Crítica | O Convento (1995)

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O Convento é uma obra estranheza no clima é nítida. O convento que dá título ao filme carrega uma atmosfera áspera, cheia de vazios e silêncios que entregam ao espectador um enigma, a sugestão de algo por trás muito maior que o que é contado. A história começa conturbada desde a produção do filme, que correu para substituir o protagonista por John Malkovich semanas antes das gravações. A obra nasce maldita, e a maldição plana diante dessa livre adaptação de Fausto encenada pelo brilhante Manoel de Oliveira.

É a história de Michael Padovich (John Malkovich), um pesquisador americano que, junto de sua esposa Helene (Catherine Deneuve), visitam um convento em Portugal para pesquisar a respeito de Shakespeare, que segundo Padovich seria um imigrante judeu espanhol que se refugiou no país lusitano. Parte de um casamento numa situação nebulosa, que diante das obsessões que cegam o protagonista botam em risco sua relação com a esposa, que se vê seduzida pelo dono do convento (uma espécie de extensão do próprio lugar, uma encarnação demoníaco dos espaços ali registrados). Sedução e adultério são sempre temas em voga, a tentação diabólica, seja o romance ou o conhecimento, andam lado a lado à serenidade que o filme alcança naquele ambiente bucólico.

Se fossemos imaginar como seria um filme de terror dirigido por Manoel de Oliveira, provavelmente O Convento seria o mais próximo. Primeiramente pela dimensão labiríntica que o cenário dispõe, uma paisagem pesada que se funde a dimensão dos atores e dispõe um peso maior aos ares anormais que envolvem o convento. Além disso, a encenação rígida de Manoel em alto nível, uma direção precisa e meticulosa, fruto principalmente do texto falado em português, inglês e francês, além do trio de protagonistas onde cada um fala um desses idiomas. John Malkovich não só interpreta um intruso como é, de fato, um corpo alheio a dimensão portuguesa. O ator foi uma solução às vésperas que complementou perfeitamente ao deslocamento que o seu personagem tem naquela terra, uma realidade suspensa em que aos poucos ele abandona a roupagem de celebridade para encarar sua própria jornada diante da história e do cinema português (onde Malkovich faria alguns outros filmes nos anos seguintes).

Ao longo de mistérios e incertezas abordadas por Manoel, nada nos é dado uma resposta final, a não suposições sobre o paradeiro de Michael e Helene, dada por pescadores que aparentemente os viram. O Convento nada mais é além de um grande conto imprevisível e desconfiável, onde só se tem a certeza diante da paisagem, da textura do solo, da beleza dos planos. São personagens e fatos flutuando ao longo da história, soltos e sem necessidade de resposta alguma.

O Convento – 1995, Portugal/França
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira, Agustina Bessa-Luíz
Elenco: John Malkovich, Catherine Deneuve, Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, João Bénard da Costa, Heloísa Miranda, Gilberto Gonçalves
Duração: 91 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.