A trilha sonora de Pânico VI, lançada em março de 2023, marcou o retorno do compositor Brian Tyler, que desta vez divide a autoria com Sven Faulconer, um sua primeira tessitura para cinema. Composta por 38 faixas e uma duração aproximada de 90 minutos, a obra entrega um trabalho robusto que se adapta às mudanças significativas da franquia, como a ausência inédita de Neve Campbell no papel de Sidney Prescott. Essa transição permitiu a exploração de uma atmosfera musical ainda mais densa e pesada, projetada especificamente para refletir o caos e a escala urbana de Nova York, o novo cenário onde a trama se desenrola. Neste novo capítulo, os compositores optaram por uma renovação criativa ao introduzir temas inéditos que ditam o ritmo da tensão na metrópole, deixando de lado as clássicas composições de Marco Beltrami que definiram os filmes anteriores. No entanto, mesmo com essa ruptura estética e a exclusão dos temas antigos, a trilha não perde sua identidade fundamental, pois consegue traçar referências sutis ao legado da série enquanto estabelece uma sonoridade moderna e agressiva.
O resultado é uma experiência auditiva que delineia perfeitamente o clima sombrio e implacável do Ghostface em um ambiente desconhecido e hostil. Assim, a textura percussiva desta sexta entrada no universo de Pânico integra as contribuições do belga Sven Faulconer, renomado por seu trabalho no documentário O Último Gelo, elevando a tensão da franquia ao entregar uma experiência auditiva visceral e complexa. A obra se destaca por fundir faixas clássicas da saga com composições inéditas, criando uma “paisagem sonora” que combina cordas sombrias e assombrosas a toques suaves de piano. Essa sonoridade é meticulosamente desenhada para manter o espectador no limite, utilizando uma dinâmica que começa de forma lenta e evolui para passagens altas e frenéticas, garantindo que o suspense seja onipresente em cada cena de terror, também para um diálogo assertivo com o design de som da produção.
A estrutura rítmica da trilha é marcada por uma construção de camadas que alterna entre o silêncio perturbador e o caos absoluto. Após os momentos de maior intensidade, a música retorna à sua introdução contida, apenas para incorporar vozes e novos sons que preparam o terreno para uma nova seção explosiva. Mesmo não sendo um grande momento da franquia, no que tange ao processo de estabelecimento musical, essa colaboração entre Tyler e Faulconer resulta em uma composição que não apenas acompanha a narrativa, mas dita o ritmo cardíaco do público, se consolidando como uma peça essencial para a atmosfera opressiva e moderna do sexto capítulo da jornada de Ghostface, antagonista que retorna em 2026 para Pânico 7.
Tematicamente, os compositores demonstram uma coesão notável ao manterem-se fiéis a um tema principal em cascata de nove notas, que serve como espinha dorsal da obra. Esta melodia onipresente permeia todas as faixas do álbum, surgindo frequentemente de forma abreviada em sua frase inicial de cinco notas para reforçar a identidade sonora da produção. Um detalhe que desperta a curiosidade de entusiastas do gênero é a percepção de que este tema central compartilha uma progressão de acordes, coincidência, plágio ou homenagem não declarada, surpreendentemente semelhante ao icônico tema principal composto por John Frizzell para Alien: A Ressurreição, estabelecendo uma ponte melódica sutil entre as franquias. Além da célula principal, a trilha sonora é estruturada sobre dois pilares secundários que aprofundam a narrativa musical. O primeiro é o tema do assassino, caracterizado por quatro notas com uma descida abrupta, elemento herdado diretamente do filme de 2022 para manter a continuidade da tensão.
Em contrapartida, existe um tema muito mais nebuloso dedicado aos relacionamentos, presente em faixas como “Sam And Danny”, “The Core Four” e “Stuck in Town”. Esta última melodia, curiosamente subdesenvolvida, parece nunca florescer completamente, espelhando a fragilidade e a incerteza dos laços afetivos dentro do contexto caótico da trama, algo que se foi falha da dupla, ao menos não deixou que o desenvolvimento perdesse o impacto sonoro, revelando o que se pode definir como uma verdadeira “carnificina musical”, caracterizada pelo uso agressivo de cordas estridentes, explosões de metais e agudos de sopros que se fundem a uma percussão impactante, junto ao constante emprego de texturas de sintetizador que amplificam a sensação de desorientação e perigo. Há uma sofisticação melódica possivelmente oculta: ao escutar com atenção os momentos finais de faixas como “Something Red” e “Apartment Mayhem”, nós percebemos tons góticos e um acompanhamento coral que nos remete ao estilo do veterano Christopher Young, caminho que insere uma profundidade dramática ao horror em cena.
Embora o álbum apresente uma duração considerável, ultrapassando os 90 minutos, uma edição mais concisa poderia tornar a experiência auditiva mais direta e impactante para o ouvinte médio. Contudo, mesmo com sua extensão generosa, o resultado final mantém uma qualidade consistente que sustenta a tensão narrativa do filme. A trilha consegue equilibrar a brutalidade exigida pelo gênero slasher com nuances atmosféricas refinadas, consolidando-se como um trabalho qualificado que respeita o legado das trilhas de suspense enquanto explora novas e caóticas possibilidades sonoras. Tyler se mantém no que chamamos de zona de conforto, mas acredito que se o resultado anterior deu certo, por qual motivo mudar o ciclo? Basta reconsiderar o que ele já havia feito e inserir novas perspectivas, como podemos acompanhar por aqui. E, para encerrarmos, com as mudanças diante da equipe criativa do novo episódio da franquia, Marco Beltrami retorna, mas Brian Tyler e Sven Faulconer podem ficar tranquilos, pois ainda que estejam ausentes, trouxeram contribuições memoráveis ao universo em questão.
Pânico VI (2023) Trilha Sonora Original
Artista: Bryan Tyler, Sven Faulconer
País: Estados Unidos
Gravadora: Paramount
Estilo: rock alternativo, textura percussiva, nu metal, metal alternativo
Duração: 95 minutos
