No ano seguinte à sua estreia nos quadrinhos com Tomado pelos Demônios, história curta de oito páginas inserida na compilação temática Time Warp, da Vertigo Comics, Tom King foi alçado a roteirista de Grayson, publicação mensal que repaginou Dick Grayson como espião e que ele ficou à frente de 2014 a 2016. Foi durante esse seu bem-sucedido run que o então inexperiente roteirista começou a simultaneamente trabalhar em Os Ômega Men que já na largada estabeleceu suas marcas no universo de quadrinhos: prolixas abordagens próprias de personagens menos conhecidos no formato de séries fechadas, normalmente de 12 edições, que podem ou não ser consideradas canônicas e que, em linhas gerais, trabalham mistérios e/ou planos mirabolantes que vão sendo lentamente descortinados na media em que a história caminha. Na verdade, Os Ômega Men foi uma das três maxisséries que King escreveu e lançou quase simultaneamente nesse seu meteórico começo de carreira, com as outras duas sendo Visão, para a Marvel Comics e a autoral O Xerife da Babilõnia, para a Vertigo.
Em Os Ômega Men, King reimagina por completo (mas sem exatamente desdizer o que veio antes) a criação oitentista de Marv Wolfman e Joe Staton como um grupo taxado de terrorista pela Cidadela, um império galáctico colonialista que, dentre outros, controla o Sistema Vega, composto por seis planetas que são os únicos ricos em Stellarium, elemento cobiçado por todas as civilizações do universo por ser capaz de estabilizar planetas e evitar o que aconteceu em Krypton. A história começa com a captura de Kyle Rayner, o Lanterna Branco, pelos Ômega Men que, para todos os efeitos, o mata em transmissão televisiva. Rayner estava por ali para tentar negociar a paz entre a Cidadela e os supostos terroristas, mas, como os Lanternas são proibidos de entrar no sistema, ele teve que deixar seu anel com o impiedoso Vice-Rei que é o representante do império galáctico. Mantido prisioneiro pelos Ômega Men, com uma bomba implantada em seu pescoço para evitar tentativas de fuga, Rayner é, por boa parte da história, um personagem inativo, enquanto Tom King estabelece e desenvolve a trama complexa que não só é composta de um plano complicado, como também de planetas e civilizações inteiras que precisam ser apresentadas e isso sem contar com os membros do grupo alienígena que dá nome à HQ, claro.

King faz esforço para manter toda a primeira metade de sua maxissérie – que chegou a ser cancelada na sétima edição, somente para ser descancelada em seguida por clamor popular – envolta nas brumas do mistério, com os papeis da equipe formada pelo ex-pacifista humano Primus, o brutamontes felino Tigorr, o brutamontes de pedra Broot, a sobrevivente traumatizada Scrapps e o robô D.O.C. permanecendo razoavelmente confusos e até fungíveis, sem muita personalidade, algo que começa a ganhar contornos melhores com a introdução da esnobe Princesa Kalista também como uma prisioneira dos Ômega Men ao lado de um Rayner basicamente fiando-se em sua religião para não cair em tentações morais. Quando as intenções do grupo ficam mais claras e seus membros passam a ter contornos mais marcados em termos de personalidade e papel nessa equação, a história caminha firme e forte na direção de uma gigantesca e brutal guerra contra a Cidadela, guerra essa que exige a corrupção das almas de todos os envolvidos, especialmente Rayner.
Trata-se, portanto, de uma história sobre o preço da liberdade, sobre a necessidade de ser tirano para acabar com a tirania, de deixar seus valores para trás para abraçar a violência como única saída. King muito claramente diz que não há terceira via e que inexistem escolhas, por mais que o Lanterna Branco quase o tempo todo sem poderes insista que há. O pessimismo impera, assim como as mortes aos milhares, milhões e, sim, bilhões, uma escala ambiciosa que passa a funcionar bem quando o roteirista se desapega dos seus mistérios que, sendo muito sincero, são a única razão para a história precisar de 12 edições para ser contada. No entanto, isso não quer dizer que a maxissérie não é boa. Muito pelo contrário, a narrativa é sólida, o escopo é imenso e os sacrifícios também, com a arte de Barnaby Bagenda (primordialmente) mais do que dando conta do recado das cada vez mais expansivas exigências do roteiro, com sua escolha de espelhar a estrutura 3x3x3 de nove quadros por página tornada popular em Watchmen – mas sem deixar de lado splash pages marcantes – funcionando bem demais para lidar com os textos prolixos de King.
Os Ômega Men é o início da “fórmula Tom King” de escrever quadrinhos, que, admito, gosto muito pela natureza autocontida e pelo resgate de personagens pouco utilizados. A maxissérie exige perseverança de leitores mais afoitos dada a característica de King de cozinhar mistérios em um lento banho maria, algo que, aqui, em comparação com obras posteriores, dá impressão de ser ainda mais vagaroso. Por outro lado, quando a história realmente começa, ela ganha ritmo e o resultado é uma saga espacial pesada, mas recompensadora que trabalha bem todos os seus personagens, sem torná-los binários – ou isso ou aquilo – em momento algum, o que é raro de se ver nos quadrinhos mainstream de super-heróis. Ômega pode simbolizar o fim, mas, aqui, ele marca o começo de uma carreira de sucesso quase instantânea na Nona Arte.
Os Ômega Men (The Omega Men – EUA, 2015/16)
Contendo: The Omega Men #1 a 12
Roteiro: Tom King
Arte: Barnaby Bagenda, Toby Cypress, Ig Guara, José Marzan Jr.
Cores: Romulo Fajardo Jr., Tomeu Morey, Hi-Fi
Letras: Pat Brosseau
Editoria: Amedeo Turturro, Brian Cunningham, Andy Khouri
Editora: DC Comics
Datas originais de publicação: agosto de 2015 a julho de 2016
Editora no Brasil: Editora Panini
Datas de publicação no Brasil: janeiro e junho de 2021 (dois encadernados)
Páginas: 298
