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Crítica | Os Jetsons – 1X01: Rosey the Robot

por Kevin Rick
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Os Jetsons
Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.

Número de Temporadas: 3
Número de episódios: 75
Período de exibição: 23 de setembro de 1962 até 12 de novembro de 1987
Há reboot?: Não, mas há um filme de 1990, além de um telefilme crossover com Os Flintstones, de 1987.

William Hanna e Joseph Barbera não brincavam em serviço, e durante suas longas carreiras, criaram clássicos de animação televisiva aos montes. Só para citar alguns: Os FlintstonesTom e JerryZé Colmeia, entre outros (aposto que você conhece alguns deles). E, ironicamente, uma de suas mais célebres criações, Os Jetsons, foi um fracasso de audiência, durando apenas uma temporada, e só após décadas de transmissões repetidas que a animação foi alcançando seu atual status, rendendo mais uma dupla de temporadas nos anos 80, tornando-se um marco no gênero de sitcoms clássicas em forma de animação. Seu insucesso preambular pode ser devido ao velho argumento de “séries lançadas antes de seu tempo”, e mesmo que essa talvez não seja a causa principal para o cancelamento precoce, é o tipo de pretexto perfeito para a narrativa futurista do show.

A trama do piloto, Rosey the Robot, rapidamente estabelece a ambientação imaginativa do futuro e da era espacial da Humanidade, nos apresentando a família Jetson, composta pelo patriarca George Jetson, sua esposa Jane Jetson, e os dois filhos do casal, Judy Jetson e Elroy Jetson. Logo na abertura da série, é perceptível como, a despeito da esfera tecnológica localizada no progresso temporal, a animação é baseada em retratos, numa tentativa de exibir um futuro idealizado, mas utilizando seu próprio período como espelho, no qual os anos 60 eram uma sociedade ainda mais fundamentada no machismo, claramente exibida pela primeira cena entre os progenitores, no qual George vai trabalhar e sua mulher “rouba” sua carteira para ir às compras.

Ora, quer dizer que a série propõe um discurso machista e preconceituoso? Acredito que essa não é abordagem que levaria ao roteiro de Hanna e Barbera, apesar de notar constantes problemas da justaposição da figura feminina como cozinheira, arrumadeira e consumista, contudo, essa visão desagradável do papel feminino, infelizmente, era a realidade do período, ou pelo menos é como o valor feminino era visto na sociedade. Logo, a série acaba traindo seu objetivo de ser progressista, mas torna-se um ótimo paralelo entre a época de seu lançamento e a idealização do futuro na concepção imaginativa dos criadores. A dinâmica familiar americana dos anos 60 contextualizada com a criatividade da posterioridade da dupla de criadores.

E é interessante notar como a série termina por tocar em temáticas extremamente atuais, como a necessidade humana por tecnologia, tornando-nos mais conformados, impacientes, preguiçosos e carentes por novos métodos de facilitação da rotina diária. Aliás, toda a narrativa em torno de Rosie, a criada robô, é a demonstração da nossa própria perda de autonomia em tarefas ordinárias, pois, a tecnologia é um meio maravilhoso no ímpeto de auxiliar o cotidiano humano, mas a partir do momento que a sociedade cria uma dependência, não apenas braçal, mas também psicológica às inovações científicas, começamos a ver essa falta de discernimento próprio e vício tecnológico, cada vez mais resignados ao virtual. Tudo isso pode parecer um exagero para a trama do piloto, aparentemente simplório, porém, se ir percebendo as entrelinhas da comicidade e o pano de fundo das cenas, lentamente é possível fisgar esse objetivo narrativo de expor o futuro como um período de subordinação, compulsão e vício humano em relação a tecnologia.

Não sei dizer se esta contraposição de gerações era a finalidade da série, e dos criadores lendários, apresentando a perspectiva, um tanto pessimista dentro do teor animado, deles do futuro, colocando as conjunturas societárias do seu tempo nessa exposição imaginativa, só que, independente de ser proposital ou não, Os Jetsons acaba sendo um ótimo retrato da época somado a visão do futuro. A questão é que, além disso, o piloto não é muito efetivo em proporcionar divertimento. Humor é subjetivo, contudo, acredito que há uma falta de qualidade e trabalhos das piadas neste primeiro episódio, sagacidade essa, de misturar o humor infantil com um olhar maduro, visto em outras obras, além de uma ausência de carisma do personagens, pelo menos no piloto,  algo tão incomum na ótima caracterização de outros personagens da dupla genial.

Por fim, apesar de não ser exatamente atemporal, ou mesmo progressista para a época, Os Jetsons servem uma interessante narrativa espelhada de divergentes períodos sociais, sustentadas pela fenomenal imaginação de Hanna e Barbera, com vários utensílios, objetos, móveis, tecnologias e arquitetura futurista extremamente inventivas, e até mesmo proféticas, para o período do seu lançamento. A série falha justamente com seus personagens, pelo menos no seu primeiro capítulo, que sofrem por serem um reflexo da dinâmica machista da época, e por uma falta de trabalho humorístico infantil divertido mesmo. Um bom começo, mas bem aquém de outros trabalhos dos criadores.

Os Jetsons (The Jetsons) – 1X01: Rosey the Robot – EUA, 23 de setembro de 1962
Criação: William Hanna, Joseph Barbera 
Direção: William Hanna, Joseph Barbera 
Roteiro: William Hanna, Joseph Barbera, Larry Markes, Tony Benedict
Elenco: George O’Hanlon, Penny Singleton, Janet Waldo, Daws Butler, Mel Blanc, Jean Vander Pyl
Duração: 30 min.

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