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Crítica | Oficina do Diabo (2025)

Fé, ideologia e má pregação.

por Iago Iastrov
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A Brasil Paralelo tenta conquistar o público com Oficina do Diabo, seu primeiro longa de ficção, mas o resultado é mais tropeço do que triunfo. Ambientado nos anos 1960, durante a ditadura militar, o filme apresenta um demônio experiente guiando um novato para desviar a alma de um jovem artista. A semelhança com Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, de C.S. Lewis, é tão gritante que parece uma cópia mal disfarçada, apesar das (obviamente desonestas e hipócritas) negativas da produtora. A fotografia é muito caprichada, assim como os figurinos, mas a história se perde em um labirinto de panfletagem didático-catequista condenatória que deixa o espectador mais entediado do que encantado ou atento.

Os personagens são esboços que raramente ganham vida, mesmo com boa parte do elenco tentando entregar algo legal. Pedro, o artista em crise, deveria carregar a narrativa, mas sua jornada é tão frágil que perde para a base doutrinária martelada pelo texto, basicamente a mesma escola vergonhosa de filmes como Deus Não Está Morto e Você Acredita?. A mãe, interpretada pela ótima atriz Elizângela, é um raio de luz, entregando emoção genuína em meio ao maniqueísmo restante. Já os demônios, com seus diálogos supostamente afiados, parecem saídos de um desenho animado, mais cômicos e estereotipados do que manipuladores e inteligentes. O pano de fundo histórico tinha potencial para enriquecer a trama, mas o filme se rebaixa à dualidade “bem absoluto contra mau absoluto”, chutando a complexidade da ideia geral para fora.

A ideologia entranhada é, obviamente, um elefante na sala, impossível de ignorar. Repleto de mensagens rasteiramente políticas que fingem ser divinamente contritas, todas elas exibidas com a sutileza de um megafone neon, o filme se esquece da mensagem de salvação e acaba vendendo pânico moral e direitismo comportamental. A tentativa de abordar questões profundas como fé, livre-arbítrio, construção de identidade e política morre na praia, caindo em um discurso que cansa e não convence. É como um sermão que esqueceu de inspirar à fé, preso em chavões viciados que só levam a regrinhas religiosas obrigatórias e alienação de pensamento.

Este é um álbum de fotos bonito, mas vazio. O desenho de produção é elogiável e há o mérito de uma boa compreensão técnica para toda a película (que no mínimo faz o básico bem feito), mas o roteiro e o foco geral são uma colcha de retalhos doutrinários injustificáveis e que se querem superior ao Evangelho, forçando hábitos e lado político em vez falar de espiritualidade. Talvez Oficina do Diabo mereça um crédito por nos fazer questionar: será que o diabo aceitaria um estagiário e uns propagandistas em audiovisual tão desleixados?

Oficina do Diabo (Brasil, 2025)
Direção: Filipe Valerim
Roteiro: Elton Mesquita, Filipe Valerim
Elenco: Roberto Mallet, Felipe de Barros, Sergio Barreto, Elizângela, Felipe Folgosi, Rafael Senatore, Ari Willians, Jessica Vasconcelos, Carlos Freitas, Paulo Guilarducci, Filipe Valerim, Elton Mesquita, Andrea di Maio, Erika Eremenko
Duração: 124 min.

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