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Crítica | Presas do Abismo

Casal tem viagem marítima transformada em pesadelo após encontro com piratas e tubarões.

por Leonardo Campos
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Tubarões. Tubarões. E, mais tubarões. Meio século depois de Spielberg entregar uma trama que seria a base narrativa para as feras marinhas cinematográficas predecessoras, Presas do Abismo é um filme que, apesar de apresentar uma narrativa problemática e clichês evidentes, se destaca por sua curiosidade e alguns momentos envolventes. Dirigido por Christian Sesma e roteirizado por Chad Law e Josh Ridgway, o filme teve sua estreia em cinemas selecionados e em plataformas digitais em janeiro de 2025. A trama gira em torno de Cassidy, uma oceanógrafa vivida por Scout Taylor-Compton, que decide enfrentar seus medos mais sombrios ao embarcar em uma expedição subaquática na Tailândia. Essa missão se transforma em um pesadelo quando piratas modernos, liderados pelo sociopata Jordan, interpretado por Jon Seda, se apossaram do barco onde Cassidy e seu novo marido, Gregg (Callum McGowan), estão.

Com um enredo que mistura ação, aventura e elementos de terror, a premissa de Presas do Abismo é intrigante e oferece a oportunidade de explorar temas como o trauma, a coragem e a luta pela sobrevivência. A protagonista, Cassidy, é um personagem que carrega um peso emocional significativo ao lidar com os fantasmas do passado, especificamente a morte trágica de seu pai por um tubarão. No entanto, o filme falha em desenvolver essa camada psicológica de forma orgânica, resultando em uma narrativa que parece apressada e desconexa em muitos momentos. Embora a presença de Richard Dreyfuss, como o avô de Cassidy que a orienta através de flashbacks, traga certo charme ao filme, especialmente por sua ligação com o clássico Tubarão, de 1975, a abordagem da narrativa se perde entre sequências de ação e efeitos especiais que não conseguem sustentar a tensão necessária. A tentativa de combinar elementos de horror com aventura aquática carece de fluidez, o que dificulta a imersão do espectador.

A trilha sonora de Andy Fosberry, apesar de não ser completamente descartável, também não se destaca de maneira memorável, contribuindo para a sensação de que o filme não consegue se decidir entre ser um thriller intenso e uma reflexão sobre os medos subjacentes da protagonista. Em algumas cenas, a música tenta amplificar a tensão, mas acaba soando genérica, sem criar a atmosfera envolvente que um filme desse gênero requer. Por outro lado, a direção de fotografia de Niccolò De La Fere demonstra esforço em capturar a beleza subaquática da Tailândia e as cenas de mergulho. No entanto, a falta de um roteiro coeso prejudica a capacidade de transmitir a urgência e o perigo que a situação exige. A cinematografia, embora competente, não consegue compensar as falhas narrativas, resultando em uma experiência visual que, embora agradável em alguns momentos, é inconsistentemente impactante em seus 90 minutos.

No geral, Presas do Abismo pode ser considerado um filme que, apesar de seus muitos defeitos, apresenta elementos curiosos. A exploração do trauma de Cassidy, a introdução de piratas modernos como antagonistas e a participação de Richard Dreyfuss adicionam uma dimensão interessante à trama, mas a falta de desenvolvimento e a fusão desarticulada de subgêneros resultam em uma obra que não atinge seu potencial. Embora possa atrair os fãs de filmes de ação e aventura aquaticamente temáticos, este filme serve como um lembrete de que, por mais intrigante que uma ideia possa ser, a execução é fundamental. No final, o discurso de Dreyfuss sobre a conservação dos tubarões nos créditos finais proporciona uma reflexão valiosa, apesar de toda a ação frenética, e lança um convite à responsabilidade ambiental em um filme que, por sua natureza, envolve essas majestosas criaturas marinhas.

Ao final, tal como os recentes O Último Mergulho e Terror no Rio, este horror ecológico com fusão de elementos de outros subgêneros me fez refletir sobre como a indústria cinematográfica tem explorado cada vez mais a ideia de mesclar estilos e criar narrativas que vão além do convencional. Um exemplo claro dessa tendência é o uso de tubarões como símbolos de conflito dramático em filmes que se concentram em temáticas de sobrevivência. O sucesso de produções como Megatubarão, Medo Profundo, dentre outros, revela um apelo crescente por histórias que combinam terror, aventura e suspense com elementos de sobrevivência, traçando um retrato fascinante da relação humana com a natureza. O tubarão, como um dos maiores predadores dos oceanos, representa o medo primordial que muitos sentem em relação ao desconhecido e à força imprevisível da natureza.

Essas criaturas, muitas vezes mal compreendidas, simbolizam o confronto entre o homem e o ambiente hostil. Filmes que apresentam tubarões frequentemente exploram o instinto de sobrevivência do ser humano, colocando personagens em situações extremas que testam seus limites físicos e emocionais. Aqui, a mixagem de subgêneros se amplifica quando um enredo de sobrevivência se transforma em um terror psicológico que explora a ansiedade e o desespero diante da morte iminente. Além disso, a inserção de tubarões em filmes de sobrevivência contribui para a construção de uma atmosfera de tensão que captura a atenção do espectador. Por outro lado, essa crescente tendência de dramatizar o conflito entre humanos e tubarões se questiona, à medida que críticos refletem sobre a representação de animais em extinção e os desafios éticos para com a preservação das espécies. Em suma, a busca por mesclar gêneros em filmes de sobrevivência que incorporam tubarões como elementos de conflito dramático cria uma experiência envolvente e reflexiva para os espectadores.

Presas do Abismo tenta, entrega alguns momentos, mas acaba naufragando como o tesouro buscado pelos piratas do enredo.

Presas do Abismo (Into The Deep, EUA – 2025)
Direção: Christian Sesma
Roteiro: Josh Ridgway, Chad Law
Elenco: Callum McGowan, Scout Taylor-Compton, Stuart Townsend, Jon Seda, AnnaMaria Demara, David Gray, Richard Dreyfuss
Duração: 90 min

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