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Crítica | Os Sete Relógios de Agatha Christie (2026)

A hora da morte.

por Luiz Santiago
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O amado e igualmente odiado Chris Chibnall traz a paranoia de espionagem do início do século XX para 2026, utilizando as sementes políticas da obra de Agatha Christie (mesmo que “política” não fosse um de seus verdadeiros interesses, mas certamente perpassou ativamente muitas de suas histórias) em um solo que, quase 100 anos depois, parece tão ou até mais fértil para esse tipo de trama. A Rainha do Crime publicou O Mistério dos Sete Relógios em 1929, na época classificado como um suspense descontraído, escrito despretensiosamente para cumprir contrato, o que não agradou muito aos críticos e nem ao público. Chibnall, responsável pela aclamada Broadchurch e por um polêmico run em Doctor Who, aproveita dessa característica do original para inserir camadas sobre colonialismo e instrumentalização de populações como bucha de canhão em guerras que não lhes pertencem, juntando isso às ideias da autora sobre os trabalhos de espionagem durante e após a Primeira Guerra Mundial. Trocar Lord por Lady Caterham (Helena Bonham Carter, sempre ótima) sinaliza que o peso dramático migrará para um núcleo parental bem mais íntimo, o que torna a revelação final mais devastadora.

Ausente no original, o Dr. Cyril Matip (Nyasha Hatendi), inventor camaronês, aparece aqui para dar voz à crítica sobre os horrores coloniais. Quando Matip se recusa a participar da caçada aos faisões e expõe como africanos lutaram contra africanos em nome de europeus durante a Primeira Guerra, a minissérie traz à tona discussões sobre Estados que utilizam cidadãos como instrumentos descartáveis para morrer por coisas que não fazem sentido algum para eles, algo que também se aplica à quase totalidade dos homens da Europa que foram para as trincheiras da 1ª Guerra, massacrados numa disputa por acesso e por domínio de mercados. Esse caminho crítico reaparece na vilania de Lady Caterham, ideologicamente manipulado e ajustado para servir aos propósitos banais da personagem. Não que isso justifique uma traição à pátria, mas o que ela fala sobre a perda do filho e o que o Estado deu a ela ou a ele (ou seja… nada!) é a mais pura verdade, fazendo com que a motivação da vilã tivesse justificativa coerente no enredo. O que a personagem verbaliza sobre nunca ter recebido nada em troca casa perfeitamente com as falas de Matip, criando uma teia de ressentimentos contra estruturas por trás dessas guerras.

As mudanças em relação ao livro foram ajustadas para dar protagonismo às mulheres, focando mais na força e atuação das atrizes, com destaque para Lady Eileen “Bundle” Brent, que tem em Mia McKenna-Bruce uma intérprete extremamente simpática e condizente com a personagem, assumindo a investigação de maneira firme e inteligente, sem desmaiar no momento principal, como acontece no livro. McKenna-Bruce traz carisma para a detetive amadora e corajosa que recusa respostas fáceis. Infelizmente, quem perde com isso é o investigador oficial do caso, o coitado do Superintendente Battle de Martin Freeman, que vira um bobinho perdido, algo de que desgostei imensamente. No geral, porém, esta versão de 2026 é bastante competente, com belíssimas filmagens de cenários entre Bristol, Bath, Badminton House e Ronda, na Espanha. Por outro lado, não gosto das escolhas do diretor de fotografia para as cenas noturnas, que perde criatividade quando a tensão narrativa mais precisaria de apoio visual. Já as sequências diurnas funcionam bem melhor, enquanto a direção de arte, o elenco e os figurinos estão o tempo inteiro maravilhosos.

A adaptação não cresce muito, é claro; em diversos momentos, parece aquela coisa água com açúcar, um divertimento sem muitas exigências, mas que acerta ao expor a engrenagem que transforma as pessoas em perdas aceitáveis para “defender uma nação” que nada faz por elas. A motivação de Lady Caterham não nasce do vazio moral dos vilões de Christie, mas da constatação de que o pacto social entre cidadão e nação é massacrante: o Estado exige sacrifício absoluto enquanto oferece condecorações vazias e um alarmante silêncio institucional. Dinheiro seria o suficiente, nessas situações? Chibnall entende que o “clube de guardiões dos segredos da nação” e o medo dos “inimigos além das fronteiras” não são apenas conceitos para enredos com fórmulas secretas, mas boas oportunidades para discussões que vão além das banalidades das classes e títulos da nobreza dos anos 1920, na Inglaterra. Evidente que boas oportunidades críticas são perdidas, mas, convenhamos, a adaptação não tinha muito mais espaço para temáticas paralelas. Me pareceu, porém, que estão cavando um spin-off dessa obra, focado em Bundle e no clube dos 7 Relógios. Com o renovo das obras detetivescas no cinema e na literatura dos anos 2020, eu não ficaria nada espantado.

Os Sete Relógios de Agatha Christie (Agatha Christie’s Seven Dials) — Reino Unido, 2026
Criação: Chris Chibnall
Direção: Chris Sweeney
Roteiro: Chris Chibnall (baseado na obra de Agatha Christie)
Elenco: Mia McKenna-Bruce, Edward Bluemel, Martin Freeman, Helena Bonham Carter, Hughie O’Donnell, Alex Macqueen, Dorothy Atkinson, Mark Lewis Jones, Tim Preston, Ella-Rae Smith, Iain Glen, Nyasha Hatendi, Nabhaan Rizwan, Corey Mylchreest, Robinah Kironde, Josef Davies, Valerie Antwi, Paul Bigley, Stella Stocker
Duração: 3 episódios de 53 min.

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