- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
Depois de uma viagem lisérgica seguida de combates ferozes com leões no sensacional episódio anterior, o Spear zumbi continua sua jornada de “re-humanização” atrás das memórias difusas que tem de Fang encontrando um inusitado companheiro: um pequeno gafanhoto. Ao longo de quase metade da duração do episódio, Genndy Tartakovsky nos faz contemplar uma conexão improvável entre um neandertal desmorto e um pequeno inseto que Spear salva da língua pegajosa de um camaleão e que passa a noite aninhado em suas mãos. Releiam essa frase que acabei de escrever e pensem comigo como é mágico o que o animador russo faz quando para de inventar moda e de criar mitologia grandiosa, mas sem objetivo, como fez na segunda temporada, e volta a focar na absoluta simplicidade de sua premissa, mesmo que o fator zumbificação porventura ainda possa parecer estranho para muita gente.
O que tornou Primal especial desde o começo há cinco anos, com sua primeira temporada, foi o básico, ou seja, a narrativa de uma amizade entre um homem da caverna e uma T-Rex fêmea a partir da dor da perda que eles sentem e as aventuras que decorrem daí, normalmente repletas de ternura, energia e de violência pré-histórica explícita e completamente sem freios em um mundo tanto anacrônico quanto de fantasia que Tartakovsky parece costurar livremente na medida em que caminha, sem se preocupar com uma lógica muito fixa. E isso, ainda bem, retornou na tardia terceira temporada que até agora vem mantendo Fang apenas como uma memória, como a força motriz que dá propósito a um Spear que, a cada encontro e conflito, parece deixar para trás partes de seu corpo, ao mesmo tempo em que parece se reconstruir mentalmente. Quando Tartakovksy estabelece a conexão entre o pequeno gafanhoto e a gigantesca Fang na mente fragmentada de Spear, o que vemos é um poema audiovisual que funciona instintivamente, sem exigir nada mais do espectador do que a mera contemplação.
A contemplação quase lúdica é sacudida violentamente quando Spear cai por um buraco e acaba em uma caverna subterrânea em que encontra Gollum e sua família estendida, todos com voracidade ensandecida por carne humana que capturam o sofrido protagonista e, não demora, devoram a carne de sua mão e antebraço direito, deixando apenas os ossos que Spear, mesmo se ter mais músculos pela região, ainda consegue controlar. O que segue, daí, é o massacre que espera, mas não da maneira que se espera. Primeiro, Tartakovsky reintroduz o gafanhoto que, com sua estridulação, quebra o silêncio usual da gigantesca caverna e acaba atraindo a sana esfomeada das pequenas criaturas humanoides dentuças e cegas, para desespero de um Spear amarrado de cabeça para baixo a partir do teto. Esse expediente quase banal cria momentos absolutamente incríveis de perseguição ao colorido inseto que é capaz de fazer o coração de qualquer espectador palpitar mais forte em uma torcida tão grande pela fuga bem-sucedida do gafanhoto sem nome que vê-lo esmagado por um osso transformado em tacape, por mais telegrafado que o momento seja, é de fazer os olhos estranhamente ficarem úmidos.
E ver Spear explodir em seguida, vingando-se brutalmente da morte de seu amigo é de um prazer inenarrável, com a animação não deixando de mostrar as 1001 maneiras de se matar criaturas subterrâneas, o que inclui a ossada do braço do zumbi sendo usada como instrumento cortante e, claro, ele adotando a lança como sua arma de escolha em definitivo, com direito a uma tanga nova que, aqui, funciona primordialmente para impedir que seus órgãos internos escorram pelo buraco causado pelos dentes dos monstrinhos e para que as sombras não seja mais necessárias para esconder suas partes íntimas. Mas a cereja nesse bolo de sangue, ossos e tripas é Spear fazendo uma montanha de corpos para escalá-la e sair da caverna. Se eu fosse um daqueles caras que urra quando torce por personagens fictícios na televisão, eu sem dúvida teria urrado nesse momento.
Quando voltamos à superfície, a poesia também volta. O gafanhoto morreu, mas aquele era apenas “um” gafanhoto e não é isso que Spear procura. O neandertal zumbi está atrás de Fang, não de qualquer dinossauro. É Fang que dá sentido à sua (não)vida, é Fang que o faz seguir adiante, é Fang que, a cada passo dado, faz Spear voltar a ser o que um dia foi ou, pelo menos, aproximar-se desse objetivo. Ver Spear esfacelar-se diante da câmera é triste, mas seu retorno simbólico à humanidade é uma jornada que sem dúvida vem valendo muito a pena. Como disse na crítica anterior, não faço ideia do que Tartakovsky pretende fazer, mas estou 100% engajado nesse seu estranho, mas irresistível projeto.
Primal – 3X03: Festa da Carne (Primal – 3X03: Feast of Flesh – EUA, 25 de janeiro de 2026)
Criação: Genndy Tartakovsky
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Mark Andrews, Genndy Tartakovsky
Elenco: Aaron LaPlante, Fred Tatasciore, Dee Bradley Baker, Jon Olson
Duração: 22 min.
