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Crítica | Relax (1985)

por Fernando Campos
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Independente da área que cada um escolhe, todos estudam e trabalham com o mesmo objetivo básico: ter uma vida confortável. Evidente que, dentro do contexto de cada um, há outros objetivos de vida, mas uma vida financeiramente segura é uma meta geral. Portanto, como prega o sonho americano, a maioria quer uma casa, um carro e um bom emprego que traga tudo isso.

Contudo, devido ao consumismo e os constantes estímulos que a população é submetida,  quando temos uma casa, queremos uma com piscina. Quando possuímos um veículo, almejamos uma Mercedes. Quando estamos em um bom emprego, queremos ser chefe. Nessa dinâmica tóxica, em que a maioria realmente precisa viver com pouco, é absurdo quem tem muito não estar satisfeito. Sobre isso, Albert Brooks fala no divertido Lost in America, estranhamente traduzido como Relax no Brasil.

A dupla principal, assim como a maioria dos casais privilegiados, são duas pessoas caretas que passaram a vida mais preocupados em ganhar dinheiro do que em tentar se desenvolver pessoalmente. Diante dessa caretice e sem noção dos próprios privilégios, os dois se impressionam enormemente com o filme Sem Destino, que discursa sobre liberdade e rebeldia. Deslumbrados pelo longa, os dois largam seus empregos e partem para uma aventura pelos Estados Unidos dentro de um motorhome.

A direção de Brooks ressalta o vazio interno de David e Linda, bem como do universo que os rodeia, através da direção de arte e de uma fotografia burocrática, que aqui serve justamente pra evitar qualquer romantismo sobre a viagem patética do casal. Perceba como, no início, a casa que os dois estão vendendo é tomada por cores frias e sem qualquer emoção, bem como as roupas acinzentadas deles. Outro momento simbólico nesse esquema de cores é quando David escolhe uma Mercedes, dizendo para o vendedor que quer um carro cinza ou preto, ou quando Linda decide a cor dos azulejos da nova casa, optando pelo laranja queimado, mostrando  a falta de vibração dos personagens.

Também é fundamental em Relax as atuações de Albert Brooks e Julie Hagerty, uma vez que, com papéis de duas pessoas sem noção em mãos, são as atuações deles que cativa os personagens perante o público. Além de terem uma boa dinâmica para o humor, Brooks e Hagerty ressaltam a idiotice da dupla, mas pontuando que se trata de duas pessoas boas, beirando a ingenuidade, como na cena da mulher apostando no cassino.

Dito isso, dentro da estrutura de road movie, é emblemático que a primeira parada dos protagonistas, depois de “abandonarem a sociedade”, seja em Las Vegas, uma cidade símbolo dos EUA, em que a diversão está em perder e ganhar dinheiro. Brooks busca analisar como funciona o consumismo na mente das pessoas e a primeira reflexão trazida por ele é como esse fator banaliza conquistas e bens. Assim como numa mesa de apostas em um cassino qualquer, nenhum valor é suficiente se sentirmos que mais está ao alcance. Nesse aspecto, consumismo e capitalismo andam entrelaçados, visto que a doentia busca por mais é o que faz a roda girar, pagando a conta dos poucos que realmente lucram com esse jogo.

Com bastante sensibilidade, o texto de Brooks não ironiza todos que buscam uma vida melhor ou a classe trabalhadora em si, mas sim os que não vêem os próprios privilégios. O exemplo disso está na brilhante cena em que David procura emprego em uma agência e, ao comentar seu currículo para o recrutador e os motivos de ter caído na estrada, ouve: “você não conseguiu mudar sua vida com 100 mil dólares por ano?”.

Por fim, enriquecendo ainda mais o filme, Relax possui camadas de metalinguagem, debatendo como o cinema serve de instrumento para propagar idéias ruins, como a meritocracia ou romantizando histórias de superação, como se o sofrimento fosse necessário para conquistar algo, algo representado pelos comentários dos protagonistas sobre Sem Destino. Dentro disso, é brilhante a escolha pelo final absolutamente anticlimático. O casal termina a aventura onde começou, David aceita a proposta que achava injusta para ele e vai morar em Nova Iorque, cidade que admitiu detestar. Não há redenção para quem já é privilegiado.

No sentido de profundidade de temas, Relax possivelmente é o melhor texto da carreira de Albert Brooks e Monica Mcgowan Johnson. Além disso, aqui, Brooks se mostra um diretor seguro e ator competente, resultando em um dos melhores trabalhos da carreira do comediante. Não só isso, como toda comédia deve ser, o filme diverte e possui um ritmo agradável. Em meio a um universo consumista e desigual, a arte cinematográfica pode servir para propagar essas idéias ou proporcionar um momento de relaxamento em meio às dificuldades do dia a dia.

Relax (Lost in America) – EUA, 1985
Direção:
Albert Brooks
Roteiro:
Albert Brooks e Monica Mcgowan Johnson
Elenco:
Albert Brooks, Julie Hagerty, Michael Greene, Garry Marshall, Maggie Roswell, Tom Tarpey, Ernie Brown, Joey Coleman,  Art Frankel, Donald Gibb, Sylvia Farrel, Tina Kincaid, Candy Ann Brown, Hans Wagner
Duração:
91 min

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