Crítica | Os Infiltrados

A introdução de Os Infiltrados engana. Tudo indica se tratar de mais um filme típico de Martin Scorsese. O antagonista maior dessa história é mantido nas sombras todo o tempo, demonstrando estarmos diante de mais um de seus vilões com traços francamente perversos. A narração é acompanhada por uma decupagem perfeitamente calculada em cortes ágeis, travellings interessantes e desenvoltos e trilha sonora igualmente promissora (Gimme Shelter, clássico dos Rolling Stones, parece querer se tornar para o filme de 2006 o que Sunshine of Your Love foi para Os Bons Companheiros dezesseis anos antes). Scorsese é velho de guerra nesse território específico dos filmes sobre o crime e a máfia. Quem o conhecia já sabia disso, é claro. Mas quem teve seu primeiro contato com o cinema do norte-americano por meio de seu grande sucesso de bilheteria notou rapidamente que se tratava de alguém com cacife. O humor negro e o sarcasmo com que filma seus criminosos está todo lá, trazendo o público para dentro do filme já em seus primeiros minutos. O projeto lhe daria sua única estatueta no ano seguinte.

Mas o que se vê depois disso é um filme bem menos característico da filmografia do cineasta. Ausentam-se a câmera lenta dos tiroteios (como no inesquecível massacre do bar em Casino), os virtuosísticos e algo cínicos planos-sequência que registram as ações dos mafiosos (como na famosíssima cena de Os Bons Companheiros) e, em grande medida, também uma das assinaturas de sua direção – os travelling e zoom in acelerados (presentes em praticamente todos os seus primeiros filmes). Scorsese só esboça algumas ousadias, por exemplo ao inserir um corte de íris logo no começo de Os Infiltrados, técnica nada usual dentro da gramática corrente do diretor estadunidense. Sim, é verdade que Scorsese opta por realizar um filme tecnicamente menos estilizado que o habitual. Mas, se estamos diante de um filme um pouco mais comercial dentro de sua longa produção, não seria correto ignorarmos tantas outras qualidades que o longa-metragem demonstra ao longo de 151 minutos de projeção (que jamais cansam).

A primeira dessas qualidades está nas atuações inspiradíssimas de um elenco de peso. Leonardo DiCaprio vive Billy Costigan, o policial infiltrado na gangue de Frank Costello (Jack Nicholson), enquanto Matt Damon interpreta Colin Sullivan, outro infiltrado, mas este um criminoso de Costellho dentro da polícia. Se o roteiro tem o devido cuidado de equilibrar o caráter de cada um dos protagonistas, o trio de atores, por sua vez, se sai maravilhosamente bem ao compor seus personagens com as exatas proporções de cada elemento. O gângster sardônico de Nicholson é didático ao afirmar que “quando se tem uma arma na cabeça, não há diferença entre policiais e bandidos”. É precisamente isso que se sente durante todo o filme, em que perseguições, assassinatos, torturas, medos e paranoias são elementos que praticamente uniformizam o comportamento dos protagonistas. Não há lado do bem tentando combater o lado do mal, de modo que não é possível fazer torcida por qualquer um deles. Isso será bastante importante para o desfecho da obra, em que Scorsese levará essa ideia ao máximo paroxismo.

Os méritos narrativos de Os Infiltrados são inquestionáveis. Se o filme é um exercício de estilo bem mais tímido de Scorsese, ao menos ele consegue sustentar a tensão do começo ao fim. O roteiro amarra muito bem todas as pontas e jamais deixa o ritmo da história esmorecer. São constantes os novos acontecimentos e naturais as reviravoltas na caçada mútua entre os dois infiltrados. Em nenhum momento, o roteirista demonstra a necessidade de andar em círculos em um filme tão potente do ponto de vista narrativo, que flui num só fôlego. A direção de Scorsese, embora mais bem comportada que o normal, nunca escolhe planos gratuitos ou vazios, ainda que algumas escolhas não sejam tão inventivas e surpreendentes quanto o diretor intencionava. O slow motion que registra a queda do policial Queenan, com corte seco para um plano frontal em Costigan, tenta transmitir ao público a surpresa do segundo com o assassinato do primeiro. O efeito impactante que a câmera lenta anuncia não é alcançado completamente.

Agrada-me muito mais a opção que Scorsese fará na conclusão da obra, quando um tiro verdadeiramente inesperado se mostra capaz de fazer o público saltar na cadeira. Construído também em plano frontal, não há qualquer preparação para o momento do disparo (muito menos com uso da câmera lenta, que promove uma inflexão narrativa excessiva quando se intenciona causar espanto logo depois). É interessantíssimo como esse famigerado tiro detona uma cascata de assassinatos que subverte completamente o próprio gênero policial, em que a história ruma habitualmente para algum lugar – quer seja com a vitória dos mocinhos, quer seja com a dos criminosos. Os Infiltrados termina com uma chacina generalizada, totalmente fortuita, triturando a expectativa do público de assistir a um final redondo e cômodo. Além de causar o efeito surpresa, a ausência de antecipação em cada um dos disparos é eficiente para conduzir o desfecho como uma tragédia sem glórias nem heróis. Apenas violenta, cruel e selvagem.

O longa-metragem oscarizado de Scorsese pode não ser o melhor filme de sua carreira. Nem mesmo entre seus filmes sobre mafiosos. Mas me parece bastante injusto o olhar blasé que muitos dispensam a ele, tratando-o apenas como um filme comercial do gênio norte-americano. Além de todas as suas qualidades, esse é um título que funciona muito bem como porta de entrada para um dos universos cinematográficos mais ricos da atualidade – a filmografia de Martin Scorsese, que segue em plena atividade. E só esse motivo já seria suficiente para que O Infiltrados merecesse um valor de destaque dentro da vasta produção do estadunidense.

Os Infiltrados (The Departed) – EUA, 2006
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: William Monahan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Alec Baldwin, Mark Wahlberg, Vera Farmiga, Martin Sheen, Ray Winstone
Duração: 151 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.