Crítica | Relação Indecente

A chamada de marketing na época do lançamento de Relação Indecente, filme que se tornou uma franquia com três continuações, desconectadas do primeiro, traz uma mensagem oportunista e cretina: “depois de Sharon Stone, Drew Barrymore para você”. O público, mergulhado na onda das mulheres fatais e perigosas, dotadas de desempenho sexual formidável, correu atrás para conferir esse filme deliciosamente vulgar, uma das produções responsáveis por dessacralizar a menina inocente que há alguns anos, tinha sido a carismática personagem do filme de Steven Spielberg sobre uma criatura extraterrestre perdida no hediondo planeta Terra, agonizante em busca do seu lar.

Dirigido e escrito por Katt Shea, numa parceria dramatúrgica com Andy Ruben, ambas inspiradas na história “original” de Melissa Soddard, Relação Indecente traz mais uma mulher fatal e perigosa para o painel de personagens responsáveis por catástrofes no bojo das relações humanas. Tendo como indicador, a obsessão e volúpia sexual de Instinto Selvagem, aqui encontramos uma jovem sedenta por sexo e manipulação, mas genérica e dramaticamente feita de borracha, tamanha a artificialidade de seu desenvolvimento enquanto personagem. Seus conflitos são fracos, suas necessidades dramáticas óbvias, tudo isso, material que influenciou no resultado final do filme, uma narrativa esquecível sobre jogos psicológicos, sexo e destruição de lares.

Na trama, uma garota conhece uma colega aparentemente inofensiva, sem sequer imaginar que um rastro de acontecimentos hediondos gravitará em torno de sua vida cotidiana. Conduzido pela música de David Michael Frank, o filme deflagra duas garotas de conflitos e características bem peculiares. Sylvie Cooper (Sara Gilbert) é a jovem que precisa de atenção da família e das pessoas ao seu redor. Ela inventa mentiras só para ser punida pela escola. Recatada e fechada para si e para os outros, ela descobre em Ivy (Drew Barrymore) alguém com um temperamento diferente do seu, aproximação que a deixa animada. Despudorada, às vezes vulgar e cruel, Ivy é o veneno em pessoa. Em algumas cenas, a jovem Cooper descreve a sua nova amiga como uma “piranha”.

Ela não está muito errada. Em pouquíssimo tempo após ter encontrado a nova amizade, Ivy já ganha uma carona. Quem dirige? O pai, Sr. Cooper (Tom Skerritt), homem que sente o cheiro do perigo exalado pela jovem, a sair por todos os poros. A sua preocupação inicial deveria ser o quão “vadia” a sua filha se tornaria ao andar com a garota. Mas não é por aí que as coisas caminham. Estamos versando sobre um filme disfuncional em relação à instituição da família tradicional. A preocupação maior é a transferência da garota do banco de trás para o seu colo, algo que não demora muito para acontecer.

Dentre os momentos mais íntimos, há uma cena de sexo carregado pela culpa, numa região deserta da cidade. Hoje é tão comum, mas na época era algo que ainda não tinha sido alvo de tanta exaustão no cinema não pornográfico. Mais adiante, no entanto, as coisas perdem o controle quando o furacão loiro decide que para ter mais atenção do amante, será preciso aniquilar algumas vidas. Não chega a deixar um rastro de sangue ou ser uma assassina slasher, mas o crime adentra a sua agenda macabra. As tentativas também, algumas naufragadas, no que resultou o desfecho moralista do bem contra o mal, a incessante busca por ajuste da ordem. Quem sobra na história é Georgie (Cheryl Ladd), a mãe enferma de Sylvie, uma mulher que confia, mas depois desmascara a mal-intencionada Ivy, o demônio em pessoa.

Basicamente, o que ela quer é ser a nova matriarca. Para nos contar tudo isso, a direção não nos poupa dos enquadramentos que promovem uma captação sexual de cada parte do corpo da personagem, trajada pelos figurinos de Ellen Gross. Ainda sobre a direção de fotografia de Phedon Papamichael, os movimentos de câmera são eficientes na contemplação das agitadas cenas de sexo, perseguição e crimes da antagonista perigosa. Os cenários assinados por Michele Muniz, oriundos do projeto de design de produção de Virginia Lee, também são eficientes, adequados aos perfis dos personagens que circulam por tais espaços.

Ademais, a edição ágil de Gina Mittelman torna algumas passagens ágeis e sufocantes, tal como o ritmo dos acontecimentos. Nós, espectadores críticos, ficamos diante de alguns excessos da narrativa, perdida entre o drama, suspense e as pitadas eróticas nem um pouco sutis. O velho tabu entre homem mais velho e garota da mesma idade que sua filha vai aos extremos nesta produção, despreocupada com qualquer demanda conectada aos pudores da sociedade estadunidense tradicionalista dos anos 1990, uma das fases mais puritanas da política, mas revolucionária em suas tramas cinematográficas.

Relação Indecente (Poison Ivy/Estados Unidos, 1992)
Direção: Katt Shea
Roteiro: Andy Ruben, Melissa Goddard
Elenco: Alan Stock, Cheryl Ladd, Drew Barrymore, Jeanne Sakata, Leonardo DiCaprio, Sara Gilbert, Tom Skerritt
Duração: 94 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.