Crítica | Os Nove Trilhões de Nomes de Deus, de Arthur C. Clarke

os-nove-trilhoes-de-nomes-de-deus-plano-critico-arthur-c-clarke

estrelas 4,5

O título em português deste instigante conto de Arthur C. Clarke, Os Nove Trilhões de Nomes de Deus, publicado pela primeira vez em 1953, pode causar confusão ou acusação de “falsa tradução”, e é natural que isso ocorra, porque pensar sobre isso dá nó na cabeça. Segue o contexto. Até meados da década de 1970, o sistema de nomeação para bilhões e trilhões no Reino Unido não era como conhecemos hoje, ou seja, alinhado à nomenclatura americana. Nas terras britânicas, eles utilizavam a escala longa, enquanto os americanos utilizavam a escala curta.

Fazendo uma relação entre essas vertentes, vamos pegar as nomenclaturas que normalmente se aplicam ao título deste conto (bilhões e trilhões) e entender o por quê a tradução brasileira para “trilhões de nomes de Deus” está correta, apesar do título original dizer “billion names of God“. Considerando o uso da escala americana e fazendo relações com a escala usada na terra de Clarke, à época, 1 bilhão = “mil milhões” (thousand millions) ou 1.000.000.000 ou dez à nona potência, algo que alguns britânicos costumavam chamar de milliard. Já 1 trilhão (1.000.000.000.000 ou dez à décima segunda potência), na escala longa, é chamado de bilião (billion), o equivalente ridículo a “milhão de milhões” (million millions), denominação utilizada por Clarke no título original do conto: The Nine Billion Names of God. Então, apesar de dizer “billion” no título, vocês agora sabem por que a tradução para “trilhões” está correta.

SPOILERS!

A história nos fala de um monge que vai até os Estados Unidos encomendar um computador com uma modificação especial. O monge pretende encurtar para 100 dias uma tarefa (alinhada a uma profecia) que demoraria mais 15 mil anos para se cumprir, se o ritmo de cálculo continuasse o mesmo. Os lamas vinham realizando essa tarefa havia três séculos e mantinham a fé de que as gerações futuras dariam continuidade à ordem de calcular todos os nomes possíveis de Deus e, quando o último nome fosse encontrado, o mundo chegaria ao fim.

Em um primeiro momento, estamos diante de uma conversa atípica de ciência versus religião. Ambos os personagens, o monge e o Dr. Wagner, respeitam os princípios um do outro, fazem uso do que um tem para dar ao outro (dinheiro e possibilidade de tornar mais rápida uma tarefa), mas jamais se compreendem. O monge não está interessado no computador pelas maravilhas que ele pode fazer, apenas no cálculo dos nomes de Deus e a chegada do fim do mundo. Sua visão, nesse ponto, é bastante egoísta. Ele quebra uma tradição de prostração, respeito, fé e entrega de gerações de monges do passado e do futuro, por uma vontade imensa de ver cumprida uma profecia.

A forma como o autor expõe o monge mistura curiosidade humana e ao mesmo tempo, uma extrapolação do poder do homem em assuntos que ele não deveria interferir ou reinterpretar. É como se o autor fosse buscar um sentido cósmico para a vida, suas relações com a cultura e a tecnologia e acabasse esbarrando em problemas religiosos de peso, onde alguém decide que a forma de encarar as coisas deve ser mudada por um elemento que, sabe-se desde o início, trará destruição. Ao buscar completar a tarefa e ter todos os nomes em um tempo curtíssimo, o monge tira de milhões de outras pessoas a possibilidade de dedicação e encontro com a fé. Na ânsia de querer que a profecia se cumprisse logo, ele acaba destruindo o caminho “natural” que levaria até o cumprimento no tempo certo.

Ou estaria ele duvidando da profecia?

O que torna o conto instigante e muito amplo em interpretações, é o toque do autor no elemento de fé, utilizando de um componente tecnológico básico, pelo menos para nós do século XXI e relacionando-o com um elemento tradicional; eis aí o secularismo e as palavras originais das religiões, que conseguem, por exemplo, transformar mensagens de amor e aceitação em caminhos de segregação e condenação definitiva das pessoas. Infelizmente — e este é o único ponto negativo do conto –, não há espaço para que os personagens sejam melhor construídos e tenham suas vontades e impulsos revelados. O conto é demasiadamente curto e o autor prefere traçar o contorno de toda a história e entregá-la para ser pensada em vez de investir em maiores detalhes internos. Por um lado, isso é louvável. Por outro, nos deixa querendo mais da história e dos personagens.

O cumprimento da profecia — ou seja lá o que aconteceu depois de apagarem-se as estrelas — tem dois lados. O primeiro, o diálogo sério com os céticos, os demasiadamente orgulhosos para aceitar sequer a possibilidade de um elemento escatológico/religioso/místico/mitológico/espiritual, ser real. Por outro, o desrespeito dos próprios crentes (ou de seu líder) para com a profecia, criando uma forma de rever a ideia original e conseguir (para o próprio ego ou para reforço da própria fé, talvez perdida) chegar ao fim antes da hora. É impossível não imaginar elementos de fanatismo religioso quando passamos a analisar o conto. Ou de desrespeito a postulados religiosos para apressar ações e gerar consequências chocantes, como vemos nas interpretações odiosas do Corão e da Bíblia pelos próprios fiéis hoje em dia.

Arthur C. Clarke produziu uma das coisas mais bonitas e interessante sobre Deus ou qualquer outro ser divino que se possa imaginar. Sem estabelecer regras e com convite à reflexão, Os Nove Trilhões de Nomes de Deus fez muito mais pelas religiões (no sentido de convidar os leitores a pensar abertamente sobre a possibilidade de Deus) do que a maioria de seus representantes contemporâneos. Se juntarmos este conto e a HQ Parábola, o leitor terá tema para durante um ano inteiro sobre religião, fé, fanatismo, interpretações de textos sagrados, ações tortuosas em nome de um Deus e por aí vai…

Os Nove Trilhões de Nomes de Deus (The Nine Billion Names of God) –Reino Unido, 1953
Autor: Arthur C. Clarke
No Brasil: Parte do livro O Outro Lado do Céu (Nova Fronteira, 1984)
Tradução: Jorge Luiz Calife

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.