Como mencionei em minha crítica da primeira temporada de Planeta Pré-Histórico, o melhor uso possível da computação gráfica no audiovisual é, para mim, as possibilidades de recriação dos habitantes da Terra na pré-história. Todo o resto é firula. Seis anos depois que o CGI deu vida aos dinossauros na ficção em Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros, a BBC e a Discovery empregaram a tecnologia no ainda sensacional Walking with Dinosaurs para começar a maravilhosa tendência de se fazer documentários de natureza focados nas mais variadas criaturas de milhões (e também milhares) de anos atrás, tendência essa que venceu o tempo e continua firme e forte até hoje, com Os Dinossauros, do Netflix, sendo apenas o mais recente exemplar que aborda o assunto na forma de uma minissérie de infelizmente apenas quatro episódios narrados pelo quase nonagenário Morgan Freeman.
Na verdade, a minissérie é a segunda obra do gênero com produção executiva de Steven Spielberg, ninguém menos do que o responsável pela ressuscitação digital dos dinossauros, por meio da Amblin Documentaries e Silverback Films com o mesmo narrador e distribuída pelo mesmo streamer, com a primeira tendo sido A Vida no Nosso Planeta, de 2023 que, já reclamo logo, teve o dobro de episódios e apenas um mais curto do que os da nova empreitada. Mas, diferente de sua irmã levemente mais velha, a estrutura de Os Dinossauros traz algo de relativamente novo para o jogo, que é contar, cronologicamente, o começo, meio e fim das nem sempre gigantescas criaturas que dominaram o planeta por 160 milhões de anos. Com isso, apesar de a história começar no dia em que o famoso asteroide que deflagrou o fim dos dinossauros e permitiu que os mamíferos prosperassem atingiu a Terra há 66 milhões de anos, no fim do Cretáceo, a narrativa rebobina para 235 milhões de anos no passado, para o Triássico, quando os continentes estavam todos reunidos no que se convencionou chamar de Pangeia. É lá que a paleontologia moderna aponta como sendo o berço dos dinossauros, com o pequeno e emplumado marasuchus (originalmente descoberto na Argentina) sendo o mais antigo antepassado que se conhece, em meio a um planeta dominado por répteis gigantes.
Cada episódio aborda milhões de anos, divididos, grosso modo, por seus explicativos títulos – Ascensão, Conquista, Império e Declínio -, com o fast forward clicado em intervalos regulares para mostrar como as mudanças no planeta e a evolução “conspiraram” para levar os dinossauros ao ponto em que chegaram. Em outras palavras, nada de fazer o que usualmente se faz nesses documentários, em que cada episódio é focado ou em um grupo de animais ou em uma região do planeta. Aqui, há uma história contínua que leva o espectador de um momento importante para o outro na evolução dos dinossauros, sempre procurando alinhar a história dos animais com a da Terra, em um ótimo trabalho de sincronia que reitera aquilo que sabemos, mas volta e meia esquecemos, ou seja, que fazemos parte de uma delicada estrutura em que cada ser vivo depende do outro e em que todos dependem da força da natureza. Dessa maneira, o documentário evita trafegar pelos caminhos mais viajados, deixando de focar apenas nos períodos geológicos mais “sexies” como o Jurássico (o mais famoso, claro) ou o Cretáceo (mais conhecido como o que tem os mais importantes dinossauros que aparecem como sendo do Jurássico nos livros e filmes da franquia).
Não sou muito fã, porém, da quantidade de vezes que o documentário faz uso de jogo de câmera, de sombras, da narração e da construção de suspense para subverter expectativas e apresentar criaturas inesperadas no lugar daquelas que são dadas a entender que aparecerão. É o que acontece, para dar apenas um exemplo, quando, no último episódio, o relativamente pequeno hesperornis (semelhante ao cormorão, ou corvo-marinho, e ao pinguim) aparece depois que todos os elementos narrativos rufam os tambores para a entrada de um “monstro gigantesco”. É simpático da primeira vez, ok da segunda, mas, a partir da terceira, torna-se um artifício de maternal, que trivializa o documentário tentando fazer gracinhas completamente desnecessárias que retiram o foco daquilo que importa, que é a ciência que revela a importância de cada dinossauro apresentado.
E é na ciência que está a maior falha de Os Dinossauros. Apesar de eu ter ficado surpreso com a menção e dramatização do Episódio Pluvial do Carniano e do Evento Anóxico Oceânico do Toarciano, além da abordagem do nanismo insular e do surgimento e importância das flores, o documentário parece focar muito mais no “choque” do que nas explicações bem concatenadas. Apenas jogar informações na linha de que choveu torrencialmente por mais de um milhão de anos ou que saurópodes gigantescos “ficaram” pequenos porque passaram a viver em ilhas é, nos dias de hoje, um convite a que os Influenciadores de Imbecilidades venham dizer com a mesma profundidade que tudo não passa de invenção de cientistas que não têm como provar nada. Eu até entendo que a série parece mirar nos mais jovens, mas isso não é desculpa para subestimá-los. Aliás, é justamente por isso que o foco deveria ser mais na ciência do que nas menções e recriações de eventos cataclísmicos ou representativos da evolução das espécies e da seleção natural. Os mais jovens têm capacidade de entender mais do que o que foi colocado na telinha e é um pecado que determinados assuntos – quase todos, na verdade – tenham sido vistos a toque de caixa, para duvidoso benefício da “geração com déficit de atenção”.
Por outro lado, sendo bem sincero, já é muito que um documentário como esse exista e seja disponibilizado para todos, claro. Antes um pouco de ciência do que nenhuma ciência. Sim, estou me contentando com pouco, mas fica a esperança que documentários dessa espécie acendam a fagulha da curiosidade para levar jovens a pesquisar mais, a olhar a ciência com mais rigor do que apenas como fonte de curiosidades de TikTok. Os Dinossauros pode não realizar todo o potencial que tinha, mas ele sem dúvida contribui para que mais pessoas sejam expostas ao passado remoto para que elas comecem a entender o como e o porquê de estarmos aqui, agora, dominando o planeta como os dinossauros um dia dominaram. E também, claro, para que levem a sério o fato de que não precisa muito para que essa dominação simplesmente acabe. Que venham mais minisséries como essa que, no mínimo dos mínimos, fazem excelente uso da computação gráfica que, de outra forma, é tão mal empregada pela Industria do Entretenimento para criar baboseiras idiotizantes!
Os Dinossauros (The Dinosaurs – EUA, 06 de março de 2026)
Showrunner: Dan Tapster
Direção: Nick Schoolingin-Jordan, Jolyon Sutcliffe, Amber Cherry Eames, Darren Williams
Roteiro: David Fowler
Narração: Morgan Freeman
Duração: 184 min.
