Se Comando para Matar fosse um filme de piratas com uma mulher como a protagonista durona e invencível e uma leve pitada de Os Goonies, o resultado muito provavelmente seria O Refúgio, a mais nova produção dos Irmãos Russo estrelada por Priyanka Chopra Jonas, provavelmente como parte do pacote milionário deles com o Prime Video que começou com a ambiciosa tentativa de criação da franquia Citadel (ou Spyverse, como queiram). E faço essas correlações como um elogio, pois se o espectador estiver imbuído do espírito da “pancadaria descerebrada e sanguinolenta do começo ao fim” com uma heroína e um vilão vividos por atores que encarnam bem esse tipo de papeis rangedores de dentes, então o longa dirigido e corroterizado pelo inexperiente e inexpressivo Frank E. Flowers é o X que marca o lugar do tesouro.
Karl Urban é o Capitão Francisco Connor, um violento pirata obcecado em recuperar o ouro que lhe foi roubado há anos por sua companheira e também pirata Ercell “Bloody Mary” Bodden (Chopra Jonas) que largou sua vida pregressa para trás e, agora, vive uma idílica vida de casada com um filho com problemas de locomoção e uma nora na paradisíaca Cayman Brac, uma ilha caribenha. Claro que sua paz não demora a desaparecer em um furacão de espadas, tiros e sangue com a chegada de Connor e sua tripulação por lá, o que leva a retaliações à altura pela dona de casa, mãe e esposa amorosa que, porém, nunca deixou de ser a capitã que um dia foi. Com disso, Urban e Jonas são perfeitos para o papel, com química e carisma de sobra que funcionam para criar aquela conexão antitética imediata entre arqui-inimigos que um filme desse exige, já que roteiro e a direção de elenco não são lá os fortes aqui, evidentemente.
E, apesar do uso de CGI excessivamente sanitizado para as imagens em plano geral da ilha em 1846, época de decadência da “cultura pirata”, fiquei surpreso pelo bom uso de cenários práticos que até dão para o gasto, com especial destaque para o esconderijo turbinado de Bloody Mary e os figurinos tanto do pessoal do vilarejo quanto dos piratas, com direito até mesmo a um sortimento de armamentos “modernosos” que divertem só por estarem lá. É, para todos os efeitos, uma produção típica dos tempos atuais, ou seja, que não tenta esconder suas limitações técnicas e orçamentárias, muitas vezes lembrando os telefilmes de outrora, mas que compensa esses problemas com sua tendência de simplesmente não parar com a pancadaria e em lidar com a protagonista do jeito oitentista de ser, ou seja, tornando-a uma máquina de matar que, por mais que se fira, tudo não passa de um leve incômodo que a faz sofrer por alguns segundos e, depois, esquecer que algo aconteceu.
A direção, no começo, tenta chamar atenção demais para si mesma, com Flowers tentando movimentar a câmera mais do que ele deveria ou sabe fazer, mas não demora e ou ele se tocou disso ou disseram para ele parar de brincar, com a fotografia então firmando-se, ainda que por vezes demais as sequências noturnas sejam escuras demais, provavelmente para esconder um pouco os cenários de isopor (e os crocodilos turbinados). Mas é aquilo que eu disse: o filme não tem vergonha de ser o que é e não pede ao espectador que o leve a sério, bastando apreciar os gritos de dor e angústia de Bloody Mary de um lado e de raiva e insanidade de Connor do outro, com direito à presença de Temuera Morrison como Lee, o contramestre de Connor. Um toque particularmente bacana foi o uso de maori, da polinésia oriental, e chichewa, língua bantu de parte do continente africano, para alguns personagens, algo que é inesperado em um filme básico desses e que ajuda na autenticidade da narrativa.
Com coreografias de luta boas, alta litragem de sangue, um nível até razoável de crueldade considerando o contexto e uma generosa quantidade de armadilhas que bem evocam diversas “modalidades” de filmes de pirata, dos mais inocentes aos mais pesados, O Refúgio entrega diversão honesta em um subgênero cinematográfico infelizmente raro de se ver explorado nos dias de hoje. Não é obviamente nada especial ou memorável, mas Priyanka Chopra Jonas e Karl Urban seguram o filme com facilidade nas pontas de suas espadas e entregam uma legítima aventura violenta para streaming em que o que realmente importa é a contagem de corpos.
O Refúgio (The Bluff – EUA/Índia, 25 de fevereiro de 2026)
Direção: Frank E. Flowers
Roteiro: Joe Ballarini, Frank E. Flowers
Elenco: Priyanka Chopra Jonas, Karl Urban, Ismael Cruz Córdova, Safia Oakley-Green, Vedanten Naidoo, Temuera Morrison, Zack Morris, David Field , Pacharo Mzembe, Gideon Mzembe, Ronnie James Hughes
Duração: 103 min.
