvolve. Tendo esta vocação para o ensino, ele é o “modelo de um professor de verdade”, um personagem quixotesco se pensado nos valores que prega e na realidade em que está inserido, alguém “iluminado”. Para dar força ao seu personagem, o roteiro nos oferece o contraponto de Hundert, alguém que coloca em prática o que se convencionou chamar de pragmática, uma pessoa com visão de futuro, preocupada em angariar fundos e estabelece conexões sociais que mantenha a escola de pé, mesmo que os novos formatos não respeitem os princípios éticos perpetrados por Hundert ao longo da sua carreira na instituição.

Para Ethan Canin, um dos lemas do filme é a importância da história e do ensino de moral aos alunos. Somado a isso, o filme mostra uma espécie de concretização dos conceitos de virtude e princípios morais. O cineasta Michael Hoffman, ao assumir o roteiro, disse acreditar no poder da educação pelo fato de ter tido ótimos professores e isso o ajudou a comandar o filme. O resultado, para bom entendedor, está na condução da narrativa.

Na ótica da produção, o professor precisa ter ética, dinamismo e boa vontade para ensinar. O roteiro, cheio de ideias socráticas e platônicas acerca da necessidade do espírito criativo e inovador, bem como da superação dos modelos que apenas reproduzem conhecimento mecanicamente. Como aponta Ghiraldelli em Filosofia da Educação, o filosofar é a “desbanalização do banal”, pois precisamos o tempo todo pensar sobre tudo que nos cerca, sair da inércia ou do estado de aceitação. É este o caminho que o filme segue: combater o conformismo nos apresentado pelas velhas normas estabelecidas desde sempre, numa busca incessante por uma melhor posição dentro da sua própria trajetória.

Hundert é o contrário do que Rubem Alves chamou certa vez de “dadores” de aula, ou seja, profissionais que adentram a sala de aula para reproduzir regras gramaticais, fatos históricos e fórmulas matemáticas. Ao trazer para a classe discussões tradicionais, revestidas de um olhar reflexivo, não meramente reprodutor, ele ganha a confiança dos estudantes e se revela alguém que marca a vida destas pessoas para sempre.

No percurso de Hundert, o idealismo é a virtude que irá nortear toda a sua metodologia, bem como a sua vida. Na contemporaneidade a relação entre idealismo e professores é um tema que rende polêmicas constantes. Há quem defenda a postura idealista, assim como há aqueles que acreditam no idealismo como algo que atrapalha o professor no que tange aos aspectos da objetividade e da praticidade no ensino. Em Sim, o professor pode ser idealista, de Rodrigo Ratier, mesmo sendo considerado ingenuidade, heroísmo e sacerdócio, na atual conjuntura da educação no planeta, é preciso aliar idealismo com as questões mais técnicas do campo da pedagogia.

Segundo a reflexão sobre as possibilidades do idealismo pelo professor, os domínios mais ligados ao tecnicismo e a profissionalização do educador fizeram com que hoje vejamos os professores idealistas como figuras românticas, deslocadas da racionalidade, em suma, quixotescos, tal como o ator Kevin Kline definiu em entrevistas na época de divulgação do filme. A relação com o icônico personagem de Miguel de Cervantes não é aleatória.

Conforme aponta o pedagogo argentino Juan Carlos Tedesco, os ideais na seara de atuação do professor são cada vez mais necessários para o educador.  Esta afirmação óbvia, mas desenvolvida com mais propriedade é parte da reflexão do profissional em um capítulo do livro El Trabajo Docente. Mas a ideia de O Clube do Imperador não deve ser levada ao pé da letra. É preciso, principalmente se for mediar alguma discussão sobre o filme, pensar nos possíveis contrapontos. O filósofo e educador indiano J. Krishnamurti, muito conhecido na área de educação por conta das suas opiniões numa conferência realizada em 13 de março de 1948, tendo como tema o idealismo na relação entre professor e aluno é um pensador que delineia um eficiente ponto de partida divergente.

Segundo o seu ponto de vista, não cabe idealismo na educação.  As suas ideias pregam que a coisa mais importante não é a técnica do método de ensino, mas a inteligência do próprio educador. No geral alguns professores estão dando apenas informações. Seguindo esta linha de pensamento, percebemos que é preciso ensinar as coisas de uma forma que estas sejam utilizadas em problemas práticos da vida do estudante.

Para Krishnamurti, se o interesse do professor é entender uma criança, não se deve ter o ideal do que ela deveria ser, pois para compreendê-lo é necessário estuda-lo como ele é. Desta forma, coloca-lo dentro de uma moldura idealizada é o mesmo que força-lo a estar dentro de um determinado padrão, mesmo que este não lhe sirva. Tal reflexão coaduna com a experiência do professor Hunder ao conversar com o pai do estudante “problemático”. Ao dizer que pretender “moldar” o filho do Senador, o prepotente político, aparentemente ausente no seu papel enquanto pai/mentor/orientador reforça que “você não moldará meu filho”.

Na concepção filosófica indiana, a idealização de um modelo de estudante coloca o individuo uma constante contradição entre o “ideal” e o que ele acredita, bem como pode criar alguém que se conforma tanto que deixa de ser um ser humano e age como um mero autômato sem inteligência. É, sem dúvida, algo polêmico, muito atual e interessante como linha de pensamento para colocar o filme numa discussão que não fique apenas no bojo do unilateralismo.

Na pesquisa A atratividade da carreira docente no Brasil, realizada pela Fundação Civita, a possibilidade de se tornar um agente de transformação social é uma dos fatores da escolha da carreira de professor. O que não satisfaz é o fosso que parece haver na relação com os pais (o filme representa isso muito bem quando o professor vai até o pai de um aluno), os conflitos de gestão (representado quando Hunder é “traído” pela instituição ao ter os seus ideais solapados pela necessidade angariação de fundos) e os aspectos financeiros, questão universal sobre a forma como os professores ganham muito pouco em relação ao importante trabalho que realizam.

O Clube do Imperador (The Emperor’s Club/Estados Unidos – 2002)
Direção: Michael Hoffman
Roteiro: Neil Tolkin
Elenco: Edward Herrmann, Embeth Davidtz, Emile Hirsch, Harris Yulin, Joel Gretsch, Kevin Kline, Patrick Dempsey, Rob Morrow, Steven Culp
Duração: 109 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.