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Crítica | O Garoto Selvagem

Filmando um experimento social.

por Ismael Vilela
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A humanidade, para Truffaut, me parece que não é um dado biológico, mas uma construção social que ressoa com uma magnitude invariavelmente superior à soma de seus instintos primários. Nesta dialética entre o estado de natureza e o imperativo da civilização, o diretor alicerça uma obra que, paradoxalmente, encontra sua grandiosidade ao aceitar a crueza de suas peças individuais para construir um mosaico de experimentação e sociologia. Ao transpor para a tela o relato histórico, haja vista que o filme se baseia na história real de um garoto encontrado na floresta, completamente aquém da civilização, de Victor de Aveyron, Truffaut não apenas documenta um caso científico, mas assume o risco de uma narrativa que opera em um registro de sensibilidade no qual a contemplação (praticamente de um experimento social) não é um adereço, mas uma ferramenta estética de imersão e até mesmo crítica.

A linguagem cinematográfica adotada pelo diretor revela-se como um exercício de decupagem extremamente maduro. Observamos movimentos de câmera muito bem-postos, que evitam o espetáculo fácil para privilegiar a observação quase clínica – mais uma referência ao que chamo de “filmagem de um experimento ”social”. Ora, existe uma clara intenção de documentar o menino selvagem, muito mais do que plenamente assistir aos fatos ocorrendo sob uma lente passiva. A câmera de Truffaut, operada sob a égide de uma sobriedade clássica, confere à fotografia uma segurança visual que dialoga com o rigor científico da época retratada e do que o próprio filme pede enquanto foma. É essa escolha, longe de ser uma limitação, que serve como alicerce para que a poesia do “encontro com o outro” (um menino completamente desconectado das relações sociais) se manifeste. A fotografia não busca o extraordinário pelo choque, mas pela constância de uma beleza melancólica que envolve o espectador no desencontro fundamental entre Victor e a sociedade francesa de 1798.

Jean-Pierre Cargol, no papel de Victor, empresta ao personagem uma animalidade que, se por vezes tende ao exagero, o que é uma decisão de direção que espelha a própria natureza da condição de Victor. Ao seu lado, o próprio cineasta François Truffaut assume o papel do Dr. Jean Marc Gaspard Itard, personificando a paciência e o rigor da tutela científica, numa encarnação direta de um certo racionalismo cartesiano mesmo. A dinâmica entre ambos revela que o estudo e a consideração do que é humano dependem intrinsecamente da classe, do lugar e do jeito em que o indivíduo se encontra. O filme é muito bom ao conciliar diálogo e imagem, em um trabalho realmente muito favorável de trazer à tona a sua crítica central: a humanidade é uma moldura imposta, e não uma essência prévia.

O que se observa na tela é uma fidelidade extrema à atmosfera da descoberta. O filme parece querer comprovar a validade científica da sociologia e da pedagogia, organizando-se em torno de um conceito de “ajuste” social. No entanto, é precisamente nesta tentativa de civilizar o “estranho” que a obra expõe suas feridas. O filme erra, talvez, ao repetir com excessiva frequência a desumanidade do garoto, utilizando uma narração expositiva que, em certos momentos, evita mostrar pelo puro exercício do cinema aquilo que as palavras do Dr. Itard já sentenciaram. Mesmo sob a guarda benevolente do homem, Victor permanece sob um julgamento científico e experimental. Ele é menos um filho e mais um projeto; menos uma criança e mais um dado estatístico. Vejo certa crítica sim do diretor ao adotar essa linguagem, mas um pouco distante de uma forma que considero saudável para se retratá-la. Senti a falta de sutileza nesse aspecto.

Victor, em um dado momento, encontra uma espécie de equilíbrio nas janelas – aquele limite físico que marca a transição entre os interiores fechados da casa do Dr. Itard e o mundo exterior da floresta. Porém ele conquista sua capacidade de ter relações sociais ao custo doloroso de perder sua capacidade de viver em liberdade. Aqui reside a maior sofisticação do filme: a independência da catarse emocional em favor de uma reflexão sobre o que perdemos ao sermos “educados” e “civilizados”.

A narrativa do filme organiza-se, assim, em torno da sociologia como agente de transformação e, simultaneamente, de perda. A obra cinematográfica reafirma que o amor e o cuidado são ferramentas de humanização, mas não ignora o preço cobrado pela norma. É um filme que dialoga diretamente com quem busca entender as raízes do comportamento humano, expandindo seu alcance para qualquer espectador disposto a um exercício de alteridade e quebra de preconceitos. O fio condutor que costura essas vidas díspares é a busca incessante por uma finalidade: qual o fim desse filme?

Em última análise, O Garoto Selvagem funciona porque entende que a beleza da civilização não está na perfeição de suas leis, mas na tentativa – ainda que imperfeita e experimental – de resgatar o outro do abismo da indiferença. François Truffaut assina uma obra que, embora se utilize de certas seguranças estéticas e didáticas, arrisca-se no terreno mais perigoso de todos: o da investigação sobre o que realmente nos torna gente – alô, Bacurau! O produto final é de uma sofisticação humanista ímpar, provando que a imperfeição compartilhada entre mestre e aprendiz é, no fim das contas, a forma mais pura de progresso – ao menos na França do século XVIII.

O Garoto Selvagem (L’Enfant Sauvage, França – 1970)
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Jean Gruault (baseado no relato de Jean Marc Gaspard Itard)
Elenco: Jean-Pierre Cargol, François Truffaut, Françoise Seigner, Jean Dasté, Annie Miller, Claude Miller, Paul Villé, Nathan Miller
Duração: 83 min.

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