Lançado em 1973, O Exorcista se firmou como um divisor de águas no gênero de terror, influenciando tanto a indústria cinematográfica quanto a cultura popular de maneira sem precedentes. Dirigido por William Friedkin e baseado no romance homônimo de William Peter Blatty, o filme aborda a possessão demoníaca e a luta entre o bem e o mal. Esses, “temas universais” que continuam se desdobrando na psique humana, mesmo em nossa era de avanços tecnológicos e mudança de perspectiva das pessoas em relação ao “espirituoso”. Veiculado pelo costumeiro trabalho editorial da DarkSide Books, O Exorcista: Segredos e Devoção, de Mark Kermode, é uma leitura fascinante e envolvente em torno dos bastidores, da recepção, em linhas gerais, do legado e do impacto cultural desse clássico do cinema que se gaba de ser um dos poucos filmes do universo macabro a ser indicado e ganhar prêmios legitimados pelos códigos da própria indústria que o produziu. Ao longo de suas 320 páginas, aprendemos não apenas sobre a organização prévia do filme, o seu desenvolvimento e, consequentemente, o lançamento e recepção, mas também sobre os mecanismos que engendram o “fazer cinematográfico”.
O texto de Kermode se apresenta como uma obra acadêmica essencial que disseca minuciosamente os bastidores, a produção e o impacto cultural do clássico cinematográfico de 1973. Com um texto fluente e uma organização eficiente de informações, a publicação se destaca por um projeto editorial de alta qualidade, onde o conteúdo escrito é harmoniosamente justaposto a imagens impactantes. A publicação funciona como um guia definitivo para compreender como a adaptação do romance de William Peter Blatty transcendeu as telas para se tornar um fenômeno global. Um dos pontos centrais da narrativa de Kermode explora os segredos e as lendas que cercam a produção, frequentemente classificada como “amaldiçoada”. O autor detalha os inúmeros problemas e acidentes ocorridos durante as filmagens, incluindo relatos de oito mortes suspeitas ligadas a membros da equipe, como o vigia noturno e o especialista em refrigeração. Além disso, o livro aborda o misterioso incêndio que destruiu parte do cenário, alimentando a aura de mistério e medo que envolve a história do filme até os dias atuais.
Para além das superstições, essenciais para manter o filme dentro de roda de conversas atuais para além de sua estrutura dramática e estética, Segredos e Devoção obra mergulha em curiosidades técnicas fascinantes sobre a execução de cenas icônicas. Kermode revela como o diretor William Friedkin utilizou sistemas reais de refrigeração industrial para criar o ar gelado visível no quarto de Regan, submetendo os atores a temperaturas abaixo de zero. O uso de efeitos práticos e o trabalho intenso de dublês são explorados através de entrevistas exclusivas com o elenco e a equipe, trazendo depoimentos valiosos de nomes como Ellen Burstyn, que compartilha sua perspectiva íntima sobre os desafios físicos e emocionais do projeto. A análise temática é outro pilar fundamental do livro, explorando como a obra aborda dilemas profundos de fé, dúvida e a eterna luta entre o bem e o mal sob a ótica da Igreja Católica.
O termo “Devoção”, em seu título, se refere a uma ambiguidade intencional: remete tanto à jornada espiritual dos personagens na narrativa quanto à fidelidade fervorosa dos fãs ao longo das décadas. Kermode examina como essa representação sensacionalista e, ao mesmo tempo, séria do exorcismo redefiniu o gênero do horror no imaginário popular, elevando-o a um novo patamar de respeitabilidade artística. A autoridade do texto é sustentada pela carreira prestigiosa de Mark Kermode, considerado o principal crítico de cinema do Reino Unido. PhD pela Universidade de Manchester com uma tese focada em ficção de horror, Kermode iniciou sua trajetória na crítica na década de 1980 e consolidou-se através de um estilo afiado e apaixonado na rádio, televisão e literatura. Sua conexão pessoal com o tema é notável, tendo inclusive colaborado diretamente com William Friedkin em 2017 no documentário O Diabo e o Padre Amorth, o que confere ao livro uma profundidade única de quem conhece o mestre e sua obra.
Em geral, caro leitor, O Exorcista: Segredos e Devoção é uma celebração intelectual e técnica que oferece um panorama completo sobre o legado do filme, com uma embalagem que faz toda a diferença para aqueles que, tal como quem vos escreve, também admira um suporte atraente para um texto no mesmo nível. É como experimentar uma iguaria em um prato bem bonito, algo que pode parecer “frescura”, afinal, o conteúdo é o que importa, mas possui lá a sua magia. Ao equilibrar a análise cultural profunda com o relato dos bastidores e controvérsias, Mark Kermode entrega um material valioso para estudiosos do cinema, entusiastas do horror e até mesmo para leigos que não dominam os códigos da cinefilia. A publicação não apenas documenta os fatos, mas imortaliza a importância de um filme que, mais de meio século depois, continua a ser a régua pela qual todas as outras obras de possessão demoníaca são medidas, ainda sendo tema de diversos debates em textos e fóruns bem atuais, demonstração da força de seu legado.
Desde o seu lançamento, O Exorcista não apenas redefiniu os padrões cinematográficos do horror, mas também deixou uma presença duradoura que continua a moldar o gênero, se desdobrando em praticamente todos os filmes que abordam práticas de exorcismo em sua estrutura dramática. O impacto imediato do filme foi refletido em sua bilheteira, tornando-se um dos filmes de terror mais lucrativos da história, além de receber 10 indicações ao Oscar e ganhar duas estatuetas. Esse sucesso comercial e a aclamação crítica indicaram que o terror poderia ser uma forma de arte respeitada, digna de reconhecimento semelhante ao de outros gêneros cinematográficos. Um dos aspectos mais notáveis do filme é a sua capacidade de explorar temas profundos, como a fé, a dúvida e o sacrifício, numa época de tantas incertezas, como os anos 1970. A personagem de Linda Blair, que simboliza a perda da inocência e a luta da juventude contra forças malignas, contrasta com a experiência de sua mãe, uma jovem mulher que precisa lidar com a possessão da filha, acossada pela desesperança, representando a fragilidade da condição humana diante do desconhecido, um elemento que tocou profundamente muitos espectadores e incentivou debates sobre religião e o que significa crer no sobrenatural.
É o cinema saindo do entretenimento e do seu círculo de debates dramáticos e estéticos para promover conexões sociais. Lançado em meio ao turbilhão social e político da década de 1970, O Exorcista atuou como um catalisador para intensos debates religiosos e existenciais. Em um período marcado pelo ceticismo pós-contracultura e pelo declínio da influência institucional, o filme confrontou o público com a possibilidade concreta do mal absoluto, forçando uma discussão sobre a perda da fé em uma era racionalista. A narrativa não apenas explorou o medo do sobrenatural, mas refletiu a angústia de uma sociedade que se via órfã de certezas espirituais, utilizando a crise de fé do Padre Karras como um espelho para a crise de identidade do homem moderno diante do silêncio divino. Ademais, para além do aspecto teológico, a possessão da jovem Regan MacNeil serviu como uma metáfora visceral para a perda da inocência da juventude americana em um país fragmentado por conflitos bélicos, como a Guerra do Vietnã.
A transformação de uma criança doce em uma figura grotesca e violenta ecoava o trauma de uma geração que via seus jovens corrompidos ou destruídos por forças políticas e militares além de seu controle. Nesse cenário de pessimismo e instabilidade, o horror doméstico do filme simbolizava a invasão do caos na segurança do lar, representando a vulnerabilidade de uma nação que, envolvida em guerras externas e divisões internas, assistia impotente à desintegração de seus valores mais tradicionais. Tais reflexões são nossas, enquanto espectadores, de outras pessoas que avaliam no diletantismo ou na posição profissional de crítico de cinema, mas também é oriunda dos livros que “biografam filmes”, publicações fundamentais para a preservação da memória cinematográfica, pois transformam o entretenimento em objeto de estudo acadêmico e histórico através da análise de bastidores. Ao investigar o legado e o impacto de determinadas produções, esses estudos imortalizam o processo criativo e ajudam a sociedade a compreender como o cinema molda e reflete a cultura de sua época.
O Exorcista: Segredos e Devoção (The Fear of God: The Making of The Exorcist, EUA/2023)
Autor: Mark Kermode
Tradução: Leandro Durazzo
Editora no Brasil: Darkside Books
Páginas: 320
