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Crítica | Pânico: A História Por Trás do Filme

Um documentário repleto de situações absurdas e desrespeitosas com a história que inspirou superficialmente o roteiro de Pânico.

por Leonardo Campos
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O documentário Pânico: A História por Trás do Filme tenta traçar um paralelo ambicioso entre o legado da franquia slasher e os crimes brutais de Danny Rolling, o “Assassino de Gainesville”. Parte de uma história aterrorizante de um passado recente, Rolling foi um estuprador e assassino em série da Louisiana que, entre 1989 e 1990, vitimou oito pessoas, incluindo quatro estudantes da Universidade da Flórida, causando pavor na comunidade ao espionar mulheres em suas casas antes de atacá-las. Foi justamente esse clima de vigilância e medo que inspirou, vagamente, o roteirista Kevin Williamson a conceber o prólogo icônico de Pânico, no qual Casey Becker (Drew Barrymore) é observada por uma voz sinistra ao telefone. Contudo, enquanto Williamson utilizou esses traços de crime real apenas como ponto de partida para criar o tétrico Ghostface e subverter tropos de gênero através da resiliente Sidney Prescott (Neve Campbell), a produção documental opta por uma abordagem sensacionalista e bizarra, inserindo até perspectivas sobrenaturais que distorcem a realidade dos fatos em seus risíveis 90 minutos de duração.

A execução do documentário, entretanto, é nitidamente canhestra e falha em estabelecer credibilidade ao tentar vender a ideia de que o filme é uma reprodução fiel do caso real, incluindo o uso de máscaras, o que não condiz com a verdade histórica. Os únicos momentos de brilho da obra residem nas inserções de cenas da própria franquia cinematográfica e nos depoimentos reais de Danny Rolling nos tribunais, que contrastam severamente com o restante do conteúdo duvidoso. E isso, convenhamos, não é mérito dos realizadores. Assim, a narrativa parece zombar da memória das vítimas e do trabalho dos envolvidos na produção original, perdendo-se em uma investigação sem fundamentos sólidos que mais desrespeita do que informa. Ao forçar conexões Pânico e a tragédia de Gainesville, o documentário desperdiça a chance de analisar seriamente o impacto do crime real na cultura pop, entregando um material que beira o ofensivo para quem busca uma análise factual e respeitosa.

Pânico: A História por Trás do Filme  é um filme que mergulha nos recônditos da psicologia perturbada de Danny Rolling, traçando um paralelo direto entre a brutalidade real e a ficção que moldou o gênero slasher moderno. A obra peca ao não examinar como o roteirista Kevin Williamson e o diretor Wes Craven filtraram o horror de Gainesville, adaptando e transmutando elementos dos crimes reais para fundamentar a narrativa de 1996, conhecida por revitalizar o slasher, na época, em defasagem. Um ponto de virada crucial explorado na produção é a tese da defesa de Rolling, que alegava sua incapacidade de distinguir ficção de realidade, sustentando que ele teria sido instigado a matar após assistir ao filme O Exorcista 3, também alegando a presença de Gemini, uma entidade demoníaca que o instigava a matar. Esse detalhe sombrio não apenas influenciou o julgamento, mas tornou-se a semente para a natureza metalinguística e autoconsciente da franquia, que frequentemente questiona o impacto do cinema sobre o comportamento humano. Williamson viu no noticiário, fez anotações e pronto. Nada a mais.

Percebe-se que o documentário tentou capitalizar em torno do retorno da franquia em 2022. Longe de ser mais próximo de sua inspiração, como Psicose e O Massacre da Serra Elétrica foram ao emular Ed Gein, o filme até possui um potencial temático, mas a estrutura narrativa do documentário compromete severamente sua autoridade ao mesclar de forma confusa reconstituições roteirizadas, registros de arquivo e investigações paranormais questionáveis. Essa abordagem híbrida acaba por minar a credibilidade da obra logo em seus momentos iniciais, transformando o que poderia ser uma análise criminal profunda em um espetáculo de entretenimento superficial para curiosos. Ao perder o foco na análise técnica e histórica em favor de elementos sensacionalistas, a produção falha em manter um padrão de análise coeso, resultando em um material fragmentado que entrega mais especulação do que esclarecimentos sólidos sobre a conexão entre os assassinatos reais e o legado cultural de Ghostface.

Diante da produção, assistimos boquiabertos e, longe de qualquer preconceito com a mediunidade, é perceptível que o filme brinca com as questões do âmbito mencionado, tendo em vista manter o seu discurso sensacionalista. Em algumas passagens constrangedoras, há a sensação de que os envolvidos querem soltar uma gargalhada diante do que estão fazendo. Se isso rolou, não podemos afirmar, foi muito bem editado, por sinal. Ademais, até mesmo a jornada do assassino é apresentada de maneira comprometedora. Nascido em 1954, Rolling teve uma infância conturbada que o influenciou profundamente. Seu pai, um policial, era abusivo, e Danny viveu diante de constantes tensões familiares, o que contribuiu para suas tendências violentas. Foi em agosto de 1990, Rolling começou a perpetrar um dos crimes mais horrendos da década, focando em jovens mulheres que se preparavam para o início do ano escolar na Universidade da Flórida. Ele foi responsável pelo assassinato de cinco estudantes universitárias em um curto espaço de tempo, entre os dias 24 e 31 de agosto. Tudo com muito sangue e violência.

Seus crimes eram marcados por extrema brutalidade; ele não apenas matava suas vítimas, mas também cometia atos de necrofilia e mutilação, o que chocou a comunidade local e atraiu a atenção nacional. A divulgação de suas ações provocou um clima de pânico em Gainesville. Os estudantes estavam apavorados e muitos desistiram de voltar para a universidade, temendo por suas vidas. A polícia local teve dificuldades para encontrar o perpetrador, levando a uma extensa investigação que mobilizou recursos significativos. O caso ganhou uma atenção midiática intensa, tornando-se um dos focos de maior interesse público na época. Rolling foi finalmente capturado em setembro de 1990, após ser detido por uma série de crimes menores. Durante os interrogatórios, ele confessou os assassinatos, detalhando seus métodos e motivações. Seus relatos revelaram complexidade psicológica, e Rolling disse que era impulsionado por uma compulsão quase incontrolável.

Ele foi posteriormente condenado e, em 1996, foi sentenciado à morte. Justamente no ano de lançamento do filme que o documentário diz se basear para a composição narrativa.

Forçado. Tudo muito exagerado. Confira você mesmo, caro leitor, e conclua.

Pânico: A História Por Trás do Filme (Scream: The True Story, Estados Unidos– 2022)
Direção: Nik Clark-Hassinger, Jonathan Scott Higgins, Lucas Paz
Roteiro: Nik Clark-Hassinger, Jonathan Scott Higgins, Lucas Paz
Elenco: Steven ‘Prozak’ Shippy, Cindy Kaza, Michael Salerno, Sondra London, Danny Rolling
Duração: 90 minutos

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