A franquia Pânico está de volta. Rodeada de polêmicas, todas, desinteressantes para servir de material de análise para o filme que traz, de volta, Neve Campbell como a final girl Sidney Prescott. De adolescente traumatizada no clássico de 1996 a sobrevivente resiliente em 2026, a personagem percorreu uma trajetória de constante fuga e enfrentamento, evoluindo de uma vítima acuada por Billy e Stu para uma figura experiente que superou múltiplos imitadores em Woodsboro. Após vencer o luto e os ataques sucessivos, ela construiu uma vida estável numa cidade distante e mais isolada, uma escolha de pavimentação de caminho que justificou a sua ausência estratégica nos eventos de Pânico VI, lançado em 2023, com trama estabelecida em Nova Iorque. Agora, porém, ela retorna madura, vivendo reclusa, em uma pacata cidade, ao lado de seu marido, Mark Evans (Joel McHale). Enquanto as outras filhas estão com a avó, como podemos contemplar numa cena em que ela faz uma ligação de vídeo para conversar com as crianças, a sua filha mais velha, Tatum (Isabel May), está em casa. E será a jovem, neste momento, o novo foco de perseguição para atormentar a jornada de Sidney, mais uma vez ameaçada pelos desdobramentos de sua trajetória sombria e dominada por dor, violência e trauma. Sob a direção do veterano Kevin Williamson, que retoma as rédeas da franquia, o filme entrega, ao longo de seus 116 minutos, tudo aquilo que já vimos antes. E, sendo bastante sincero, tem coisas que nós gostamos de dar uma olhada bem mais que uma vez, não é mesmo?
Foi assim que encarei Pânico 7. O novo capítulo coloca Sidney no papel de protetora definitiva quando mais um (ou outros) Ghostface surge com o objetivo sádico de criar uma nova geração de trauma, passando a perseguir sua filha mais velha. Williamson, que também assina o roteiro, aposta na nostalgia e em uma atmosfera densa e sombria, modernizando a ameaça ao debater o uso de inteligência artificial e deepfakes para simular vozes de assassinos lendários, como a de Stu Macher (Matthew Lillard), enquanto mantém a crítica metalinguística sobre o cansaço de determinadas franquias, inclusive falando de si, em um texto dramático mais focado na ação que nos deixa constantemente sem fôlego, diminuindo um pouco o tempo para debates sobre metalinguagem no âmbito do slasher. Isso não significa que essa perspectiva clássica seja alijada da trama, ao contrário, está lá e devidamente alocada em passagens da narrativa, mas agora, numa época em que todos nós já sabemos as regras e as tais críticas irônicas, os realizadores investem na batalha dos personagens pela sobrevivência diante de um antagonista que não perdoa e parece acometido pela loucura ao estabelecer uma espécie de Culto do Ghostface, como se o “mal” de Woodsboro fosse viral e, entre um momento e outro, contaminasse determinados indivíduos, transformando-os em assassinos por detrás do icônico manto.
Aqui, Sidney é forçada a abandonar sua posição de observadora para transformar décadas de dor em força bruta, enfrentando o Ghostface em uma batalha final pela sobrevivência de seu legado. Mas, depois de tanto sofrimento, quem estará por detrás da máscara desta vez? Quais os motivos? O trailer, as teorias de um monte de gente desocupada e o filme, quando lançado, resgatou Stu como uma figura possível de ter o retorno em cena. Já assistimos aos demais e, em todos eles, os mascarados foram eliminados com tiros na cabeça e outras escolhas de aniquilamento. Stu, então, seria talvez a única possibilidade da trama para encararmos o passado. Ele teria mesmo morrido após receber um enorme televisor na cabeça? Em Pânico 7, o personagem reaparece. No entanto, é ele mesmo ou alguém que através de chamadas de vídeo, utiliza inteligência artificial para simular sua aparência atual (envelhecida e com cicatrizes)? As possíveis deepfakes são usadas pelo novo assassino para torturar Prescott, fazendo-a questionar se ele realmente sobreviveu ao ataque em 1996. O filme, por sinal, utiliza tecnologia de clonagem de voz para que o Ghostface possa falar exatamente como Stu, inclusive usando frases icônicas como “Surprise, Sidney” para desestabilizar a protagonista. É uma sacada muito interessante do roteiro, o que permite sagacidade ao novo episódio, em diálogo com as tendências da contemporaneidade, algo que os filmes da franquia sempre fizeram, por sinal.
A trama explora a obsessão de fóruns de internet e podcasts de true crime com a teoria de que “Stu está vivo”, transformando essa lenda urbana dos fãs em um elemento narrativo real que o assassino usa como arma. Além disso, podemos até refletir para delinear em debate que a presença de Stu serve como uma crítica direta à tendência de Hollywood de “ressuscitar” atores falecidos ou personagens antigos através de CGI, flertando com o limite entre nostalgia e ética tecnológica. Os documentos da sua entrada no necrotério de Woodsboro sumiram e a dúvida em torno de seu real retorno coloca todos os envolvidos em estado de alerta, inclusive outra figura ficcional basilar desse universo que tem a sua melhor entrada em todos os sete filmes. Sim, estou versando sobre Gale Weathers (Courteney Cox). Com menor tempo em cena em comparação aos filmes anteriores, mas assinando também como produtora executiva, ela retorna de maneira plausível por aqui, aliando-se a Sidney para tentar derrotar quem está novamente por detrás da trilha de sangue envolvendo aqueles que circundam Tatum e sua mãe. Confesso que esperava mais da personagem na trama, em especial, na batalha final, mas a contribuição deixada por aqui pode ser considerada satisfatória. Ela retorna, trazendo consigo dois estagiários: os gêmeos Chad (Mason Gooding) e Mindy (Jasmin Savoy Brown), outra aposta plausível que não se estabelece como forçada no que tange ao resgate de personagens anteriores para acenar exclusivamente para fãs, deixando de lado a qualidade narrativa. Eles também funcionam.
E, outra coisa que funciona muito bem é a construção audiovisual em Pânico 7. Se o filme, obviamente, depois de tantas entradas em três décadas, não entrega uma gota de novidade, ao menos o roteiro, assinado em parceria com Guy Busick e James Vanderbilt, traz cenas intensas e constantes, demarcando ameaças para todos os lados, o tempo inteiro, sem marasmo, estruturadas pelos ótimos trabalhos do design de produção e da direção de fotografia, bem como o retorno de Marco Beltrami, compositor que fazia parte da franquia na era dirigida por Wes Craven. Dessa vez, ele resgata temas centrais da primeira trilogia, incluindo novidades que funcionam adequadamente. A direção de fotografia de Ramsey Nickell é fundamental para elevar a atmosfera, entregando enquadramentos precisos e movimentações de câmera que intensificam o clima de suspense e perseguição, com destaque para a sequência angustiante da fuga de Tatum para o reencontro com sua mãe próximo ao desfecho, além do tom visceral presente no brusco ataque à casa da família Evans, novo sobrenome adotado por Sidney em Pine Groove, a fictícia e pacata cidade de Indiana que serve como seu novo lar agora em ameaça. Esse senso de perigo também é amplificado pelo design de produção de John Collins, que brilha ao transformar a residência em um cenário hostil, especialmente na cena do porão em reforma, onde a arquitetura inacabada cria uma espécie de labirinto de tensão e horror absoluto.
Complementando a estética macabra, o setor de maquiagem supervisionado por Mark James Ross executa um trabalho primoroso ao dar vida a mortes criativas e demasiadamente elaboradas, que figuram entre as mais impactantes de toda a franquia. Tais momentos chocam pela crueza, subvertendo a simplicidade letal com que Ghostface costumeiramente utiliza sua icônica Buck 120 Hunting Knife, a arma branca basilar que define o rastro de sangue da saga, agora investindo numa máquina de cerveja, dentre outras escolhas violentas diferenciadas. Na lista do monstro, temos o interesse do antagonismo em aterrorizar Sidney e sua família, mas antes disso, uma trilha de corpos é deixada pelo caminho, sem qualquer dose de piedade. O círculo social na trama espelha em Tatum a juventude de Sidney, ao incluir amigos como seu namorado suspeito e colegas de escola que se tornam alvos do novo Ghostface em Pine Groove. Historicamente, as motivações daqueles que assumem a máscara variam entre vingança pessoal contra o legado da final girl, a busca por fama instantânea no mundo digital ou a obsessão doentia por “elevar” as regras dos filmes de terror. Neste novo capítulo, os assassinos buscam encerrar definitivamente o ciclo iniciado em Woodsboro, explorando os segredos que Sidney tentou esconder de sua filha para protegê-la.
Sim, devo concordar em uma coisa com a maioria: a motivação dos assassinos dessa vez é menos elaborada que em qualquer outra entrada de psicopatas na franquia. A desconfiança em torno dos personagens envolvidos na matança é pressentida logo depois da primeira metade e as suas presenças na trama não são sólidas o suficiente para que possamos compreender a associação que geralmente se estabelece entre as protagonistas e os seus perseguidores nos filmes anteriores. Mas, peço licença para dividir uma coisa com você, caro leitor, longe de passar pano ou ser conivente com a abordagem em questão no desfecho de Pânico 7. A loucura que envolve a perspectiva de quem está por detrás da máscara é evidentemente menor em termos de necessidade daqueles que resolveram aniquilar todos ao redor de Sidney e sua filha, mas na realidade das redes sociais, por exemplo, isso não está muito longe de ser estabelecido. Recentemente, deixei um comentário numa postagem sobre a vinda de Britney Spears ao Brasil, alardeada na internet e em portais que costumam realizar postagens questionáveis. Expus que diante do atual estado de saúde mental da artista, as pessoas deveriam deixa-la em paz. Isso faz meses, mas todos os dias, pessoas entram na aba de comentários para postar recados para mim. Ofensivos, carregados de ódio e com ira mais forte que a de Aquiles, personagem da mitologia grega. Até no direct recebi mensagens com um tom tão ameaçador quanto as ligações com a voz aterrorizante de Roger L. Jackson, de volta por aqui, como habitual, fortalecendo o filme.
Diante disso, a gente se pergunta: no atual estado que a humanidade se encontra, incapaz de realizar um debate ou ter a tal inteligência emocional para lidar com aquilo que sacoleja a nossa flexibilidade cognitiva, não estamos em perigo diante de motivações banais para a violência e a falta de trato com o “outro”? Para refletirmos. Ademais, Ghostface é um manto. Não é uma entidade sobrenatural como Jason Voorhees e Freddy Krueger, tampouco o “bicho-papão” Michael Myers. Sendo assim, enquanto houver fandom tóxico e pessoas desequilibradas em torno da história de qualquer um dos envolvidos em Woodsboro desde 1996, nós teremos mais um capítulo da franquia batendo nas portas dos cinemas. Sim, será mais do mesmo, contanto que seja, tal como esse sétimo episódio, uma repetição válida enquanto entretenimento e interessante como material para debatermos temas da nossa atualidade. Dinâmico, divertido e com boas sacadas nos diálogos: assim se comportam os filmes da franquia Pânico, um terreno ficcional que flerta com a sua própria essência e ironiza a si mesmo, num jogo de espelhos plenamente consciente, afinal, todos que estão ali sabem que aparecem em cena para entregar tudo aquilo que já vimos antes, nalgumas vezes bem melhor, noutras no mesmo nível. E está tudo bem. Aqui, Ghostface encontra-se longe da ruindade apregoada por algumas críticas preguiçosas publicadas por ai.
Só não é mesmo novidade. Mas, isso realmente importa?
E sim, respondendo ao questionamento da linha fina lá em cima, o retorno de Sidney tem algo a dizer. É a mesma coisa que já ouvimos antes, mas diz. Acredito, por sua vez, que essa seja a última conversa com a protagonista. Melhor deixar como está. Que venham novos corpos e mentes para sangrar e se traumatizar. Vamos deixar Sidney e Gale descansar, concordam?
Pânico 7 (Scream 7, EUA – 2026)
Direção: Kevin Williamson
Roteiro: Guy Busick, Kevin Williamson, James Vanderbilt
Elenco: Neve Campbell, David Arquette, Courtney Cox, Mason Gooding, Jasmin Savoy Brown, Isabel May,Sonia Ammar, Joel McHale, Mckenna Grace, Michelle Randolph, Jimmy Tatro, Asa Germann, Celeste O’Connor, Sam Rechner, Ethan Embry, Tim Simons, Marcos Consuelos
Duração: 114 min.
