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Crítica | O Jogo de Ripley (Ripley #3), de Patricia Highsmith

Macabra tentação.

por Ritter Fan
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Em 1955, com O Talentoso Ripley, Patricia Highsmith apresentou ao mundo Tom Ripley, um dos melhores sociopatas da literatura que foi brindado com ótimas versões no audiovisual. Foram necessários 15 anos para a autora retornar ao personagem, o que ocorreu em 1970 com seu Ripley Subterrâneo, um romance que acabou de desapontando muito por eu ter visto pouco do mesmo Ripley original. Quatro anos depois, porém, em O Jogo de Ripley, objeto da presente crítica, seu inesquecível personagem retornou com toda a pompa e circunstância em uma trama que, apesar de depender de muitas peças móveis, algo comum na chamada Ripliad, tem todo o charme doentio que simplesmente precisa cercar Tom Ripley.

A maior surpresa que tive com a leitura do terceiro dos cinco romances com Ripley é que ele não continua o segundo que, como mencionei em meus comentários por lá, acaba com um final substancialmente aberto. Fiquei ao mesmo tempo incrédulo e feliz, pois eu sinceramente não queria conexões com a decepção que foi Ripley Subterrâneo. É bem verdade que Highsmith não se esquece do que ocorreu em sua história anterior e a menciona algumas vezes, dando a entender que tudo acabou bem para Ripley, como sempre, mas ela segue adiante, sem remoer o assunto por muito tempo e logo engatando na macabra história que deseja contar: Ripley, ainda morando em Belle Ombre com sua esposa Héloïse, recebe uma proposta de seu colega Reeves Minot de matar dois membros de uma família da Máfia que estariam atrapalhando seus negócios, proposta que ele prontamente recusa. No entanto, não demora e Ripley tem uma ideia sinistra, que é sugerir a Reeves que entre em contato com Jonathan Trevanny, um modesto moldureiro britânico diagnosticado com leucemia que mora em Paris e que é seu desafeto desde um mal entendido em uma festa há pouco tempo, para oferecer o trabalho.

O que Highsmith, por intermédio de Ripley, propõe é um experimento social, uma espécie de tentação macabra posta diante de uma pessoa que não tem mais nada a perder e que deseja deixar algum dinheiro para sua esposa e filho. Será que tentar a “sorte” com o assassinato de gente ruim é tão condenável assim? Não haveria algo positivo a ser extraído dessas mortes, se elas forem levadas à cabo? O que interessa, aqui, é que Trevanny não é ninguém em especial, apenas realmente um homem comum sem nenhum tipo de passado criminoso, mas que também, por mais que ele nutra uma esperança de vencer sua doença, sem nenhum tipo de futuro que não seja morrer em breve quase que completamente destituído. O maquiavelismo de Ripley é doentio, especialmente porque ele faz tudo isso sem aparecer, usando Reeves como seu mensageiro, por assim dizer, mas sempre manobrando nas sombras – por meio de fofocas indiretas sobre Travenny – que aproxima o moldureiro da proposta em tese absurda.

Apesar de Highsmith construir um romance tenso, com bons momentos de ação e que, claro, acaba levando Ripley a envolver-se pessoalmente com o assunto – ele não conseguiria resistir à tentação, obviamente – os meandros de como tudo ocorre são apenas desculpas, por vezes completamente esfarrapadas, vale dizer, para que a autora entregue um estudo sobre a corrupção da mente e da alma humanas, com Ripley sendo o constante diabo no ombro de sua vítima, sempre pronto a sussurrar ideias e incentivos. Para fazer isso, O Jogo de Ripley tem um ponto de vista duplo, o de Ripley, claro, mas também o de Travenny, que se torna coprotagonista da história, com Highsmith pulando de uma mente para a outra, uma sempre certa de si e maquinando constantemente e outra hesitante, desesperada, cada vez mais sem alternativa. O jogo psicológico entre Ripley e Travenny é fascinante e suas vozes são completamente distintas, até mesmo diametralmente opostas mesmo quando trabalham com um mesmo objetivo nefasto, algo que vemos em Pacto Sinistro, primeiro romance da autora e, de outra maneira, em Sem Saída.

O Jogo de Ripley é um livro cruel, mas, ao mesmo tempo, estranhamente atraente e irresistível que cria um cenário que projeta o leitor para a situação e faz a pergunta que não queremos responder: o que faríamos no lugar de Travenny? É o que Patricia Highsmith faz de melhor, ou seja, nos desafiar em situações estranhas e improváveis que, porém, uma vez postas à nossa frente, exige uma reação, exige um embate mental de nossos dois lados, o que nós gostamos de mostrar ao mundo e o que nós fazemos de tudo para esconder de todos, inclusive de nós mesmos. Não diria que há um Tom Ripley em cada um de nós, mas talvez exista sim um Jonathan Trevanny pronto para emergir e tomar controle nas circunstâncias certas.

O Jogo de Ripley (Ripley’s Game – EUA, 1974)
Autoria: Patricia Highsmith
Editora original: Heinemann
Data original de publicação: 11 de março de 1974
Editora no Brasil: Editora Intrínseca
Data de publicação no Brasil: 07 de março de 2025
Tradução: José Francisco Botelho
Páginas: 336

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