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Crítica | O Feiticeiro de Terramar (Ciclo Terramar #1), de Ursula K. Le Guin

Conhece-te a ti mesmo.

por Ritter Fan
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De maneira muito semelhante às obras de Tolkien, o Ciclo Terramar, da autora americana Ursula K. Le Guin, influenciou profundamente a literatura moderna de fantasia ao pegar o modelo estabelecido pelo filólogo e escritor britânico e subvertê-lo, criando, em O Feiticeiro de Terramar, o primeiro capítulo da saga, uma narrativa simples que coloca não um feiticeiro experiente e idoso, de barba branca, diante de ameaças em um mundo mágico, mas sim um ambicioso e jovem aprendiz de feiticeiro tentando encontrar seu caminho no mundo. Le Guin segue a estrutura de jornada e aventura, um dos alicerces do gênero, mas, aqui, a jornada é de autodescoberta e a aventura é tímida, muito mais interior do que exterior, com seu protagonista na maioria das vezes lutando contra si do que contra o mundo ao seu redor, mundo esse formado por uma infinidade de ilhas com populações das mais variadas de pescadores a guerreiros.

No entanto,  acho importante qualificar meu uso do adjetivo “simples” para descrever o romance, pois como tudo que Le Guin escreve, existe uma elegância inegável em suas palavras e uma tendência às narrativas mais objetivas, sem firulas, sem muitos detalhes e O Feiticeiro de Terramar não é diferente. Mas essa aparente falta de detalhamento não exatamente resulta em uma obra simples, pois há muito o que apreciar na forma como ela muito naturalmente dá vida a esse seu universo de fantasia e como ela desenvolve seu protagonista Ged desde sua infância quando, maravilhado pelo uso de magia por sua tia materna, tenta aprender a técnica com ela, levando a um resultado inesperado quando ele tem 12 anos e já assumindo o nome Gavião, o que o leva em um caminho inexorável de estudo em uma escola de feiticeiros (sim, Harry Potter não existira sem Le Guin) e, dali, para sua jornada pessoal pelo enorme arquipélago para enfrentar uma misteriosa sombra maligna.

Bebendo muito do folclore e da cultura de diversas culturas antigas da Terra sobre o poder dos nomes, a chave da magia nesse mundo de fantasia que Le Guin cria é conhecer o nome verdadeiro das coisas e das pessoas, algo que permite que se exerça o controle sobre elas e explica o porquê da adoção, por Ged, do apelido Gavião, prática comum de se manter o nome real em segredo. Não tenho certeza de Le Guin foi a pioneira desse uso do poder do nome na literatura fantástica, mas ela foi responsável pela popularização desse artifício que, nas décadas seguintes e até os dias de hoje servem de base a muitas obras do gênero, com a conexão desse poder, desse conhecimento com o cerne de O Feiticeiro de Terramar, que é a compreensão sobre si mesmo. Portanto, o uso de magia mesmo, aquela que alguns autores mais recentes, ajudados por Hollywood, tornaram sinônimo de raios coloridos saindo de cajados, inexiste no romance, muito na linha do que o próprio Tolkien sempre procurou fazer em seus livros, com Le Guin criando uma narrativa introspectiva, fundamentalmente focada em Ged/Gavião e sua lenta realização do que ou quem ele realmente busca.

O olhar para um feiticeiro jovem, ainda longe de ter o domínio sobre suas habilidades, mas claramente mostrando potencial de ser aquilo que logo no começo do romance Le Guin diz que ele é – o mais poderoso de Terramar – não é a única grande novidade da autora na abordagem desse arquétipo de personagem na literatura fantástica e nem a popularização dos nomes verdadeiros como instrumento central de magia eficaz. A autora cria um mundo plural e vasto, com personagens de etnias variadas e, mais do que isso, faz de seu Ged um jovem de pele escura, mais exatamente marrom-avermelhada como ela descreve, exatamente como na capa da primeira edição americana que escolhi para ilustrar a presente crítica, e não o jovem branco que povoou uma infinidade de outras capas ao longo das décadas seguintes (além da adaptação pelo Estúdio Ghibli) por razões que sabemos muito bem qual é. Sua escolha é mais um aspecto que subverte a literatura de fantasia da época e, se formos olhar bem, também de hoje em dia, como um instrumento que evidencia com Le Guin era além de seu tempo e como sua visão plural de mundo a tornava quase única em seu meio, com abordagens semelhantes também em seu outro famoso ciclo literário, o Hainish.

O Feiticeiro de Terramar é, portanto, um excelente começo para uma saga fascinante que, como nas melhores fantasias, transporta o leitor sem esforço para um outro mundo que, guardando paralelos com o nosso e abordando a jornada de autoconhecimento como seu tema central, torna fácil a conexão com seu protagonista em formação e isso sem complicar a narrativa, mas também sem banalizá-la. Um romance curto, mas viciante, que tem o poder de cativar até mesmo quem porventura não goste do gênero, tornando-se, talvez, uma das mais convenientes portas de entrada para a literatura de fantasia juntamente com O Hobbit.

O Feiticeiro de Terramar (A Wizard of Earthsea – EUA, 1968)
Autoria: Ursula K. Le Guin
Editora original: Parnassus Press
Data original de publicação: 1º de janeiro de 1968
Editora no Brasil: Editora Morro Branco
Data de publicação no Brasil: 11 de abril de 2022
Tradução: Heci Regina Candiani
Páginas: 208

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