Quando perguntado sobre a origem de Sangue de Monstro, R. L. Stine disse que a ideia veio de dois cenários domésticos ao mesmo tempo: uma imagem do filho dele brincando com slime e ele mesmo abrindo um pote de salada na geladeira e encontrando aquela substância viscosa e pegajosa. É uma inspiração engraçada, convenhamos, e ela diz muito sobre o espírito da série Goosebumps: pegar coisas do dia a dia e retorcê-las até que fiquem absurdas e medonhas. O problema é que Sangue de Monstro foi escrito dentro de uma das condições mais improváveis da história recente da literatura infantil, quando a Scholastic Press contratou Stine para entregar quatro livros em um único semestre, que acabaram sendo lançados entre julho (os dois primeiros), setembro e novembro de 1992. Esse ritmo de linha de montagem obviamente deixou marcas no texto, e este terceiro título da série é outra grande prova disso.
Stine já havia girado a mesma roda nos dois livros anteriores: adolescente deslocado para um lugar estranho, adulto suspeito por perto, o horror chegando aos poucos. Em Bem-vindo à Casa dos Mortos e Fique Longe do Porão, eram dois irmãos lidando com o estranhamento juntos; aqui, Evan vai sozinho morar com a tia-avó Kathryn, uma mulher surda e intimidadora, enquanto os pais procuram casa em outra cidade. Esse deslocamento é a mola da história e, nessa função, cumpre bem o que precisa, cria uma ansiedade real no protagonista, instala a desconfiança em relação à tia e abre caminho para que a gosma verde entre em cena. E a gosma, conceitualmente, é onde Sangue de Monstro tem sua ideia mais esperta: a criatura que cresce sem parar, que engole tudo o que encontra, é uma brincadeira clara com o imaginário de A Bolha Assassina (1958), o clássico B com Steve McQueen que explora o estrago de uma massa gelatinosa alienígena que absorvia seres vivos e crescia até tomar uma cidade inteira. Stine pega esse horror de ficção científica cinquentista e o adiciona numa latinha de brinquedo, algo que toda criança dos anos 1990 conhecia de cor. A sacada é boa. A execução de toda essa proposta são outros quinhentos.
Talvez o meu maior incômodo tenha sido alguns personagens secundários, que ficam soltos e possuem participações pouco expressivas para a história. Os gêmeos Rick e Tony Beymer, dois valentões que enchem o saco de Evan ao longo da história, irritam o leitor de um jeito que cria engajamento pelo que fazem ao protagonista, só que eles poderiam sair desse livro e entrar em qualquer outro da série sem que ninguém percebesse a troca. Não têm nada que os prenda a essa história específica. Andrea/Andy uma das duas personagens secundárias com arco mais coeso no livro, cumprindo bem a sua função de acompanhar o protagonista. A outra é tia Kathryn. A ambiguidade ao redor dela sustenta boa parte da tensão até o final, mas aí, à guisa de reviravolta, surge a bruxa Sarabeth (que o livro inteiro foi uma gata), que controlava a pobre senhora há décadas. Essa revelação, infelizmente, aparece jogada e sem o impacto desejado, porque não há preparação dramática suficiente para ela. Se o autor queria colocar uma bruxa na história, que fizesse, então, uma história de bruxa!
Sangue de Monstro deixa claro que Stine tinha ótimo instinto para o horror popular infantojuvenil, mas o ritmo industrial de produção, como sempre, minava a qualidade das histórias. No entanto, a história com a gosma verde funcionou tão bem no imaginário das crianças americanas dos anos 90 que gerou três continuações diretas dentro da série original — Sangue de Monstro II, III e IV, este último ocupando exatamente o número 62, o encerramento da coleção — além de aparecer em publicações posteriores como Goosebumps HorrorLand e SlappyWorld, já sem Evan, já sem Kathryn, já sem qualquer bruxa disfarçada de gata. A criatura sobreviveu, aparentemente muito bem, ao livro que a criou. E, bem… a gente sabe exatamente o que isso significa.
Sangue de Monstro — Goosebumps #3 (Monster Blood), de R.L. Stine — EUA, setembro de 1992
Autor: R.L. Stine
Editora original: Scholastic
No Brasil: Editora Fundamento
Tradução: ?
Capa original: Tim Jacobus
128 páginas
