- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
Já dizendo o que pretendia fazer no título, que é uma variação de Ecos da Eternidade, o último da segunda temporada, Genndy Tartakovsky termina seu retcon trazendo Spear de volta em sua forma completamente des-zumbificada e ao lado de sua família, com direito à repetição da sequência final em que vemos sua filha já crescida montando um dos Fanguinhos, mas, agora, com o “esclarecimento” de que o neandertal estava lá o tempo todo. É uma jogada segura, já que a alternativa provavelmente seria antipática para o público em geral, ainda que muito mais corajosa e potencialmente melhor. Mas, lógico, se isso significar que teremos Primal de volta em uma quarta temporada que se esforce para trazer de volta o espírito que vimos do primeiro ano até a metade do segundo, então o preço dessa abordagem mais “domada” pode valer a pena.
É importante salientar, só para deixar bem claro, que eu não acho de forma alguma que Tartakovsky errou ao matar Spear na temporada anterior. Muito ao contrário, conceitualmente foi uma escolha corajosa e raríssima de se ver por aí, pois Hollywood (assim como a indústria de quadrinhos americana) não gosta nada de matar seus protagonistas. O erro de Tartakovsky foi de execução, criando uma expansão de mitologia a partir da segunda metade da segunda temporada que só atrapalhou a narrativa e fazendo da morte de Spear algo banal e até cômico considerando a inesquecível – por todas as razões erradas – “transa moribunda” que levou ao epílogo descrito acima, mas sem Spear. E é muito claro que Tartakovsky percebeu o que fez e ele tratou de corrigir em uma terceira temporada bizarra, mas decididamente diferente que triunfa quase que por completo até os pouco inspirados oitavo e nono episódios, chegando ao final de maneira muito mais comportada do que poderia imaginar.
Não que eu esperasse – ou quisesse – que O Eco da Eternidade trouxesse mais mortes relevantes para a série, pois todo o espírito da temporada era de reunião e o epílogo retconado, nessa linha, faz todo sentido e é bem-vindo mesmo que, lá no fundo, eu preferisse a outra opção, que seria Spear zumbi morrer de verdade. Mas o episódio final que, claro, abre as portas para um recomeço, não assumiu risco algum, primeiro basicamente desfazendo a gravidade do cliffhanger do anterior em que vemos Fang lutando com o lobisomem de olhos flamejantes e, depois, resolvendo a luta de Spear contra Mira, Fang e os Fanguinhos transformados em monstros pelo mesmo líquido negro que o curara com a “força do amor” no caso de Mira e com “foguinho” no caso dos dinossauros, “foguinho” esse obtido pela providencial erupção do vulcão que afasta os inimigos e facilita o trabalho do protagonista em evitar que seus amigos se matem. Foi simpático? Sem dúvida. Eu queria algo só simpático em Primal? De jeito algum. Tartakovsky pegou sua série visceral de violência extrema e terminou tudo com arranhões, berros e um bebê fofo em uma arena em que absolutamente nada pareceu efetivamente perigoso. Foi como terminar Cujo fazendo o cachorro sentar e rolar no chão para ganhar um biscoito ou Tubarão fazendo o grande peixe terminar no SeaWorld brincando com Quint e Hooper.
Estou exagerando, claro, mas é somente para transmitir de maneira mais assertiva uma mensagem básica: Primal é mais do que fofuras pré-históricas, mais do que uma família disfuncional. A série nasceu quase como uma tragédia shakespeareana, tensa, violenta, selvagem até a raiz do cabelo. Infelizmente, com esse final que não cobra preço algum e que é somente um grande retcon, Tartakovsky a transformou em uma versão “Ursinhos Carinhosos” que é uma sombra do que foi, mesmo que sete dos 10 episódios da temporada tenha sido um retorno à forma. Exigências da produção levaram o criador a esse caminho? Eu duvido, pois o Adult Swim é justamente a caixinha de areia livre em que todo mundo faz o que quer, doa a quem doer. Um intervalo para um caminho futuro que não suavize nada para os personagens? É isso que espero com todas as forças. Pelo momento, apesar de ser tecnicamente um final bom, o que temos é Primal Light, um produto sem cafeína e sem açúcar, com apenas uma lembrança do gosto que tinha originalmente.
Primal – 3X10: O Eco da Eternidade (Primal – 3X10: An Echo of Eternirty – EUA, 15 de março de 2026)
Criação: Genndy Tartakovsky
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Genndy Tartakovsky
Elenco: Aaron LaPlante, Laëtitia Eïdo, Lilah Tartakovksy
Duração: 23 min.
