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Crítica | Os Leões de Bagdá

por Luiz Santiago
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Em abril de 2003, quatro leões escaparam do zoológico de Bagdá, durante o bombardeio ao Iraque. Os animais, famintos, foram alvejados e mortos pelos soldados do Exército dos Estados Unidos.

Houve outras fatalidades também.

Brian K. Vaughan

Coalizão, aliança política firmada entre George W. Bush (EUA), Tony Blair (UK), Silvio Berlusconi (ITA), José María Aznar (ESP) e Durão Barroso (POR) foi responsável por dar o assentimento aos Estados Unidos para invadir o Iraque em março de 2003, mesmo sem o consentimento da ONU. Com a justificativa inicial de que o Iraque desenvolvia armas nucleares e que era de extrema importância para o Tio Sam apreender essas armas, especialmente após os atentados terroristas ao WTC em setembro de 2001, a “América” e sua patota neurótica foi responsável por um grande número de mortes de civis, além, é claro, de militares.

Nenhuma arma nuclear foi encontrada.

Durante o caos que se estabeleceu em Bagdá nesse momento de colapso do governo Saddam Hussein, um evento curioso se deu. O bombardeio americano à capital iraquiana atingiu o Zoológico da cidade e, além do saldo de animais mortos e roubados, alguns fugiram e perambularam pelas ruas durante dias em busca de comida. Dentre esses animais, 4 leões receberam atenção especial da mídia porque foram mortos por soldados americanos durante uma patrulha pela cidade. Os soldados informaram a imprensa que foram ameaçados pelos animais e obrigados a atirar.

O caso inspirou o premiado roteirista Brian K. Vaughan (Y: The Last Man e Ex-Machina) a escrever a belíssima graphic novel Os Leões de Bagdá (2006), que aborda os acontecimentos narrados acima a partir do ponto de vista dos leões, mas nada parecido com o padrão Disney de felinos falantes. O foco político que pontua a obra e a relação dos animais com os humanos têm um impacto mais poderoso sobre o leitor do que se poderia imaginar e não tenho dúvidas de que até hoje, Os Leões de Bagdá é a melhor história em quadrinhos já escrita sobre esse evento histórico no Iraque.

Animais antropomorfizados não é uma novidade em HQs. De Tio Patinhas a Maus, nossa relação com essa classe de bichos falantes tem sido de identificação e as histórias que eles protagonizam podem até lembrar uma fábula, mas estão distantes desse gênero porque sua mensagem final é mais uma interrogação, um assentimento de tristeza ou uma contemplação do real no lugar de uma exposição moralista pronta e fechada sobre o mundo. Em Os Leões de Bagdá não temos apenas a visão de uma guerra pelos olhos “inocentes” de quatro felinos, mas uma transferência dos desejos, posturas e existência humanas para esses animais, que atravessam famintos o inferno em chamas da cidade e ao final de tudo, são mortos porque representavam uma ameaça para um soldado fortemente armado. Não é preciso ser um gênio para fazer as relações humanas equivalentes e perceber o conteúdo político que transborda da HQ.

Por outro lado, o autor não se deixa levar por divagações alucinantes do comportamento animal. Os leões falam porque esta era a única escolha viável e interessante para uma história com 140 páginas, mas as limitações e instintos típicos dos leões permanecem intactas e o mesmo se dá com cada espécie de animal que aparece na saga: a pilantragem dos macacos, a passividade dos antílopes, a agressividade dos ursos.

A escolha por antropomorfizar esses animais veio apenas como elemento formal do enredo, mas as características biológicas típicas de cada espécie permaneceram. Com isso, além da questão política que podemos depreender de forma simbólica na trama, temos a questão natural e/ou ambiental que nos salta aos olhos, especialmente nas páginas em que a anciã Safa e o filhote Ali se encontram com uma tartaruga às margens do Rio Tigre e o réptil amargurado recorda-se da “Primeira Guerra”, quando o veneno negro que sai da terra matou toda a sua família (alusão dolorosa e muito pertinente à Guerra do Golfo).

Com a arte de Niko Henrichon toda essa história se torna ainda mais incrível. O artista apostou numa paleta de cores quentes, às vezes saturadas, transmitindo-nos perfeitamente a sensação de destruição, calor, fogo e explosões constantes que o roteiro aponta. A diagramação é simples, com poucos quadros por página, mas isso não é demérito algum para a obra e tem o propósito de nos fazer prestar mais atenção aos muitos detalhes. O traço leve e de finalização que obedece uma intensidade e nuances diferentes a cada momento da saga é um outro atrativo. As panorâmicas sobre as paisagens e os closes em cada um dos leões nos apresentam uma relação de dominador e dominado, de “civilizado” e “selvagem”, de grande e pequeno, conceitos que visualmente dão conta das críticas realizadas pelo roteiro. Niko Henrichon realiza um trabalho deslumbrante que encanta o leitor já nos primeiros quadros.

Os Leões da Bagdá é um conto de sobrevivência, uma jornada pelo horror da guerra, uma discussão que põe na mesa o preço da liberdade e questiona o que é ser civilizado. Uma graphic novel imperdível.

Os Leões de Bagdá (Pride of Baghdad) — EUA, setembro de 2006
No Brasil: Panini, 2008
Roteiro: Brian K. Vaughan
Arte: Niko Henrichon
Letras: Todd Klein
140 páginas

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3 comentários

Jordison Francisco 8 de setembro de 2020 - 15:12

Em 2003, durante a invasão do Iraque, as tropas fedayeen Saddam* assumiram posições defensivas em torno do Zoológico de Bagdá quando as forças americanas iniciaram a Batalha de Bagdá. Os zookeepers** abandonaram a instalação e, no oitavo dia da invasão, apenas 35 dos animais originais de 700 e com poucos anos permaneceram. Alguns ainda estavam enjaulados e famintos, outros tinham sido libertados por bombas e estavam vagando pelas ruas das cidades abandonadas. Quando não seriam arrastados de volta para suas jaulas, quatro leões foram baleados por soldados americanos.

Três anos depois, PRIDE OF BAGDÁ de Brian K. Vaughn e Niko Henrichon’s foi lançado, uma história fictícia da libertação e subsequente morte desses quatro leões.

Pride Of Bagdá é um romance, ou melhor explicado, uma fábula sobre os horrores da guerra e/ou a natureza da liberdade e do cativeiro.

A alegoria é bastante aberta; insinua o colapso da cultura iraquiana depois de ser “libertado” do Partido Baath de Hussein. Também engloba a guerra é ruim e a guerra destrói mais do que apenas o lado inimigo. Ela delibera sobre a natureza da liberdade e, até certo ponto, a responsabilidade da humanidade com os inocentes pegos no fogo cruzado.

Já disseram que você vai gostar?

* Os Fedayeen Saddam foram uma força paramilitar leal ao governo baathista de Saddam Hussein do Iraque. O nome significa “Homens de Sacrifício de Saddam”.

** Um zookeeper, às vezes referido como guardião dos animais, é uma pessoa que gerencia animais do zoológico que são mantidos em cativeiro para conservação ou para serem exibidos ao público. Geralmente são responsáveis pela alimentação e cuidados diários dos animais. Como parte de sua rotina, os zookeepers podem limpar as exposições e relatar problemas de saúde. Eles também podem estar envolvidos em pesquisa científica ou educação pública, como a realização de passeios e a resposta a perguntas.

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Anônimo 30 de setembro de 2018 - 10:12
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Luiz Santiago 30 de setembro de 2018 - 10:27

Essa história é sensacional demais! Providencie! Super vale a pena!

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