- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
E a primeira temporada de Pluribus acaba com La Chica o el Mundo, episódio que finalmente reúne Manousos e Carol, depois que o primeiro viaja de carro do Paraguai até o Novo México e que leva ao encerramento de um arco completo e a preparação do segundo ano que, ao que tudo indica, será uma corrida contra o tempo, com os dois imunes tentando descobrir uma maneira de desfazer a União, enquanto a União, por seu turno, tenta levar a felicidade forçada a eles. Mesmo que esse talvez tenha sido o mais movimentado de todos os nove capítulos, o que ele coloca na mesa para pensarmos é um prato feito para muitas conversas animadas e inteligentes ao redor de uma mesa, certamente muito mais enriquecedoras do que imbecilidades histericamente polarizadas ao redor de um chinelo.
Depois de um prólogo assustador que, na verdade, é uma visão de 10 dias no futuro, em que a jovem quíchua Kusimayu (Darinka Arones), uma das 13 imunes, vivendo em um aparentemente normal vilarejo nas montanhas peruanas, é integrada à mente coletiva, imediatamente levando ao desfazimento da comunidade e a um sorriso perene em seu rosto. É como a mais meiga e simpática abertura de um filme de horror de todos os tempos, em que explicitamente vemos a perseguição de um bem comum resultar na completa eliminação da individualidade, do livre arbítrio, daquilo que nos faz humanos. O fato de não haver nenhum tipo de coação manifesta e de a escolha aparentemente ser de Kusimayu – escolha que não é escolha alguma, verdade seja dita -, torna tudo ainda mais arrepiante. E, quando esse inspiradíssimo e desconcertante momento acaba, voltamos para o presente da série para vermos Manousos então chegar à rotatória em frente ao conjunto de casas onde Carol mora e os dois finalmente aparecendo na mesma tomada, ainda que distantes um do outro.
Para todos os efeitos Manousos, mesmo 60 dias depois da pandemia alienígena, continua sendo exatamente o mesmo Manousos do primeiro dia, um homem cauteloso e metódico ao extremo, desconfiado de absolutamente tudo e com um objetivo apenas em mente: exterminar os Outros. Ele é o que Carol era nos primeiros dias da formação da mente coletiva, com Carol, como nós vimos ao longo da temporada, tendo deixado suas defesas baixarem pelas mais diversas razões, talvez a principal sendo a carência de contato humano, e tornando-se alguém que, na comparação direta com Manousos, pode muito bem ser vista como no mínimo uma simpatizante da causa da União. O contraste é potente e, mais do que isso, muito eficiente, com todo o usual cuidado de Vince Gilligan manifestando-se nos detalhes, seja o inquietante facão na cintura de Manousos, o conflito relacionado com o uso do celular e o território para a conversa dos dois e a revista da casa de Carol por Manousos em busca de uma escuta que acaba encontrando não exatamente o que ele procurava, mas sim um legado de Helen e sua preocupação com o alcoolismo da esposa que, por seu turno, serve de mais um lembrete de que os óvulos de Carol estão congelados em algum lugar. E a cereja no bolo é Carol bloqueando sua porta com uma cadeira, simbolizando o medo que ela sente – que nós sentimos! – não de uma força invasora que unifica a mente de toda a população da Terra, mas sim da boa e velha humanidade. Temos medo é de nós mesmos.
O que segue daí é o curso intensivo de Manousos sobre os Outros, com direito a testes de estresse – chamemos assim, pois eles são literalmente isso… – que o leva a concordar com Carol que o extermínio não é necessário e que há, talvez, um caminho para a reversão que passa pelas ondas do rádio. Mas, claro, esse curso intensivo enfurece Carol ou, talvez mais precisamente, a convocação de Zosia por Manousos a enfurece e faz com que seus ciúmes cheguem ao volume 11 e sirva de estopim para o abandono de Manousos à sua própria sorte e às férias de Carol com Zosia pelo mundo. Vemos, então, uma versão mais sofisticada da vida falsa de Koumba que parece indicar que Carol encontrou o ponto de equilíbrio: a felicidade que ela sabe ser oriunda de situações falsas desde que ela não precise fazer parte da União. Mas, como qualquer felicidade é efêmera, isso não demora a desmoronar quando Carol finalmente percebe que ela não está a salvo e que seus óvulos congelados – a vida que ela e Helen um dia imaginaram gerar – estão sendo usados contra ela, o que deixa ainda mais evidente que todo o objetivo de Zosia, desde o início, foi justamente amolecer as defesas da protagonista, o que revela não exatamente maldade, mas doses cavalares de malícia.
E, com isso, voltamos à fantástica premissa da série que gira em torno da perseguição da felicidade a todo custo, uma verdadeira utopia vendida em livros de autoajuda, em efêmeros devaneios lisérgicos e em uma intensa vontade de se fugir de situações terríveis, mas que não se limita a situações terríveis, pois até quem vive no conforto tem esse tipo de ilusão. A solução do vírus alienígena parece perfeita, mas as rachaduras na lógica surgem dentro da própria linha narrativa da série, com uma entidade tão apegada a imperativos que a União não é uma escolha, mas sim a única opção, mas uma única opção que carrega consigo o lento extermínio do coletivo por fome, com a vida existindo com o objetivo exclusivo de propagar esse imperativo a outros planetas habitados. Felicidade ou prisão? Vida ou escravidão? Vontade própria ou controle absoluto? Pluribus entrará em sua segunda fase de maneira lógica, levando ao audiovisual o que acontece todos os dias com assuntos dos mais banais aos mais complexos, ou seja, o entrincheiramento de dois lados que se recusam a ceder um centímetro sequer, ambos com reações extremadas, no caso da série a simbólica (mas não tanto) bomba atômica de Carol. Sim, Pluribus é sobre o estado das coisas hoje, no momento em que vivemos, e não há nada mais assustador do que isso.
Pluribus – 1X09: La Chica o el Mundo (Pluribus – 1X09: La Chica o el Mundo – EUA, 24 de dezembro de 2025)
Criação e showrunner: Vince Gilligan
Direção: Gordon Smith
Roteiro: Alison Tatlock, Gordon Smith
Elenco: Rhea Seehorn, Karolina Wydra, Carlos-Manuel Vesga, Darinka Arones
Duração: 57 min.
