Crítica | O Gato do Rabino

estrelas 3

O gato do rabino não tem nome. Sua identidade lhe é negada pela dona, pelo dono e pelo Mestre do dono, mas nem por isso o felino deixa de se apresentar como um bicho cheio de personalidade, de fala espirituosa e sem meandros, tomando as rédeas ou fugindo delas dependendo da situação em que se encontra. Com uma tremenda graça, o gato segura o seu posto de protagonista e só é “menor” quando perde a fala.

Adaptação da graphic novel homônima de Joann Sfar, e tendo ele próprio co-dirigido, escrito e produzido o filme, esperava-se que a animação trouxesse a graça e a qualidade visual de sua fonte, mas infelizmente não é isso que acontece, e por mais que tenhamos uma grande quantidade de cenas engraçadas e de críticas contundentes a uma série de coisas, percebemos que falta algo para segurar a estrutura do filme.

Sfar estreou no cinema em 2010, com o lançamento do longa Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres. Em seu segundo filme, O Gato do Rabino (2011), o cineasta arriscou a sorte em outro gênero e quis repetir no cinema o sucesso de sua graphic novel. O erro imediato foi trazer para o roteiro da obra a mesma quantidade de eventos que temos nos quadrinhos. A falta de uma unidade narrativa é evidente após a chegada do primo Malka dos Leões, que pontua o início de uma série de atos (quase) desconexos. O incômodo maior é que eles são apresentados pelos diretores como parte uma única história quando nem mesmo são trabalhados satisfatoriamente. Funcionaria (talvez) se tivéssemos pequenos atos – devidamente indicados – em que o gato e seu dono aparecessem como protagonistas de aventuras e viagens. Mas em sua composição, o filme nos mostra uma história que nunca se realiza, apenas acumula eventos para os quais não conseguimos perceber uma justificativa global, apenas pontual.

A viagem pela “África negra” a bordo do Citroën 1925, o encontro com Tintim no Congo, a busca do judeu russo ao lado do rabino argelino, do pastor muçulmano e do russo ateu torna a viagem para a Jerusalém mítica da Etiópia muito interessante pelos pontos que discute e problematiza, mas como produto fílmico, esse número de coisas é um complicador a mais no ritmo da história e na soltura dos fios da meada. Ao final, quando Sfar e Deslevaux ainda tentam amarrar as pontas, é tarde demais. Seria preciso pelo menos mais meia hora de filme para que de alguma forma (misteriosa) tudo no filme fizesse sentido. Mas é importante lembrar que o erro está apenas na aglutinação desses pontos a partir do meio do filme. A primeira parte e os acontecimento isolados são muito, muito bons. Uma pena este não ser um “longa feito de curtas”.

Vencedor do César 2012 de Melhor Filme de Animação, O Gato do Rabino tem o mérito de discutir multiculturalismo, religião, etnias, ideologias e comportamento humano. Como animação, há um grande ganho pelo seu conteúdo. Mas a forma como este é trabalhado vai deixando muitos buracos pelo caminho e o resultado fica bastante aquém do que um filme com esses temas centrais poderia ter.

O Gato do Rabino (Le Chat du Rabbin) – França, 2011
Direção: Antoine Delesvaux, Joann Sfar
Roteiro: Joann Sfar, Sandrina Jardel
Elenco (vozes): Mathieu Amalric, Hafsia Herzi, Karina Testa, François Damiens, Mohamed Fellag, Daniel Cohen, Eric Elmosnino, Joann Sfar, Maurice Bénichou
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.